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Afinal, quem está certo: o FMI ou O Globo? A bíblia neoliberal agora contraria os papas da velha mídia

O humor dos Marinho anda mendigando qualquer pintura fora do quadro que o FMI projetou para o Brasil de Lula em 2027. Parece que a derrota de Flávio Bolsonaro deixou sequelas profundas no departamento de opinião da velha mídia. O resultado é uma espécie de terra arrasada editorial, na qual a orientação que desce do andar de cima para o balcão das redações é vender um Brasil em estado de calamidade, mesmo quando as projeções internacionais apontam em outra direção.

O problema é que o Fundo Monetário Internacional, justamente a instituição que durante décadas serviu de bíblia econômica para os sacerdotes do neoliberalismo, projeta o Brasil entre as oito maiores economias do planeta em 2027, com um PIB estimado em US$ 2,8 trilhões, ultrapassando Itália e Rússia.

E aí começa a contradição.

As vozes de Merval Pereira e Miriam Leitão, no Globo, parecem encontrar dificuldades para acomodar essa realidade dentro do enquadramento político que adotaram para interpretar o Brasil de Lula. Afinal, como explicar que o país esteja caminhando para ocupar a oitava posição no ranking das maiores economias do mundo enquanto parte da imprensa corporativa insiste em pintar um cenário de desastre?

O que aconteceu? Os papas da velha mídia abandonaram o biblicismo econômico que durante tanto tempo professaram? O FMI deixou de ser o oráculo da ciência econômica porque suas projeções já não combinam com os interesses políticos da Faria Lima? Ou descobriram alguma fonte exclusiva de revelação econômica, uma espécie de escritura sagrada que só os Marinho, seus colunistas e os porta-vozes do grande capital conseguem interpretar?

A questão é que O Globo e o Estadão parecem ter desenvolvido uma elasticidade interpretativa impressionante. Quando o FMI oferece números que ajudam a sustentar o receituário neoliberal, suas projeções ganham status de verdade absoluta. Quando os mesmos números contrariam a narrativa de um Brasil em frangalhos, a autoridade do Fundo passa a ser tratada com uma discrição quase constrangedora.

Não se trata de afirmar que o Brasil não tenha problemas fiscais, desafios estruturais ou dificuldades econômicas. Tem, e seria irresponsável ignorá-los. Mas uma coisa é fazer crítica econômica fundamentada; outra, muito diferente, é transformar divergências políticas com o governo Lula em uma espécie de campanha permanente de desmoralização nacional.

O que se vê é a velha mídia tentando impor seu próprio roteiro, mesmo quando os indicadores e as projeções internacionais não colaboram com o espetáculo. A realidade, pelo visto, tornou-se um inconveniente para quem apostou politicamente em Flávio Bolsonaro e agora precisa administrar a ressaca eleitoral.

No fundo, a contradição é mais profunda: o FMI projeta o Brasil na oitava posição entre as maiores economias do mundo, enquanto uma parcela do clero midiático parece empenhada em convencer os brasileiros de que o país está à beira do abismo.

É a trombada de frente entre a projeção econômica e a fé política. De um lado, uma instituição que a própria mídia consagrou como autoridade econômica. Do outro, os intérpretes de uma velha cartilha que parece não admitir que Lula governe o Brasil sem pedir licença à Faria Lima.

A pergunta que fica é: se até a bíblia neoliberal contraria o pessimismo dos seus antigos pregadores, quem está realmente fora da realidade: o Brasil ou os donos da narrativa?


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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