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Cotidiano

El Niño se torna grande ameaça SP com caos climático ao unir fogo, temporal e seca

Chuva acima da média no início do inverno sinaliza fenômeno, mas período crítico virá a partir de setembro

A chuva acima da média em São Paulo neste início de inverno, contrariando a expectativa de uma estação mais seca e quente, é só uma amostra da diversidade climática que a metrópole deverá encarar com a chegada do El Niño.

Se no contexto nacional as principais características do fenômeno são chuvas mais intensas no Sul e estiagem prolongada no Norte e Nordeste, a posição da capital paulista em uma zona de transição a coloca diante da possibilidade de experimentar os dois cenários.

Os quase cem milímetros de precipitação registrados em 24 horas entre a tarde da última terça (23) e a manhã de quarta (24) –mais da metade do esperado para junho– pode ser observado como uma amostra do que o fenômeno pode fazer ao intensificar os chamados jatos de alto nível.

Essa corrente de vento muito forte em elevadíssimas alturas, ao ganhar ainda mais força, carrega mais chuvas para o Sul e também para o Sudeste, segundo o meteorologista Enver Ramirez, chefe da Divisão de Previsão de Tempo e Clima do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Isso não significa que vai chover mais, pois o El Niño não costuma alterar exageradamente o volume anual médio de precipitações na cidade, que é de aproximadamente 1.400 milímetros. Mas há uma mudança no padrão.

Chuvas mais suaves que se estendem por vários dias tendem a se tornar mais raras, dando lugar a pancadas concentradas em pontos específicos.

Esse padrão de temporais é o que mais contribui para ocorrências de alagamentos e transbordamentos em áreas urbanas densamente ocupadas, diz Michael Pantera, meteorologista do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas) da Prefeitura de São Paulo.

O período mais crítico é esperado para o final da primavera, quando a infraestrutura urbana será testada por ondas de calor e por temporais que tendem a chegar acompanhados de vendavais.

Diante dessa perspectiva, 13 áreas da prefeitura que atuam em um plano de prevenção de chuvas foram incumbidas de apresentar ainda em agosto –antes do ápice do fenômeno, a partir de setembro– suas estratégias para lidar com o El Niño, segundo a coordenadora do grupo, Isabel Silveira Camargo, que é engenheira florestal da Secretaria de Mudanças Climáticas do município.

A coordenadora do plano contra os efeitos dos temporais destaca que a limpeza de cursos d’água e poda de árvores são consideradas primordiais para mitigar riscos de inundações e acidentes.

Antes de chegar à temporada de vento e chuva, porém, moradores de capital e de outras regiões do estado ainda podem enfrentar dias de calor intenso, baixa umidade e qualidade do ar comprometida pela fumaça de incêndios em florestas e plantações, a exemplo dos ocorridos em 2024 em quase todo o interior paulista também por influência da última ocorrência do El Niño.

Impacto na saúde
Os efeitos da degradação do ar têm consequências diretas para a saúde pública, afirma a médica Evangelina Araújo, diretora do Instituto Ar. Ela diz que as queimadas, mesmo em áreas distantes, Amazônia e Pantanal, produzem poluentes com partículas extremamente pequenas.

O material é capaz de atravessar a barreira respiratória e atingir a corrente sanguínea, aumentando a incidência de infartos e acidentes vasculares cerebrais em idosos.

Gestantes, crianças e idosos são os grupos mais vulneráveis à poluição extrema, segundo a médica.

Para tentar se antecipar ao espalhamento das queimadas, o Governo do Estado de São Paulo anunciou que usará inteligência artificial para analisar dados meteorológicos, além de utilizar o sistema de câmeras em rodovias para localizar focos em áreas de floresta.

Abastecimento de água
Além de ondas de calor durante o inverno, um dos efeitos possíveis do El Niño é o atraso no início da estação chuvosa, que normalmente tem início em outubro.

Em um cenário pessimista, essa combinação de tempo quente e falta de precipitações pode resultar em redução acentuada dos níveis dos reservatórios que abastecem a metrópole.

Há poucos dias, o governo paulista anunciou que o sistema Cantareira, o mais importante do conjunto de represas da Grande São Paulo, será uma espécie de novo gatilho para que o governo adote medidas mais rigorosas para economizar água.

Caso o nível do Cantareira fique proporcionalmente abaixo dos demais, a redução de pressão do bombeamento noturno poderá durar mais horas. Atualmente a redução de pressão é aplicada por dez horas durante a noite.

Considerando também ações de prevenção a enchentes, como a construção de piscinões e desassoreamentos de rios importantes como o Tietê, o governo de São Paulo também diz ter investido R$ 25 bilhões no seu plano de resiliência hídrica.

Apesar do cenário de alerta, Fernando Dornelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pondera que a magnitude de um El Niño não é uma indicação certeira de que o país enfrentará grandes tragédias, especialmente as provocadas por eventos tão atípicos quanto as grandes cheias que atingiram Porto Alegre e centenas de municípios gaúchos recentemente.

Ele afirma que, embora a probabilidade de inundações aumente durante o fenômeno, a chance de um evento catastrófico ocorrer permanece estatisticamente pequena.

Dornelles defende que o foco das autoridades deve estar no reforço da capacidade de enfrentamento a desastres por meio de treinamentos e simulados, aprimorando as respostas da Defesa Civil.

*ICL


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Meio Ambiente

Para Amazônia, governo Bolsonaro teve efeito devastador de um El Niño

Pesquisa mostra que, nos primeiros dois anos da gestão bolsonarista, emissões de carbono da região dobraram, temperatura subiu e chuva diminuiu.

Segundo a Piauí, depois de lançar um alerta preocupante no ano passado ao mostrar que partes da Amazônia já emitem mais carbono do que absorvem, um grupo de pesquisadores revela agora que a situação piorou ainda mais nos primeiros dois anos do governo Bolsonaro. O novo estudo mostra que em 2019 e 2020, por causa do avanço do desmatamento e das queimadas, as emissões de carbono da região dobraram em relação à média observada entre 2010 e 2018.

Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (19), em formato de pré-print (ainda sem avaliação de outros cientistas), após serem submetidos à revista científica Nature, na qual o artigo ainda está em revisão. Foi o mesmo periódico inglês que publicou o trabalho original, em julho de 2021.

O trabalho, liderado pela química Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), buscou avaliar como a devastação da Amazônia e o desmantelamento das políticas ambientais durante o governo Bolsonaro impactaram a capacidade da região de funcionar como um sumidouro de carbono, ou seja, de retirar mais carbono da atmosfera do que de emitir. Quando faz fotossíntese – o processo pelo qual as plantas se alimentam –, a floresta absorve carbono e o armazena em suas folhas, troncos e raízes. Mas quando ela é derrubada e cortada, todo esse carbono armazenado acaba sendo jogado de volta na atmosfera, piorando o aquecimento global.

A maior floresta tropical do planeta é considerada crucial nos esforços para o combate às mudanças climáticas justamente por ser capaz de retirar da atmosfera o gás carbônico que está lá em excesso por causa das atividades humanas. Mas o desmatamento observado nas últimas décadas, principalmente na porção Leste da Amazônia, já começou a abalar essa capacidade, como mostrou o estudo do ano passado.

A pesquisa publicada em 2021 tinha analisado os dados de fluxo de carbono até 2018. Agora o trabalho foi atualizado, trazendo medições de emissões dos anos de 2019 e 2020. No primeiro ano da gestão Bolsonaro, marcado pela retomada do desmatamento e de fortes queimadas que atraíram críticas em todo o mundo, as emissões de carbono na Amazônia aumentaram 89%. Em 2020, a alta foi de 122% – sempre em comparação com a média de emissões registrada entre 2010 e 2018.

Segundo os pesquisadores, as emissões de carbono da Amazônia nesse período foram comparáveis ao estrago causado em 2010 e 2015/16 pelo El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico que torna a Amazônia mais seca e, portanto, mais inflamável. A diferença principal é que as altas emissões de 2019 e 2020 foram provocadas basicamente por ação humana, visto que nesses dois anos não foi verificada nenhuma condição climática extrema que justificasse essa elevação.

Durante o governo Bolsonaro houve uma alta nos crimes ambientais. A taxa média de desmatamento observada nos nove anos anteriores foi de cerca de 6,3 mil km2. Em 2019 saltou para 10,1 mil km2 e, em 2020, para 10,9 mil km2, de acordo com dados do sistema Prodes, do Inpe, que fornece a taxa anual de desmatamento da Amazônia. O estudo considera uma área um pouco diferente do Prodes. Assim, para os cálculos de emissões, foi usada como referência uma alta de 79% no desmatamento em 2019 e de 74% em 2020, em relação à média de 2010 a 2018. Já a área de floresta queimada subiu 14% e 42%, respectivamente.

O combate ao desmatamento, por outro lado, caiu. Os pesquisadores destacam uma redução de até 54% na aplicação de multas por crimes ambientais e de até 89% no pagamento das multas. “Agora temos uma situação política que tem um efeito similar a um fenômeno de escala planetária que é o El Niño. Vemos esse resultado com relação direta com o desmonte das políticas públicas ambientais”, comentou o pesquisador Raoni Rajão, também autor do estudo. Ele e colegas da Universidade Federal de Minas Gerais colaboraram no trabalho com a análise do desmonte das políticas públicas de combate ao desmatamento.

Gatti destaca que um dos motivos para o aumento das emissões nesses dois anos é que a região Oeste da Amazônia, que na pesquisa publicada no ano passado tinha aparecido como neutra, nos anos de 2019 e 2020 emitiu mais carbono do que absorveu. O dado foi visto como mais um alerta preocupante de que a Amazônia está sofrendo mais do que se imaginava anteriormente. O lado ocidental, historicamente, foi menos desmatado. Enquanto o Leste perdeu 27% da cobertura original, o Oeste perdeu 11%.

A hipótese é de que a alta das emissões do lado Oeste ocorreu porque o desmatamento subiu especialmente no Sul do Amazonas, onde ficam cidades como Apuí e Lábrea, que têm sido alvo de uma expansão da fronteira agrícola. Em 2021 o estado passou a ser o segundo mais desmatado em toda a região, ultrapassando o Mato Grosso, fato que deve se repetir agora em 2022. Mas a alta vem se delineando desde 2019. “Nossa hipótese é de que as consequências do colapso na fiscalização levaram ao aumento do desmatamento, queima de biomassa e degradação, produzindo perdas líquidas de carbono e aumentando a seca e o aquecimento das regiões florestais”, escrevem os autores no artigo.

Assim como no trabalho anterior, os pesquisadores calcularam o impacto do desmatamento na temperatura local e no nível de chuva. Em 2020 houve redução de 12% na precipitação anual – queda que se concentrou principalmente durante a estação úmida. Janeiro, fevereiro e março tiveram 26% menos chuva. Já a temperatura subiu 0,6ºC nesse período. “Esse dado me chocou bastante, porque no estudo anterior a gente tinha visto um impacto de redução de chuva somente na estação seca, tornando-a mais quente, seca e longa. A Amazônia já estava numa situação muito difícil e piorou quando assumiu essa turma que entrou na Amazônia como uma nuvem de gafanhoto”, disse Gatti, em referência à gestão Bolsonaro.

“O primeiro alerta é que as emissões dobraram com essa liberação do desmatamento promovida por Ricardo Salles (ex-ministro do Meio Ambiente) e por Bolsonaro. O segundo é que o lado Oeste, que era mais neutro – ou seja, onde a absorção de carbono pela floresta compensava as emissões humanas – e mais preservado, também está emitindo carbono. O terceiro alerta é que a estação chuvosa também está começando a mudar. É urgente decretar estado de emergência para a Amazônia, uma moratória para o desmatamento”, defende a pesquisadora.

“Estamos causando grandes alterações, e a possibilidade de a Amazônia atingir o ponto de não retorno é cada vez maior”, diz Gatti, em referência às estimativas de que, a partir de um determinado limiar de desmatamento, a região pode perder as suas funções de floresta tropical – principalmente a capacidade de produzir chuva e absorver carbono – e ficar mais parecida com o nosso Cerrado. “Estamos investindo no colapso climático no Brasil. A ideia de transformar o país em fazenda do mundo vai falir com o Brasil. Vamos destruir a maior vantagem brasileira, além de acelerar as mudanças climáticas”, complementa.

Além de Gatti e Rajão, assinam o trabalho outros 28 pesquisadores de oito instituições brasileiras e estrangeiras, como o climatologista Carlos Nobre, da USP, pioneiro nos estudos sobre o risco do chamado tipping point, o ponto de não retorno da floresta, Britaldo Soares-Filho, da UFMG, e Claudio Almeida, que coordena o monitoramento do desmatamento, e Alberto Setzer, de queimadas – ambos do Inpe.

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