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Minerais críticos colocam o Brasil no centro da disputa global

País tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas segue sem marco legal e sob pressão de interesses estrangeiros sobre seu subsolo

O Brasil está sentado sobre uma das maiores riquezas minerais do planeta. Tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, lidera o ranking global de nióbio e figura entre os primeiros em grafita e níquel. São recursos essenciais na fabricação de baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, drones e sistemas de defesa — os insumos da transição energética que o mundo inteiro disputa. A questão que o país ainda não respondeu, e que está no centro de uma acalorada disputa política, é: dessa vez, o Brasil vai agregar valor à sua riqueza ou vai, mais uma vez, vender barato o que tem de mais precioso?

Entenda — Terras raras, minerais críticos e estratégicos: não são a mesma coisa

Antes de entrar na disputa política, vale entender o que está sendo disputado. Os três termos — terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos — aparecem frequentemente como sinônimos, mas têm significados distintos.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), Elementos Terras Raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos — como lantânio, cério, neodímio e disprósio —, mais escândio e ítrio. O nome “raras” é um equívoco pois esses elementos não são necessariamente escassos na natureza, mas costumam estar dispersos no solo, o que torna sua extração economicamente difícil.

Já os minerais estratégicos são aqueles essenciais para o desenvolvimento econômico, com aplicação em produtos de alta tecnologia, defesa e transição energética. Os minerais críticos, por sua vez, são definidos pelo risco de desabastecimento: concentração geográfica da produção em poucos países, dependência externa, instabilidade geopolítica e dificuldade de substituição. A lista muda conforme o tempo, os avanços tecnológicos e as disputas geopolíticas. Exemplos comuns hoje são o lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio.

Uma terra rara pode ser, ao mesmo tempo, mineral crítico e estratégico — mas nem todo mineral estratégico é terra rara. O que une esses três conceitos é a centralidade que ganharam na economia global do século 21, especialmente porque a China domina amplamente o refino e a produção desses elementos, gerando enorme preocupação em países como Estados Unidos e União Europeia, que correm para diversificar fornecedores. É nesse cenário que o Brasil entra como ator de peso.

O que o Brasil tem — e o que ainda falta

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, representando cerca de 23% das reservas globais, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A maior parte está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.

Entre os minerais considerados críticos ou estratégicos na maior parte dos países, o Brasil se destaca por ter as maiores reservas de nióbio do mundo (94%), com 16 milhões de toneladas. Também é o segundo no ranking global de reservas de grafita (26%), com 74 milhões de toneladas, e o terceiro em reservas de níquel (12%), com 16 milhões de toneladas.

Mas ter a reserva não significa dominar a cadeia. O professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, especialista na interseção entre política, economia e mineração, é direto ao apontar o padrão histórico que se repete: “O Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional”, disse em entrevista à Agência Brasil.

Sem avançar nas etapas de beneficiamento e refino — ainda pouco desenvolvidas no país —, o Brasil tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, mesmo sendo dono da matéria-prima bruta.

Um caso emblemático dessa lacuna é a mineradora Serra Verde, que opera em Minaçu, em Goiás. A empresa é a única produtora, fora da Ásia, de quatro elementos críticos e valiosos: o disprósio, o térbio, o neodímio e o ítrio, fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, drones e aparelhos de ar-condicionado de alta eficiência, como nas áreas de semicondutores, defesa, nuclear e aeroespacial. Ou seja, o Brasil tem — e está deixando esse ativo estratégico escorrer pelos dedos.

O que está em jogo — Acordos, venda polêmica e disputa por regulação

Foi justamente a venda da Serra Verde que acendeu o debate político nas últimas semanas. A declaração foi feita no contexto da compra da mineradora Serra Verde pela norte-americana USA Rare Earth, por cerca de US$ 2,8 bilhões. A negociação foi festejada pelo governo de Goiás, cujo ex-governador Ronaldo Caiado assinou com o governo dos Estados Unidos, em março deste ano, um memorando de entendimento para fortalecer a cooperação bilateral entre o estado e os EUA, autorizando a realização de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em parceria e também a facilitação de investimentos para a exploração de minerais críticos.

O movimento foi duramente criticado pelo governo federal. Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, a iniciativa do ex-governador avança sobre temas de competência exclusiva da União. Em entrevista ao ‘Bom dia, Ministro’ desta sexta-feira (24), o ministro enfatizou que “o subsolo brasileiro pertence à União. A competência para regulamentar [a exploração de recursos naturais] é da União. E quem estabelece relações com outros países é a União.”

Sobre a validade jurídica do memorando, Márcio Elias foi igualmente enfático: “É possível que haja boa intenção e um pressuposto legítimo de levar o desenvolvimento para o estado motivando alguém a fazer uma negociação desse tipo, mas do ponto de vista jurídico, ela não se sustenta.” Na prática, o acordo não produz nenhuma obrigação legal e não há risco de o país sofrer qualquer sanção se o descumprir.

Aliados de Lula, os deputados federais Orlando Silva (PCdoB-SP) e Talíria Petrone (Psol-RJ) pediram à Procuradoria-Geral da República (PRG) que investigue a venda e a regularidade da atuação da Agência Nacional de Mineração (ANM) ao dar aval à transferência de controle da Serra Verde. O episódio escancarou a ausência de um marco regulatório claro para o setor — e a velocidade com que interesses estrangeiros se movem sobre as riquezas brasileiras.

No plano internacional, o governo federal tenta construir uma alternativa diferente. Brasil e Alemanha assinaram, na última semana em Hannover, uma declaração conjunta de intenções para ampliar a cooperação científica e tecnológica na área de minerais críticos e estratégicos, considerados essenciais para a transição energética e o desenvolvimento de tecnologias emergentes. O ato foi firmado durante visita oficial do presidente Lula, que se reuniu com o chanceler Friedrich Merz.

Uma semana antes, em Barcelona, depois de assinar acordos que também envolvem a cadeia de minerais estratégicos com o presidente da Espanha, Pedro Sánchez, o presidente foi enfático ao dizer que “nós iremos construir parceria com quem quiser construir, quem quiser compartilhar tecnologia conosco, e o processo de transformação se dará dentro do Brasil. Ninguém, a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza mineral.”

O que muda — Ou o que o governo quer que mude

O discurso oficial é claro. Em Hannover, Lula foi direto ao afirmar que o Brasil não pretende ser coadjuvante nessa disputa global: “Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities.”

O ministro Márcio Elias reforçou a posição ao defender a urgência de uma legislação específica para o setor: “Não queremos ser um exportador de matéria-prima. Não vamos cometer o equívoco de imaginar que minerais críticos ou terras raras sejam objeto de exportação. Têm que ser de industrialização.”

Para avançar nessa direção, o governo federal pediu ao presidente da Câmara, Hugo Motta, que retirasse de pauta o Projeto de Lei 2780/24, que trata da criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A justificativa foi a necessidade de aprimorar o texto antes de submetê-lo aos parlamentares. O ministro foi preciso sobre o que falta no projeto: “O governo federal quer apresentar propostas e sugestões que, sobretudo, aperfeiçoem o dever de industrialização dos minerais críticos.”

A regulação, segundo Elias, precisa cobrir todo o espectro. “Precisamos legislar e regular logo esse tema, porque ele suscita não apenas dúvidas, mas, sobretudo, insegurança [jurídica] sobre quem pode explorar, as mudanças, as fusões e as transformações dessas empresas, quem pode acessar o alvará para explorar e minerar. Tudo tem que estar regulado.”

O ministro rejeita a criação de uma estatal para o setor, argumentando que já existem instrumentos legais que permitem subvenções e associações com o setor privado, e que uma estatal não seria sinônimo de melhor aproveitamento dos ativos.

A crítica que ninguém quer ouvir

Por trás dos acordos diplomáticos e dos discursos de soberania, há uma contradição histórica que especialistas se recusam a ignorar. Para o professor Wanderley, da UFF, sem avançar nas etapas de industrialização, o Brasil vai continuar preso à mesma armadilha de sempre. E o peso disso não será apenas econômico.

O geógrafo é contundente ao tratar dos impactos socioambientais da mineração: “Não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios em que ocorre: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração.”

Mesmo um modelo menos agressivo, avalia o especialista, não seria isento de danos: ainda seriam feitos grandes buracos para extrair os minérios, montanhas seriam desmontadas e cursos d’água afetados. Para Wanderley, é preciso pensar com calma se realmente vale a pena, considerando a magnitude dos efeitos socioambientais envolvidos.

O debate, portanto, vai muito além de quem assina o acordo ou quem compra a mineradora. Envolve decidir para quem essa riqueza vai servir, quem vai pagar o custo ambiental e quem vai ficar com o valor agregado quando o minério virar bateria, turbina ou chip.

*Vermelho


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Brasil e Índia assinam acordo sobre minerais críticos e terras raras

Brasil e Índia assinaram hoje (21 de fevereiro de 2026) um acordo (memorando de entendimento – MoU) sobre minerais críticos e terras raras, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, em Nova Délhi.

O anúncio foi feito após reunião entre Lula e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Ambos destacaram o acordo como um passo pioneiro e histórico para fortalecer cadeias de suprimento resilientes, especialmente no contexto da transição energética global e da redução da dependência de fornecedores dominantes (como a China, que controla grande parte do mercado de terras raras).

Principais pontos do acordo

Foco em cooperação técnica, investimentos e exploração de minerais críticos (como lítio, nióbio) e elementos de terras raras.

Esses materiais são essenciais para tecnologias como veículos elétricos, painéis solares, smartphones, baterias, motores de aviões, equipamentos de defesa e energias renováveis.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, o que o posiciona como fornecedor estratégico.

A Índia busca diversificar fontes de suprimento para reduzir dependência externa e impulsionar sua indústria de alta tecnologia e transição energética.

Não se trata de um contrato com metas financeiras obrigatórias ou volumes específicos de investimento imediato, mas de um framework para ampliar parcerias futuras, incluindo pesquisa, processamento e cadeias sustentáveis.

Contexto da visita de Lula à Índia:

Os líderes também definiram meta de elevar o comércio bilateral para além de US$ 20 bilhões nos próximos cinco anos (atualmente em torno de US$ 15 bilhões ou mais).

Outros acordos assinados incluem cooperação digital, mineração no setor de aço e parcerias em energias renováveis.

Lula enfatizou que “Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”.

Modi destacou que “O acordo sobre minerais críticos e terras raras é um grande passo em direção a construir cadeias de suprimento resilientes”.

Esse acordo reforça a parceria estratégica entre os dois países do BRICS e do Sul Global, em um momento de tensões geopolíticas e disputas por recursos estratégicos para a economia verde e tecnologias avançadas.


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Brasil Mundo

Brasil se recusa a ser mera reserva de minerais críticos e articula acordo inédito com a Índia

Governo busca autonomia no processamento e evita pactos que limitem parcerias com outros países

O governo brasileiro negocia um tratado com a Índia focado em minerais críticos e terras raras. As conversas para esse acordo inédito ocorrem enquanto o país demonstra resistência ao bloco comercial sugerido pelos Estados Unidos. O Executivo brasileiro busca manter a autonomia e garantir que o processamento desses materiais aconteça em território nacional, recusando-se a ser uma mera reserva desses minerais para o benefício de uma única nação.

A assinatura do acordo pode ocorrer durante a viagem oficial que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fará a Nova Déli, entre os dias 17 e 21 de fevereiro, quando também devem ser assinados 14 acordos bilaterais em matéria de inteligência artificial e venda de aeronaves militares.

O Brasil é o segundo maior detentor de reservas de terras raras no planeta. Por esse motivo, o Palácio do Planalto quer evitar acordos que funcionem como uma “camisa de força” para suas exportações. O objetivo é diversificar os parceiros comerciais, incluindo China e União Europeia, sem dar exclusividade aos estadunidenses.

O assunto deve estar na pauta da reunião entre Lula e Donald Trump, que deve ocorrer na primeira semana de março, e o governo brasileiro deve reafirmar sua posição.

Luiz Paulo Siqueira, da direção nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), lembra que a Índia, embora não possua reservas tão grandes quanto as chinesas e brasileiras, é uma referência internacional no processamento de terras raras e outros minerais críticos. Por outro lado, destaca que o modelo de exploração que será adotado no Brasil deve ser estabelecido pelos próprios brasileiros.

“Devemos dar um passo anterior: estabelecer entre nós, brasileiros, o que queremos em relação aos bens minerais, sejam os minerais críticos, como terras raras e lítio, ou o conjunto de bens minerais que temos em território nacional. A partir daí, poderemos avançar na construção de acordos, pois qualquer parceria deve ter como condição primordial que o Brasil seja soberano, independente e autônomo em relação ao processamento desses bens minerais”, avalia Siqueira.

“Dessa forma, qualquer acordo realizado no qual inicialmente exportemos essas matérias-primas deve ter como premissa a transferência de tecnologia para que sejamos autônomos no processo de beneficiamento e processamento desses bens minerais.

Na mesma linha, o professor de direito internacional público da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, avalia que a posição “confortável” do Brasil, por ser a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, lhe confere uma margem maior nas negociações, com vistas a garantir que o interesse nacional seja preservado.

“É importante que o Brasil se posicione de maneira a proteger o interesse nacional e ter em mente o desenvolvimento da capacidade de beneficiamento no território nacional. São elementos estratégicos da indústria e da tecnologia”, considera o professor.

“Faz sentido que o Brasil coloque cláusulas estipulando que o beneficiamento seja feito em parte ou integralmente em território brasileiro. Esse ponto é muito importante para que não fiquemos privados da tecnologia de tratamento e de industrialização desses elementos. Temos as reservas, precisamos desenvolver a capacidade de extração, refino e processamento para utilizações industriais estratégicas e muito variadas”, completa.

Aliança gringa
Recentemente, os Estados Unidos reuniram representantes de 54 países em Washington para lançar uma nova aliança em torno a esse tema. A estratégia do governo estadunidense busca isolar a China na corrida por esses componentes minerais, essenciais para a transição energética.

Os minerais estratégicos são fundamentais para a produção de chips, baterias e equipamentos de alta tecnologia. Atualmente, a China domina o refino de 19 dos 20 minerais listados em estudos globais. O governo estadunidense planeja investir US$ 3 bilhões de dólares em financiamentos para tentar reduzir essa dependência e fortalecer as cadeias de suprimento de seus aliados.

Brasil enviou à reunião em Washington apenas um diplomata de baixo escalão para acompanhar as discussões, o que, na linguagem diplomática, demonstra que o país não deseja fazer parte da articulação liderada pelos Estados.

Para Siqueira, a posição do governo brasileiro frente às tentativas de subordinação dos Estados Unidos é acertada. “O acordo que tem sido costurado por Trump enforca o Brasil e nos força a entregar o conjunto de bens minerais que temos em território nacional exclusivamente aos interesses dos Estados Unidos e das multinacionais norte-americanas. Entre os pontos que o acordo estabelecia, os Estados Unidos seriam o parceiro único de exportação das terras raras, sem nenhum tipo de processo de refino no território nacional, sendo todos esses bens minerais destinados à exportação sem nenhum tipo de beneficiamento interno”, explica Siqueira.

“Segundo, obrigava o Brasil a divulgar todas as pesquisas geológicas relacionadas às terras raras ao governo estadunidense, ou seja, mais um atentado contra a soberania nacional ao entregar todas as informações do subsolo brasileiro ao império norte-americano. Terceiro, exigia ainda que o governo brasileiro flexibilizasse a legislação de licenciamento ambiental para dar celeridade na implantação dos projetos de mineração de terras raras. Isso representa toda essa retomada imperialista com maior agressividade do governo Trump na América Latina para abocanhar de vez o conjunto de bens minerais que temos no território latino-americano, especialmente no Brasil. Portanto, negar a participação nessa aliança é um passo fundamental”, completa.

Casella considera que participar de uma articulação com esse caráter seria assumir um lado na guerra comercial que os Estados Unidos tem travado, sobretudo contra a China.

“É muito razoável e sensato que o Brasil não se vincule a esse acordo que tem como objetivo somente o interesse do governo estadunidense e a posição do Brasil é de um lado mais confortável por sermos detentores da segunda reserva de terras raras e minerais estratégicos depois da China, mas com uma muito pequena capacidade de processamento e industrialização. Então, não faz sentido o Brasil em primeiro lugar se vincular aos Estados Unidos nessa briga que não é nossa e em segundo lugar hostilizar ou tentar criar qualquer restrição com relação à atuação coordenada com a China”, pontua.

Alinhamento com o G20, exceto Estados Unidos
A posição brasileira sobre o tema já havia sido verbalizada pelo próprio presidente da República, em fóruns internacionais, como a Cúpula do G20, realizada no mês de novembro de 2025 em Joanesburgo (África do Sul), quando o governo dos Estados Unidos decidiu não enviar representação, em uma tentativa de boicote à reunião.

“Os países com grande concentração de reservas de minerais não podem ser vistos como meros fornecedores, enquanto seguem à margem da inovação tecnológica”, declarou. “O que está em jogo não é apenas quem detém esses recursos, mas quem controla o conhecimento e o valor agregado que deles derivam”, disse Lula, enfatizando que os minerais críticos se tornaram um ativo central para a geopolítica contemporânea, sendo fundamentais tanto para o desenvolvimento de tecnologias de ponta quanto para a transição energética.

Essa posição também foi adotada pelos chefes de Estado presentes em Joanesburgo na declaração final da cúpula.

“Buscamos reforçar a resistência da cadeia de valor dos minerais críticos às tensões geopolíticas, às medidas comerciais unilaterais em violação às regras da OMC, às pandemias e às catástrofes naturais”, declararam os chefes de Estado do G20.

O G20 reconheceu que a transição energética e a inovação industrial ampliarão rapidamente a demanda por minerais críticos, mas que países produtores, sobretudo do Sul Global, enfrentam desafios para melhor os investimentos no setor, ampliar a capacidade de beneficiamento local e reduzir os impactos socioambientais.

Nesse sentido, os líderes lançam o G20 Critical Minerals Framework, uma espécie de guia voluntário e não vinculativo para promover cadeias de valor transparentes, estáveis e sustentáveis.

Contradições: a realidade de quem já sofre com a exploração de terras raras no Brasil
Embora em menor escala, a exploração de minerais raros já é uma realidade no Brasil. Na região do Vale do Jequitinhonha (MG), a mineração de lítio já provoca uma série de mazelas sociais, como explica Siqueira.

“O que temos visto é uma sistemática violação dos direitos das comunidades afetadas por esses projetos, violando tratados internacionais como a Convenção 169, que estabelece a necessidade de consultas às comunidades tradicionais antes da implementação desses empreendimentos. Assistimos à destruição das serras e das águas em uma região que já é semiárida e possui problemas estruturais de acesso à água, além da contaminação de cursos d’água, secagem de nascentes e deterioração da saúde ambiental e humana pela exposição à poeira da mineração”, relata o dirigente do MAM.

“Dados das cidades de Araçuaí e Itinga, que acolheram o primeiro projeto de extração de lítio no Vale do Jequitinhonha com a implementação da Sigma, mostram que no ano de 2025 houve um aumento de mais de 30% na demanda hospitalar, especialmente em casos de doenças respiratórias diretamente ligadas à mineração. Há também um caos na economia local, alterando o modo de vida da região e destruindo a tradicionalidade das comunidades do Vale do Jequitinhonha”, agrega.

Para Siqueira, embora o presidente Lula tenha dado declarações importantes no sentido de superar o modelo de desenvolvimento dependente, baseado na exportação de matérias-primas, no entanto, há uma “distancia significativa entre os discursos de Lula e as ações concretas do governo brasileiro, especialmente no Ministério de Minas e Energia”.

“Para avançarmos, é necessário implementar uma política nacional de mineração muito diferente da atual, com controle estatal dos bens minerais para que o Estado regule as taxas, os ritmos, os compradores e a finalidade, conduzindo um projeto de industrialização associado aos bens minerais do território nacional”, aponta Siqueira, que defende um maior controle do Estado sobre a atividade minerária.

“Com a nacionalização das jazidas e a criação de estatais específicas para a questão mineral, o Estado brasileiro passaria a ter controle sobre esses bens. Isso permitiria regular e processar os minerais em benefício de um projeto de industrialização nacional que traga melhorias de vida para o povo brasileiro, ao contrário do cenário atual, que deixa apenas um rastro de destruição e miséria”, finaliza.

*BdF


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