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O projeto de Bolsonaro para legalizar crimes contra povos indígenas

Quando, no início do mês, o presidente Jair Bolsonaro mandou um projeto de lei ao Congresso para regulamentar a mineração, a exploração de recursos hídricos e outras atividades comerciais em territórios indígenas, ele reconheceu que a medida sofreria “pressão dos ambientalistas”. E assim deveria.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e onde está a maioria das terras indígenas do Brasil, é um dos mais importantes reservatórios de carbono do mundo, essencial para mitigar mudanças climáticas. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil) mostram que o desmatamento na região aumentou 29,5% entre agosto de 2018 e julho de 2019.

Estudos recentes alertam que a destruição acelerada está empurrando a Amazônia para um “ponto de inflexão”, quando se transformaria em uma savana, liberando bilhões de toneladas de carbono armazenado na atmosfera.

O projeto de Bolsonaro pode impulsionar essa tendência perigosa.

Ao legalizar a exploração comercial de recursos naturais em territórios indígenas, o projeto estimularia ainda mais invasões e o desmatamento nesses territórios. Além de impactos ambientais diretos, projetos de mineração e infraestrutura de grande escala, como hidrelétricas, exigem estradas que estimulam o desmatamento, pois permitem um acesso facilitado à floresta para a exploração madeireira e a criação de gado.

O que o mundo tem assistido na Amazônia não é apenas uma crise ambiental mas também uma emergência de segurança pública. Em um relatório publicado no ano passado, a Human Rights Watch documentou como membros de povos indígenas que, na ausência do Estado, se organizam para defender suas florestas, têm sido alvos de ameaças, ataques e, segundo líderes das comunidades, assassinatos por pessoas envolvidas no desmatamento ilegal.

Mas, em vez de garantir o cumprimento da lei, fortalecer as agências federais, responsabilizar as redes criminosas e proteger os guardiães das florestas, o governo quer responder à mineração ilegal simplesmente legalizando-a.

Além das consequências adversas de longo prazo para a Amazônia e o planeta, a destruição da floresta em territórios indígenas tem um impacto imediato sobre os povos que ali vivem, eliminando fontes de subsistência e prejudicando seu modo de vida.

Mas a apresentação desse projeto não surpreende, considerando que o governo Bolsonaro tem reduzido as proteções ambientais e menosprezado o meio ambiente e os direitos dos povos indígenas. O enfraquecimento da fiscalização ambiental tem na prática significado “carta branca” para as redes criminosas envolvidas no desmatamento ilegal.

O desmatamento em terras indígenas na Amazônia aumentou 65% de agosto de 2018 a julho de 2019, segundo o Inpe. O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) informou que de janeiro a setembro de 2019 houve 160 casos de incursões em terras indígenas no país por pessoas envolvidas em invasões possessórias ou exploração ilegal de recursos naturais, como roubo de madeira e garimpo.

Muitas terras indígenas da Amazônia sofrem com o garimpo de ouro e seu desmatamento associado, de acordo com o ISA (Instituto Socioambiental). Povos ianomâmis, por exemplo, relatam que a invasão de milhares de garimpeiros em seu território está associada a uma maior contaminação por mercúrio, que pode ter consequências devastadoras para a saúde, podendo levar a deficiências permanentes e, em casos extremos, à morte.

A FioCruz analisou amostras de cabelo de mulheres e crianças em duas aldeias ianomâmis e descobriu que a maioria apresentava concentrações de mercúrio acima do limite estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

O projeto de lei surge em um contexto em que esse governo, assim como os anteriores, vem desidratando a Funai, agência federal de proteção dos direitos indígenas, com a falta de recursos humanos, orçamento, e outros apoios necessários para cumprir sua missão. Além disso, apesar das duas grandes tragédias no setor de mineração nos últimos cinco anos, em Mariana e Brumadinho, que resultaram em centenas de mortes, a fiscalização dessa atividade no Brasil continua bastante deficiente.

No Pará, havia apenas quatro fiscais em outubro de 2019, segundo a imprensa. Nesse contexto, a abertura de terras indígenas para a mineração é receita para desastre.

O governo alega que a proposta beneficiaria indígenas. No entanto, eles não participaram, como deveriam, da construção do projeto de lei, e o próprio texto não contém os requisitos necessários para garantir o consentimento informado das comunidades afetadas, conforme os padrões internacionais.

s povos indígenas do Brasil têm bons motivos para duvidar de que o governo protegerá suas comunidades e o meio ambiente. Suas lideranças já denunciaram o jogo sujo do governo que permite o saqueamento da Amazônia. O Congresso deve unir-se a eles e se opor à nova jogada de Bolsonaro — um projeto de lei que provavelmente só aceleraria a devastação.

 

 

*Maria Laura Canineu e Andrea Carvalho/Uol

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Vocação de Bolsonaro é tirar dinheiro dos pobres. O resto é fake news

Se os indicadores sociais de 2019 mostram um país onde o governo reduz os programas sociais mais relevantes, não há o menor sinal de melhoria para 2020, nem 2021, ou 2022, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia.

O cotidiano da sociedade brasileira mostra que a vocação de Bolsonaro é tirar dinheiro do bolso dos pobres, em particular dos muito pobres, aqueles que não têm o suficiente para colocar comida na mesa ou uma casa para morar.

Os números oficiais registram a agonia do Minha Casa, Minha Vida, que já foi o mais ambicioso projeto de moradia popular da história do país e um dos maiores do mundo. Ajudava a criar empregos para os operários e residência para quem não pode comprar — além de assegurar ganhos que animam empresários a investir.

Em 2018, o programa conseguiu 153,2 mil moradias na faixa 1, das famílias mais pobres, para quem o subsídio pode chegar a 90% do preço de cada unidade. Em novembro de 2019, o balanço de 11 meses mostrava que apenas 54,5 mil residências foram entregues.

Num movimento que obedece ao mesmo impulso nervoso central, a máquina que suspende a construção de moradias populares também reduz a proteção que era assegurada pelo Bolsa Família.

Num país que está longe de ter vencido a pior e mais prolongada crise econômica de nossa história recente, enquanto as carências domésticas se multiplicavam ano após ano o total de famílias atendidas caía — de 13,8 milhões para 13,1 milhões.

Num sofrimento inédito na longa história de nosso sistema de previdência publica, a fila daqueles que já têm direito a receber a aposentadoria mas são travados burocraticamente já alcança 1,2 milhão de pessoas. A desculpa é que o governo ainda não se adaptou às regras da reforma que tentava implantar antes de ganhar a eleição.

Talvez não exista tragédia social mais dolorosa do que encontrar homens e mulheres que, sem alternativa melhor, começam a esticar a mão para pedir esmola. É uma cena programada, na verdade, ainda que tenha se tornado cada vez mais frequente nas grandes cidades brasileiras.

Pela primeira vez em duas décadas de Benefício de Prestação Continuada, foram feitos 5.600 cortes e, ao mesmo tempo, 150.000 pedidos novos ficaram paralisados (Folha de S. Paulo, 29/10/2019).

Tecnicamente, costuma-se explicar essa situação de empobrecimento programado pela necessidade de controlar despesas do Estado, argumento usado para justificar a Emenda de Controle de Gastos.

Um dos pilares do neoliberalismo, a Emenda proíbe que o governo tenha gastos superiores à inflação do ano anterior, o que assegura um ambiente econômico de crescimento sempre perto de zero ou negativo. Horizonte que só interessa a quem não precisa de emprego e tem o futuro assegurado por várias gerações, graças a uma pirâmide social na qual 1% tem acesso a 26% da renda do país inteiro.

A questão é política. A indiferença absoluta pelo destino dos pobres, daqueles que não tiveram e não terão oportunidade, nem seus filhos, nem seus netos, é o ponto essencial do projeto de Bolsonaro. Por isso ele diz que os empresários sofrem.

Alguma dúvida?

 

 

*Paulo Moreira Leite/247