Há momentos em que o silêncio deixa de ser ausência de manifestação e passa a ser uma mensagem política. No caso do ministro André Mendonça, a demora em se posicionar sobre questões que envolvem Flávio Bolsonaro e sua campanha presidencial alimenta justamente essa percepção: quanto mais o ministro se cala, mais seu silêncio passa a ser interpretado como uma escolha.
O momento é especialmente delicado. Mendonça é relator, no Supremo Tribunal Federal, de processos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, enquanto a campanha de Flávio Bolsonaro é acusada pelo PT de ter tido acesso a áudios que estariam sob sigilo judicial. O partido pediu ao STF que investigue o suposto vazamento, e Mendonça está diretamente envolvido na análise de parte desses processos.
A questão, portanto, não é exigir que um ministro condene ou absolva alguém por pressão política. É exigir transparência, coerência e igualdade de tratamento. Quando há acusações graves envolvendo um candidato à Presidência, o silêncio prolongado de uma autoridade judicial pode produzir uma impressão extremamente perigosa: a de que existem situações que merecem respostas imediatas e outras que podem esperar.
E essa impressão se torna ainda mais incômoda diante de outras decisões recentes do ministro no ambiente eleitoral. Mendonça e Kassio Nunes Marques sinalizaram entendimento favorável a uma possível flexibilização das regras sobre deepfakes, tema que envolve diretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O TSE, porém, atualmente possui regras que vedam o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas.
Não se trata de afirmar, sem provas, que André Mendonça esteja favorecendo Flávio Bolsonaro. Trata-se de algo mais simples e mais sério: a Justiça precisa parecer tão imparcial quanto deve ser.
Em uma eleição marcada por desinformação, inteligência artificial, vazamentos de informações e disputas judiciais, ministros dos tribunais superiores não podem permitir que suas omissões sejam transformadas em combustível para suspeitas. A autoridade de um magistrado não se sustenta apenas nas decisões que assina, mas também na confiança pública que consegue preservar.
E confiança pública não combina com dois pesos e duas medidas.
Se há uma acusação contra Flávio Bolsonaro, que seja investigada. Se não há fundamento, que isso seja esclarecido. Se há ilegalidade, que sejam tomadas as providências cabíveis. O que não pode prevalecer é um silêncio que se prolonga justamente quando as dúvidas aumentam.
Porque, na política e na Justiça, o silêncio também comunica.
E quanto mais tempo André Mendonça permanecer calado sobre Flávio Bolsonaro, mais espaço haverá para que a sociedade faça a pergunta inevitável: o que exatamente esse silêncio está dizendo?
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