O maior cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro depois do pai é o ministro “terrivelmente evangélico”

Se Jair Bolsonaro continua sendo o principal fiador político de Flávio Bolsonaro, há um personagem que, pelo peso institucional de suas decisões e pela visibilidade que ganhou no cenário eleitoral, passou a ocupar um espaço cada vez mais incômodo nessa equação: o ministro André Mendonça, o magistrado que chegou ao Supremo indicado por Bolsonaro sob a célebre promessa de ser “terrivelmente evangélico”.
A relação entre Mendonça e o universo bolsonarista não é uma invenção retórica. Ele foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro em 2021 e mantém proximidade conhecida com Michelle Bolsonaro. Ao mesmo tempo, tornou-se relator de investigações envolvendo o caso Master e fatos relacionados a Flávio Bolsonaro. A própria imprensa tem destacado o peso político que suas decisões podem adquirir durante a campanha eleitoral.
É justamente aí que está o ponto central da questão: quando um ministro do Supremo passa a ocupar uma posição capaz de produzir decisões com impacto direto sobre a disputa eleitoral, cada despacho ganha uma dimensão que ultrapassa os autos.
Não se trata de afirmar que Mendonça esteja agindo para beneficiar Flávio. O próprio ministro afirma que suas decisões serão baseadas nas evidências apresentadas pela Polícia Federal e que não permitirá que preferências políticas interfiram em sua atuação.
Mas política também é percepção. E, numa eleição tão polarizada, a percepção de independência é tão importante quanto a independência propriamente dita.
O problema se torna ainda mais delicado porque Flávio enfrenta questionamentos relacionados à sua relação com Daniel Vorcaro e aos R$ 61 milhões destinados à produção do filme “Dark Horse”. Flávio nega irregularidades e afirma que sua relação com Vorcaro esteve ligada à busca de recursos para o projeto cinematográfico.
Nesse ambiente, qualquer decisão judicial envolvendo o candidato pode repercutir como um terremoto político.
Por isso, a cobrança precisa ser objetiva: Mendonça não tem que provar que é contra Flávio Bolsonaro. Tem que provar, a cada decisão, que não é a favor dele.
E essa diferença é fundamental.
A Justiça não pode ser percebida como instrumento de proteção de aliados, tampouco como arma contra adversários. Um ministro do STF não é cabo eleitoral de candidato algum. Sua única obrigação é com a Constituição, com as provas e com a imparcialidade.
Se Flávio Bolsonaro pretende disputar a Presidência apresentando-se como herdeiro político do pai, precisa responder politicamente pelos próprios atos. E se André Mendonça ocupa a cadeira que Bolsonaro lhe entregou, precisa demonstrar institucionalmente que a toga não veio acompanhada de compromisso político com a família que o indicou.
No fim das contas, a questão é simples e contundente: quanto maior o poder de uma decisão judicial sobre uma candidatura, maior precisa ser a transparência sobre os critérios que a fundamentam.
Porque, numa democracia, nenhum candidato pode ter como cabo eleitoral o poder da caneta de um ministro do Supremo.
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