E há uma ironia deliciosa nisso tudo: Lula não precisou madrugar. Quem teve de acordar cedo para se explicar foi Moro.
A Lava Jato já não tem a mesma aura. Os personagens que antes desfilavam como celebridades do combate à corrupção agora precisam prestar contas sobre os métodos, as escolhas e as consequências daquele período.
Moro pode até tentar recontar sua história. Pode produzir entrevistas, discursos e justificativas. Mas existe um problema insolúvel: a história não é propriedade de quem a conta — muito menos de quem um dia contou com uma mídia inteira ajudando a contá-la.
Foi Lula aparecer no JN e dar uma chacoalhada em Sérgio Moro para acontecer uma coisa inédita: o ex-juiz da Lava Jato teve de madrugar para defender a própria biografia.
E o mais divertido não foi nem Lula colocar Moro contra a parede.
Foi o silêncio da velha mídia.
Cadê os salvadores de Moro?
Cadê os editorialistas indignados?
Cadê os comentaristas que, durante anos, ajudaram a transformar o ex-juiz em super-herói nacional?
Sumiram.
Moro ficou ali, sozinho no palco, procurando quem lhe emprestasse uma capa de herói.
Durante a Lava Jato, bastava uma operação policial, uma delação ou uma manchete para a máquina midiática funcionar a todo vapor. O personagem era celebrado, incensado e tratado como símbolo da luta contra a corrupção.
Agora, quando Lula resolve cobrar a conta, o ex-herói olha para os lados e…
Nada.
Nem um editorial para salvá-lo.
Nem uma operação de resgate jornalístico.
Nem aquele velho batalhão de comentaristas para explicar que Moro estava sempre certo.
Desta vez, Moro teve de se defender sozinho.
E essa talvez seja a parte mais cruel da história: não é apenas Lula que mudou o roteiro. É que a blindagem midiática de Moro já não parece funcionar como antes.
O homem que um dia foi apresentado como o juiz que colocaria o Brasil nos trilhos agora precisa correr atrás do próprio passado antes que alguém o alcance.
E Lula, pelo jeito, nem precisou madrugar.
Quem perdeu o sono foi Moro.
A Lava Jato produziu heróis de manchete.
O tempo, porém, tem o péssimo hábito de conferir as notas de rodapé.
E quando a maquiagem começa a escorrer, não há editorial que dê conta de esconder o rosto por baixo.
Moro madrugou. A mídia dormiu. E Lula ficou acordado.
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