O tiro de misericórdia no neoliberalismo globalizado e a resistência contra o banditismo digital
Se fosse necessário traduzir em uma síntese política o que aconteceu nos últimos 11 dias — a vitória de Lula, a derrota de Flávio Bolsonaro, a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato e a renúncia de Santiago Peña, presidente do Paraguai —, eu definiria esse conjunto de acontecimentos como um duro golpe, talvez o tiro de misericórdia, na arquitetura política do neoliberalismo globalizado.
Mas há um elemento que atravessa todos esses episódios e merece um capítulo à parte: o tecnofascismo. Ele operou como braço tecnológico e propagandístico dos interesses do grande capital globalizado, numa ofensiva contra a democracia, a soberania popular e o próprio Estado de Direito. Uma engrenagem sofisticada de manipulação da informação, fabricação de consensos, silenciamento de vozes dissidentes e controle do debate público, em proporções jamais vistas na história da humanidade.
E vejam bem: isso não começou agora no Brasil. Certamente se intensificou durante o processo eleitoral, mas vem de muito antes. Desde a chegada de Bolsonaro ao poder, em 2018, matérias, vídeos, opiniões e conteúdos publicados por blogs e redes progressistas passaram a enfrentar diferentes níveis de restrição, invisibilidade e censura algorítmica. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma estrutura de poder digital que, historicamente, tem demonstrado enorme afinidade com os interesses da direita e do grande capital.
Nós, do Antropofagista, fomos e continuamos sendo vítimas dessa perversidade tecnocrática. Desde 2018, assistimos à frequência de acesso ao blog despencar gradualmente, mas de maneira brutal, à medida que os algoritmos passaram a restringir nossa circulação e a reduzir nossa capacidade de alcançar leitores. Não foi uma mudança natural de comportamento do público. Foi um processo de asfixia digital que atingiu, sobretudo, veículos independentes, progressistas e comprometidos com uma visão crítica da sociedade.
O mais grave é que essa realidade não mudou. Pelo contrário: as big techs continuam fiéis ao mesmo projeto de concentração de poder, controle da informação e proteção dos interesses políticos e econômicos que as sustentam. A derrota eleitoral de seus aliados não significou qualquer recuo na estrutura de censura e manipulação que ajudaram a consolidar.
Mesmo depois das derrotas da direita no Brasil, nos Estados Unidos e do abalo político no Paraguai, seguimos enfrentando uma censura implacável. As plataformas continuam dobrando a aposta contra a liberdade de expressão, a liberdade de pensamento e a pluralidade ideológica. Parece que, para essas corporações, a vontade popular pode até prevalecer nas urnas, desde que não ameace o poder que elas exercem sobre a circulação das ideias.
É justamente aí que está o tamanho do problema. Não basta derrotar eleitoralmente o fascismo se permanecem intactas as estruturas tecnológicas e econômicas que alimentam sua reprodução. Não basta vencer nas urnas se o debate público continua submetido aos interesses privados de meia dúzia de conglomerados digitais que se comportam como donos da informação, da visibilidade e, em última instância, da própria democracia.
Mas seguimos aqui. A duras penas, enfrentando a asfixia financeira, a invisibilidade algorítmica e todas as formas de sabotagem digital. Seguimos porque o Antropofagista não nasceu para se curvar aos interesses dos poderosos, muito menos para pedir licença aos donos das plataformas para exercer o direito de pensar, criticar e informar.
O que esperamos é uma decisão soberana do Brasil, com regulação democrática e responsabilização das plataformas, que coloque limites ao verdadeiro banditismo digital e devolva à sociedade o direito de decidir livremente o que deve circular no espaço público.
Por isso, fazemos um chamado aos nossos leitores: compartilhem nossas publicações, ajudem a romper o bloqueio algorítmico e apoiem financeiramente o Antropofagista. Cada compartilhamento é uma brecha na censura. Cada contribuição é um gesto concreto de resistência.
Porque, se os poderosos têm dinheiro, algoritmos e máquinas de propaganda, nós temos a palavra, a consciência crítica e a disposição de não abandonar a luta.
O Antropofagista resiste. E resistir, neste momento, também é um ato de liberdade.
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