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Estudantes que iniciaram onda de atos pró-Lula voltam às ruas: ‘Obstáculo à extrema direita’

“Enquanto existirem estudantes organizados, eles não vão atingir os objetivos deles sem resistência”, diz João Paulo Pimenta

Na noite de segunda-feira, 5 de outubro, quando os brasileiros progressistas ainda estavam perplexos com a vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno das eleições, realizado na véspera, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), resolveram agir. Alunos de Direito organizaram um ato para mostrar ao candidato do PL e aos congressistas de extrema direita que foram eleitos que pelo menos ali haveria resistência.

“Era para os estudantes de Direito se manifestarem, mostrarem a indignação para quem estava passando na rua, para a gente mostrar que estaríamos ali e continuaríamos independente do resultado”, recorda João Paulo Pimenta, de 22 anos, que cursa o 7º período do curso de Direito e é diretor-executivo do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV). “Quando nós piscamos começou a ter uma adesão enorme dos CAs e DAs da UFF. E no final tinha duas mil pessoas na rua”.

Após o ato em Niterói, as manifestações de estudantes universitários começaram a se multiplicar por todo o país e rapidamente outras categorias e cidadãos comuns se juntaram à massa humana que tomou as ruas de várias cidades.

Esse impulso fundamental para a vitória de 2º turno não se esgotou na eleição. Nesta segunda-feira (26) os estudantes da UFF fazem ato para mostrar ao Congresso de extrema direita que a pauta de supressão de direitos não será algo fácil de levar à frente

“É pra dizer para a extrema direita que nós seremos o obstáculo deles. Que enquanto existir movimento estudantil, enquanto existirem estudantes organizados, eles não vão atingir os objetivos deles sem resistência”, diz Pimenta, que concedeu entrevista ao ICL Notícias:

João Paulo Pimenta Armando, 7º período do curso de Direito da UFF. Estou Diretor Executivo do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV). De camisa branca.

ICL Notícias – Qual a pauta da manifestação de hoje?

João Paulo Pimenta – Nosso objetivo de hoje é reforçar o que a gente fez nos últimos quinze dias de campanha. Quer dizer que os estudantes estiveram presentes na campanha, nós que não desistimos um segundo, que nós estaremos aqui como nós estivemos desde sempre para lutar por uma educação pública e gratuita de qualidade. É pra dizer para a extrema direita que nós seremos o obstáculo deles. Que enquanto existir movimento estudantil, enquanto existirem estudantes organizados, eles não vão atingir os objetivos deles sem resistência. Que nós da Universidade Federal Fluminense, nós da Faculdade de Direito, permanecemos permanecemos vigilantes.

E não é porque o Lula ganhou que nós vamos relaxar. Não, o Lula ganhou. Isso é ótimo. Mas o Congresso continua sob ameaça da extrema direita, sob ameaça do desmonte que eles que fazer no Estado. Então, nós permaneceremos nas ruas, nós permaneceremos nas universidades, dizendo que eles não irão fazer o que eles pretendem fazer sem a nossa resistência.

Por causa das manifestações de rua na campanha do 2º turno, Lula disse que vai repensar sua maneira de governar e vai fazer uma gestão mais próxima ao povo. Como acha que isso pode ser feito?

Eu acho que foi uma fala muito positiva do presidente Lula, porque a percepção de muitas pessoas é de que os governos do PT se afastaram das bases. O que não necessariamente é verdade. Mas me parece ser uma percepção de um número razoável de pessoas Então, é importante que o discurso volte a ser esse. Volte a ser “Nós vamos estar nas ruas”, “Nós vamos estar próximos das bases”. Porque, no final das contas, são as bases que elegem os governos e os mandatos do Partido dos Trabalhadores.

O Lula é uma pessoa que veio da base, então é essencial que esse discurso seja efetivamente transformado em uma prática. E eu acredito, sim, que isso possa ser factível, atendendo de uma maneira mais publicizada e efetiva algumas demandas essenciais da população em geral. A chave é ter mais presença nas redes sociais, divulgando o que o governo faz, escutar as reivindicações da sociedade civil, que não são poucas hoje, muito graças aos governos do Michel Temer e de Jair Bolsonaro.

Que o Lula chame as entidades de representação para Brasília, para conversar, para sentar e ouvir o que essas pessoas querem, pensar como é possível realizar o que essas pessoas quere. Isso é essencial na minha visão.

Vídeo da primeira manifestação na campanha do 2º turno

Vocês esperavam que aquela primeira manifestação em Niterói fosse se tornar o estopim para uma mobilização nacional tão gigantesca?

Não, a gente não esperava. Na verdade, não esperávamos nem que o nosso ato no dia 5 fosse tomar as proporções que tomou. Porque originalmente foi planejado pelo CAEV, que é o Centro Acadêmico Evaristo da Veiga, da Faculdade de Direito da UFF. Era para os estudantes de Direito se manifestarem, mostrarem a indignação para quem estava passando na rua, para a gente mostrar que estaríamos ali e continuaríamos independente do resultado.

E quando nós piscamos começou a ter uma adesão enorme dos CAs e DAs da UFF. E no final tinha duas mil pessoas na rua. Então, nós jamais poderíamos ter esperado por isso. Muito menos que o nosso ato serviria como fagulha para movimentação que aconteceu no Brasil inteiro. E acho que foi muito porque as pessoas não se acovardaram e saíram às ruas depois de olharem o ato que a gente fez lá. Um ato orgânico dos estudantes indignados com o resultado do primeiro turno e que saíram às ruas em defesa da educação pública, da saúde e da República. Acho que isso é o mais importante.

Nos últimos anos, muita gente repetiu que a juventude estava desmobilizada, despolitizada e desencantada com partidos e eleições. Como se explica o tamanho dessas manifestações.

A minha percepção é que a desmobilização das ruas nos últimos anos é justamente uma consequência do pensamento de que não adiantaria nada, de que era anacrônico, de que a batalha agora era exclusivamente nas redes sociais. Acredito que nesse segundo turno percebeu-se que se nós estávamos perdendo nas redes sociais a gente deveria encontrar um outro meio de mostrar que estávamos ali. E de que estávamos todos defendendo uma mesma bandeira, que não estávamos sozinhos nisso.

Não acho que faltava motivo, não acho que nos últimos anos faltaram pautas para que as pessoas fossem às ruas, mas acho que nunca foi considerado essencial vencer uma eleição como foi considerado nessa. Então, as pessoas foram paras ruas para defender a educação de qualidade, gratuita, a saúde gratuita de qualidade, o republicanismo, o Estado democrático de direito, a plenitude democrática. E acho que tudo isso pesou. Porque todo mundo que saiu às ruas sofreu consequências do governo do Jair Bolsonaro ou temia sofrer consequências do governo do Flávio. Quantas pessoas morreram na pandemia? Quantas pessoas foram privadas de direitos básicos? Acho que as pessoas se deram conta disso e saíram as ruas.

*Chico Alves/ICL


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Por Celeste Silveira

Produtora cultural

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