19 de setembro de 2020
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“O maior tempo de nossa existência nós o empregamos em nos escondermos do que somos terrestremente” (Mário de Andrade – do Cabotinismo/1939).

A elite brasileira passou a vida tentando construir uma caricatura europeia no Rio de Janeiro, como uma barreira de contenção contra as manifestações espontâneas do povo. Para isso não poupou esforços em reprimir os terreiros de religiões de matrizes africanas, assim como os terreiros das escolas de samba, junto com o conservadorismo religioso que imperou no país todos esses anos.

Se hoje os evangélicos atacam terreiros, a mando de bispos, no passado, padres convocavam diretamente a polícia para cumprir a mesma tarefa “legal” nas casas de umbanda e candomblé em todo o país.

Todos falharam, o Brasil passa, lindamente, a virada do ano de branco na beira da praia por conta da vitória cultural dos orixás. Não há como negar essa realidade tão materializada na nossa vestimenta nessa data.

Filho primeiro dos terreiros de candomblé e umbanda, o samba se confunde com o próprio Brasil em todas as suas variações, sejam elas dos atabaques em estado puro, na suavidade da batida de João Gilberto, na intensidade de muitas obras de Villa Lobos, sejam num imenso leque de denominações que o samba produziu, como o Côco, o Maracatu, Samba Rural, Samba de Roda, do Partido Alto, de Enredo, Samba de Breque e de tantas outras denominações que eu ficaria aqui nominando durante horas, tal a diversidade que o samba, assim como o seu coirmão, o Choro, tem, afinal, são frutos da mesma matriz, a música negra brasileira, que tem como seus principais representantes, Cartola e Pixinguinha e como característica o diálogo intenso entre melodia e ritmo em que um alimenta o outro, embebecendo quem toca e hipnotizando quem ouve.

Essas duas expressões, que representam a alma das ruas brasileiras, é como o artesanato musical que  na sua essência carrega segredos e confunde a arte com o que há de essencial na vida dos brasileiros. Ou seja, a arte do humano ou, se preferirem, o humano da arte.

Não fosse a filosofia das ruas, não teríamos feito a mais rica e a mais representativa arte brasileira, que é a nossa música popular, porque a rua é a própria síntese antropofágica que, em 1917, Mário de Andrade sentenciou sobre nossas fusões de raça e, consequentemente musical que desembocaram num protagonismo negro, mas que abarcou todo o contingente brasileiro que, verdadeiramente, sentiam-se brasileiros.

Diante desse legado, os negros compartilharam sabedoria e partilharam da construção dessa arte brasileira, que tem no carnaval sua principal fonte de criação, de reinvenção, de rompimento com qualquer barreira.

O carnaval, que representa o Macunaíma de Mário de Andrade, sem caráter nenhum em sua definição estética, produziu, através dessa liberdade, um espaço amplo para a imaginação em que povo pudesse ser o grande protagonista de uma arte coletiva que se transformou no maior espetáculo da terra, porque, antes de tudo, o carnaval é a arte da resistência, da quebra de valores estruturados, sobretudo numa civilização que até hoje é pautada, do ponto de vista institucional, no que ela herdou da escravidão.

Por isso, essa extraordinária reação do povo na sua base mais concreta, mais sentida em que as camadas mais pobres da população podem se manifestar e trazer um sentimento coletivo que abarca todo o país.

E foi justamente isso que vimos na Marquês de Sapucaí no domingo e na segunda-feira, uma guerra declarada a toda podridão bolsonarista, sem perder a poética, o humor, a seriedade da causa e, principalmente, sem deixar de estabelecer o limite da fronteira do povo contra o fascismo do governo Bolsonaro.

Assim, o brasileiro, martirizado por essa lógica inescrupulosa do mercado que produziu esse ogro e, nota por nota, batida por batida, protagonizou uma arte profunda, trágica, humana, revelando um sentimento cotidiano que explodiu na avenida, numa distinção clara entre o povo e a casta no velho embate de classes em que, na vida concreta, nas ruas, o povo sempre vence.

Chico Buarque, com a sua genialidade, criou a música “Rio 42” que acabou se revelando profética, a guerra declarada na Sapucaí contra Bolsonaro em pleno domingo de carnaval, com as escolas dando um espetáculo de inédita criatividade em prol da resistência do povo brasileiro.

Rio 42 (Ópera do Malandro)
Chico Buarque

Se a guerra for declarada
Em pleno domingo de carnaval
Verás que um filho não foge à luta
Brasil, recruta
O teu pessoal
Se a terra anda ameaçada
De se acabar numa explosão de sal
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval
Vai ter batalha de bombardino
A colombina na Cruz Vermelha
Vai ter centelha na batucada
Rajada de tamborim
A melindrosa mandando bala
O mestre-sala curvando a Europa
A tropa do general da banda
Dançando o samba em Berlim
Se a guerra for declarada
A rapaziada ganha na moral
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

 

 

*Carlos Henrique Machado Freitas

 

 

Celeste Silveira

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