12 de novembro de 2021
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Para cientista político Ian Bremmer, é extremamente improvável uma reeleição.

Os planos do governo de romper o teto de gastos para financiar o pagamento do Auxílio Brasil, o novo Bolsa Família, têm provocado uma forte reação negativa do mercado, e podem contribuir para uma piora ainda maior da popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A avaliação é de Ian Bremmer, presidente da consultoria política global Eurasia Group. Se o presidente brasileiro perder o que ainda lhe resta de apoio junto a empresários e investidores, as chances de uma reeleição em 2022, diz o especialista, ficam ainda mais distantes.

“Os eventos das últimas 24 horas deixaram muito claro que está ficando cada vez mais difícil para Bolsonaro conseguir chegar ao segundo turno”, disse Bremmer, em entrevista à Folha concedida na manhã desta sexta-feira (22), no dia seguinte ao do anúncio da saída de secretários de Paulo Guedes (Economia).

Na sexta à tarde, Guedes defendeu o plano do governo para turbinar o Bolsa Família, que promove uma manobra para driblar regras fiscais. Ele estava ao lado de Bolsonaro, o que acalmou o mercado.

O cientista político afirmou também que um enfraquecimento de Bolsonaro pode abrir espaço para que uma candidatura de centro venha a disputar o segundo turno com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em caso de vitória do petista, Bremmer não espera por uma saída volumosa de capital do país. Pelo contrário. “Na verdade, espero que haja uma estabilidade maior na economia [nesse cenário]”, afirmou o especialista, que será um dos palestrantes do evento Anbima Summit que ocorre na semana que vem.

Tivemos nos últimos dias um aumento no ruído político no Brasil, com declarações do governo sobre o Auxílio Brasil e o teto de gastos. Como o sr. avalia os eventos recentes e seus impactos para o país? A popularidade de Bolsonaro está muito baixa, na esteira de desafios econômicos como a questão energética e a alta da inflação. E, claro, a falta de coordenação durante a pandemia. A grande questão, especialmente agora, após importantes nomes da equipe econômica do [ministro Paulo] Guedes terem saído, é que sua popularidade pode diminuir. E se perder o time econômico, Bolsonaro entrará em uma queda livre. Haverá uma forte punição por parte do mercado, e aumentam as chances de o Brasil voltar a ter uma recessão em um ano eleitoral.

Os eventos das últimas 24 horas deixaram muito claro que está ficando cada vez mais difícil para Bolsonaro conseguir chegar ao segundo turno. Ouvimos de muitos empresários e investidores no Brasil, que antes eram grandes apoiadores de Bolsonaro, dizerem agora de maneira privada que já não o apoiam mais.

Ian Bremmer, em entrevista à Folha de São Paulo

Quais consequências esse cenário pode trazer? A implicação mais interessante que pode haver seria Bolsonaro perder tanto apoio a ponto de abrir espaço para uma terceira via. Sabemos que Lula será um dos candidatos que deve chegar no segundo turno, e seria natural de se esperar que o atual presidente também conseguisse chegar lá, mas esse pode não ser o caso. As barreiras ainda são altas para uma terceira via, mas Bolsonaro tem cometido muitos equívocos, e isso em um contexto em que ainda estamos em uma grave crise.

Acho que é extremamente improvável que o Bolsonaro seja reeleito, e vejo como uma possibilidade crescente um candidato do centro disputando contra Lula. A terceira via é um evento que com certeza seria muito bem recebido por empresários e investidores.

Na Eurasia, temos tido diversas conversas com esses potenciais candidatos para falarmos sobre suas plataformas, mas não é ainda o cenário-base. Se me perguntar hoje qual a maior probabilidade que vejo, ainda é de uma disputa entre Lula e Bolsonaro, com Lula sendo o vencedor da disputa.

Qual sua expectativa quanto a um eventual retorno de Lula à Presidência no Brasil? Provavelmente mais moderado em termos de orientações políticas a serem seguidas, em comparação ao que ele já foi no passado. E obviamente descontente com o Judiciário, e talvez com questões a serem resolvidas, por se sentir completamente injustiçado ao ter sido condenado e preso.

Por outro lado, não acredito que Lula tenha intenções como de estatizar a indústria do país ou de se tornar um socialista. Acredito que será um governo social democrata, pró-trabalhadores, pró-emprego, mas que não será um nome que o mercado terá aversão.

Não acredito que haverá uma saída maciça de capital se Lula vencer as eleições. Na verdade, espero que haja uma estabilidade maior na economia [nesse cenário]. E digo isso não apenas como um analista, mas como alguém que tem dois escritórios no Brasil, em São Paulo e em Brasília. Vamos contratar mais pessoas apenas quando tivermos uma clareza maior sobre as perspectivas para as eleições.

Qual a probabilidade de vitória de Bolsonaro? Hoje estimamos em algo próximo de 20%. É importante destacar que a as eleições ainda estão longe, e muita coisa pode acontecer até lá. Mas está muito claro que a popularidade de Bolsonaro está bastante baixa. Não tão baixa a ponto de ele sofrer um impeachment, mas tornando a reeleição muito improvável.

Uma das principais razões para apontarmos com tanta antecedência essa baixa probabilidade de Bolsonaro vencer é pelo fato de que a economia deve passar por momentos desafiadores nos próximos 12 meses. E seja ou não ele o culpado, a culpa sempre vai recair sobre o presidente se a economia não estiver bem quando as eleições chegarem. É um momento econômico ruim para Bolsonaro conseguir se reeleger.

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Celeste Silveira

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