Há algo de profundamente revelador no comportamento de parte da mídia brasileira nesta largada da eleição de 2026: enquanto Flávio Bolsonaro é tratado como candidato presidencial plenamente reabilitado, o noticiário sobre Lulinha ganha uma dimensão que ultrapassa a própria investigação e passa a funcionar como munição eleitoral contra Lula.
Não se trata de defender qualquer pessoa de investigação. Se existem suspeitas, que sejam apuradas até o fim, com transparência, direito de defesa e sem interferência política. O problema é outro: a régua parece não ser a mesma para todos.
Flávio Bolsonaro passou a ser apresentado como uma espécie de alternativa política viável, enquanto questões que envolvem diretamente sua campanha são empurradas para o rodapé. O caso do filme Dark Horse é o exemplo mais gritante. O candidato afirmou que o episódio é uma “página virada” e que já teria prestado contas, embora a imprensa registre que ele ainda não apresentou os documentos prometidos e que a origem e a destinação dos recursos continuam sob investigação.
Ao mesmo tempo, qualquer informação relacionada a Lulinha recebe enorme repercussão e rapidamente é transformada em argumento político contra Lula. Há, de fato, três inquéritos envolvendo Fábio Luís da Silva, e sua defesa nega irregularidades. Mas investigação não é condenação — e suspeita não pode ser apresentada como sentença.
O mais impressionante é a assimetria.
Quando Flávio é questionado sobre Vorcaro, Dark Horse e os milhões destinados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro, a resposta vira notícia, mas a cobrança parece desaparecer rapidamente. Quando o assunto é Lulinha, entretanto, a investigação se transforma em manchete, comentário, análise eleitoral e combustível permanente para a campanha bolsonarista.
O próprio Flávio percebeu a oportunidade e passou a explorar sistematicamente o caso Lulinha para desgastar Lula. Não por acaso, seu discurso eleitoral passou a girar em torno de corrupção, INSS e ataques ao presidente, enquanto a campanha tenta deslocar o centro do debate para os adversários.
É justamente aí que mora o perigo.
A imprensa não pode se transformar em cabo eleitoral involuntário de um projeto político autoritário.
Quando determinados candidatos são submetidos a uma investigação permanente, enquanto outros recebem tratamento de presidenciáveis “moderados”, cria-se uma espécie de lavagem política da imagem pública. O passado desaparece, as controvérsias são relativizadas e o candidato passa a ser apresentado apenas pelo personagem que sua campanha deseja vender.
É a fabricação do “Flávio moderado”.
Mas a embalagem não apaga a história. Tampouco transforma automaticamente um representante do bolsonarismo em democrata, conciliador ou institucionalista.
Flávio iniciou sua campanha reproduzindo discurso do pai, atacando o STF e utilizando símbolos políticos associados ao bolsonarismo. Ao lado de Guilherme Derrite, também elogiou o modelo de Nayib Bukele em El Salvador e defendeu endurecimento de penas e redução da maioridade penal em determinados casos.
Nada disso significa que o eleitor não possa escolher Flávio. Significa apenas que a sociedade tem o direito de conhecer o candidato inteiro — e não a versão higienizada construída para consumo eleitoral.
E existe uma ironia ainda maior: enquanto a mídia ajuda a transformar Lulinha em personagem central da eleição, o próprio Flávio tenta escapar das perguntas que lhe são feitas sobre seu relacionamento com Vorcaro. Quando questionado sobre Dark Horse, responde que o assunto está encerrado e imediatamente aponta o dedo para Lula e Lulinha.
Essa é a velha técnica política: quando a pergunta aperta, troque o acusado pelo acusador.
E quando a imprensa embarca nessa troca sem manter a mesma intensidade de cobrança, deixa de ser apenas observadora do processo eleitoral e passa a interferir na própria disputa.
Não é necessário absolver Lulinha para denunciar essa assimetria. Não é necessário defender Lula para exigir jornalismo sério. E não é necessário ser petista para perceber que democracia exige a mesma régua para todos.
Se há documentos a apresentar, que sejam apresentados. Se há suspeitas, que sejam investigadas. Se há crimes, que sejam responsabilizados os culpados.
Mas que isso valha para Flávio Bolsonaro também.
Porque uma eleição não pode ser vencida pela quantidade de manchetes produzidas contra um adversário. E uma democracia não pode ser reduzida a uma operação de marketing destinada a transformar um candidato do campo radical em uma figura palatável enquanto seus adversários são submetidos diariamente ao tribunal midiático.
O que está em jogo não é apenas a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. É a disputa pelo direito do eleitor de receber informação completa, proporcional e honesta.
Quando parte da mídia escolhe um lado da balança, suaviza um candidato e amplifica incessantemente os problemas do outro, o jornalismo deixa de iluminar a eleição e passa a participar dela.
E é justamente nesse ambiente que o discurso autoritário encontra terreno fértil.
Não é jornalismo quando a pergunta para um lado é “prove que é inocente” e para o outro é “por que você está sendo atacado?”.
A democracia brasileira merece mais do que isso.
Queridos amigos leitores
Nosso blog é um espaço dedicado a compartilhar conhecimento, ideias e histórias que inspiram. Para continuar criando conteúdo de qualidade e mantendo esse projeto vivo, contamos com o seu apoio! Se você gosta do que fazemos, considere contribuir com uma pequena doação. Cada gesto faz a diferença e nos ajuda a crescer. Pix: 65725972704 e Pix: 24981274823. Agradecemos seu apoio.
Siga-nos no Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100070790366110
Siga-nos no WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/G5ZN457hFHwFBCVZSvRgZ7?mode=gi_t
Siga-nos no X: https://x.comAnthropophagista1
Siga-nos no Instagram: https://www.instagram.com/blogantropofgista?igs
