Recordar é viver: na pantomima que setores da mídia estão construindo em torno de Lulinha, há pelo menos um aspecto revelador: ela permite reconhecer, quase em tempo real, o velho padrão de manipulação utilizado pelo chamado jornalismo industrial nas farsas midiáticas que marcaram o mensalão e, posteriormente, a Lava Jato, com o protagonismo Joaquim Barbosa e de Sergio Moro.
A fórmula é conhecida. Primeiro, escolhe-se um personagem que precisa ser transformado em vilão. Depois, insinuam-se conexões, levantam-se suspeitas, selecionam-se informações convenientes e, sobretudo, repete-se exaustivamente a narrativa até que a suspeita passe a ocupar o lugar da prova. O método é simples, mas poderoso: quando a manchete é reproduzida milhares de vezes, a dúvida cuidadosamente fabricada começa a adquirir aparência de verdade.
Foi assim que parte da imprensa construiu, durante anos, uma espécie de tribunal paralelo. O jornalismo deixou de ser, em muitos momentos, instrumento de investigação para assumir o papel de acusador, julgador e propagador de versões. A diferença entre fato comprovado, hipótese, ilação e opinião tornou-se convenientemente nebulosa.
O mais curioso é que a atual ofensiva contra Lulinha parece ressuscitar justamente esse mecanismo. Em vez de esclarecer, contextualizar e separar evidências de especulações, setores da mídia parecem interessados em produzir um ambiente de suspeição permanente. E há uma razão política evidente para questionar esse movimento: Lulinha não é candidato a presidente, não disputa eleição e não ocupa cargo público — mas seu nome vem sendo explorado como se fosse uma arma eleitoral contra Lula.
É aí que a comparação histórica se torna inevitável. Durante o mensalão e, sobretudo, na Lava Jato, a exposição seletiva de informações, o vazamento estrategicamente utilizado, a repetição incessante de acusações e a transformação de suspeitas em certezas contribuíram para criar uma atmosfera política na qual determinados personagens já chegavam ao noticiário previamente condenados.
A questão não é impedir que ninguém seja investigado. Ao contrário: qualquer pessoa deve responder por eventuais irregularidades, com provas, contraditório e devido processo legal. O problema começa quando o jornalismo abandona esses critérios e passa a trabalhar com a lógica da insinuação: se existe uma suspeita, ela vira manchete; se não há prova suficiente, acrescenta-se uma nova suspeita; se a narrativa perde força, resgata-se outra.
É justamente por isso que “recordar é viver”. Porque quem acompanhou aqueles episódios reconhece os sinais. Reconhece a linguagem, o enquadramento, a seleção das fontes, a insistência desproporcional e, principalmente, a tentativa de transformar uma narrativa política em fato consumado.
A história recente deveria ter ensinado alguma coisa. O jornalismo não pode repetir os mesmos vícios que ajudaram a produzir algumas das maiores distorções da política brasileira. Se há fatos contra Lulinha, que sejam apresentados com documentos, provas e contexto. Se existem crimes, que sejam investigados. Se não existem provas, a imprensa deveria ter a responsabilidade de dizer exatamente isso.
Porque a diferença entre jornalismo e propaganda não está no tamanho da manchete. Está na capacidade de resistir à tentação de fabricar certezas onde existem apenas suspeitas.
E talvez seja justamente esse o lado “bom” da atual pantomima: ela permite reconhecer a velha fórmula antes que ela seja completamente naturalizada. Ao repetir os mesmos métodos do passado, parte da mídia acaba revelando não apenas sua narrativa atual, mas também o padrão de operação que utilizou em momentos decisivos da história política brasileira.
Desta vez, porém, há uma diferença importante: muita gente já conhece o roteiro. E quando o público reconhece a fórmula, fica muito mais difícil vender a velha manipulação como se fosse jornalismo novo.
Em última análise, Comparar o caso de Lulinha com o esquema pesado de corrupção de Flávio, como faz a velha mídia, fala muito mais sobre como funciona a imprensa industrial no Brasil.
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