Em eleição, sobretudo quando Lula está no jogo, não existe “escrita” capaz de antecipar o resultado. Essa mistificação supersticiosa que circula na mídia — segundo a qual quem vence o primeiro turno inevitavelmente vencerá o segundo — não passa de uma construção simplista apresentada como se fosse uma lei da política.
A tese é ainda mais frágil quando se tenta transformá-la em argumento para afirmar que uma eventual vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno significaria uma espécie de sentença definitiva sobre o segundo. Não significa.
Há um detalhe histórico que costuma ser convenientemente esquecido nessa narrativa: até 2022, nenhum presidente brasileiro que disputara a reeleição havia sido derrotado na tentativa de permanecer no cargo. Jair Bolsonaro rompeu essa sequência ao perder a reeleição para Lula. No segundo turno de 2022, Lula recebeu 60.345.999 votos, contra 58.206.354 de Bolsonaro, segundo a totalização oficial do TSE.
Ou seja: a própria história recente mostrou que uma regularidade eleitoral pode ser quebrada.
Por isso, vender ao PT a ideia de “terra arrasada” simplesmente porque Flávio teria terminado o primeiro turno à frente, ainda que por uma margem estreita, é transformar estatística em superstição. Primeiro turno e segundo turno são momentos distintos da mesma eleição, mas não são a mesma eleição.
Entre uma votação e outra, mudam as alianças, mudam os discursos, mudam as estratégias, muda a distribuição dos votos dos candidatos eliminados, muda o comportamento do eleitor e podem mudar até as prioridades que orientam a escolha de milhões de pessoas.
Não existe piloto automático eleitoral.
O fato de determinada característica ter se repetido em dez eleições não concede a ela autorização para se repetir automaticamente na décima primeira. Eleição não é uma fórmula matemática em que se apertam os mesmos botões e se obtém necessariamente o mesmo resultado.
Cada eleição tem sua própria voltagem. Cada disputa é determinada pelas circunstâncias políticas, econômicas e sociais do seu tempo. O eleitor também não é uma peça imóvel de um tabuleiro: ele pode mudar de posição, rever sua escolha e redefinir suas prioridades entre um turno e outro.
Foi justamente 2022 que deixou isso ainda mais evidente no plano da reeleição: uma sequência histórica que parecia consolidada foi interrompida.
Portanto, transformar uma vantagem de primeiro turno em garantia de vitória no segundo é muito mais do que uma análise eleitoral simplificada: é confundir recorrência histórica com destino.
E eleição não é destino.
Nostalgia não ganha jogo. Estatística passada não vota. E uma eleição não é obrigada a repetir a anterior apenas porque alguém encontrou uma sequência que parece conveniente para sustentar sua narrativa.
O segundo turno começa quando o primeiro termina. E é ali, diante de novas circunstâncias e de um novo cálculo do eleitor, que a disputa efetivamente recomeça.
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