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Mendonça veste a toga de delegado — e Fachin corre para apagar o incêndio

André Mendonça parece ter encontrado uma nova vocação: além de ministro do Supremo, quer exercer uma espécie de chefia informal da Polícia Federal. No caso envolvendo Lulinha, sua relação com a PF chegou a um ponto em que a palavra “trégua” já parece grande demais para o tamanho do conflito.

O ministro não vê margem para pacificação. E talvez seja justamente esse o problema: quando um magistrado entra em uma queda de braço com a polícia responsável por uma investigação, quem deveria baixar a temperatura é o ministro, não aumentar o fogo.

A PF tem suas responsabilidades e, evidentemente, deve prestar contas à Justiça. Mas fiscalização judicial não significa transformar investigador em subordinado de gabinete. Há uma diferença monumental entre controlar a legalidade de uma investigação e querer controlar, passo a passo, quem investiga, como investiga e até a composição da equipe.

É uma distinção que deveria ser elementar para qualquer integrante da Suprema Corte.

E o mais curioso é que, diante da escalada, quem aparece tentando colocar água na fervura é Edson Fachin. O presidente do STF percebeu que a brincadeira pode sair cara demais e tenta impedir que uma divergência sobre investigação se transforme em uma guerra institucional entre o Supremo e a Polícia Federal.

Fachin parece ter percebido aquilo que Mendonça aparentemente ainda não percebeu: não existe vitória quando duas instituições fundamentais da República saem de uma disputa mutuamente enfraquecidas.

E há algo ainda mais incômodo.

Estamos falando de uma investigação que envolve o filho do presidente Lula, em pleno ano eleitoral. Portanto, qualquer autoridade que participe desse processo deveria ter como primeira preocupação evitar que sua atuação seja interpretada como combustível para uma disputa política.

Não basta ser imparcial. É preciso parecer imparcial.

Quando um ministro assume uma postura de confronto com a PF justamente numa investigação de enorme repercussão política, a pergunta inevitável aparece: por que tanta tensão? Por que tanta necessidade de controle? Por que a investigação não pode simplesmente seguir seu curso dentro das competências de cada instituição?

Se há irregularidade na PF, que se apresentem as provas. Se há abuso, que se demonstre o abuso. Se há crime, que se investigue e responsabilize quem tiver de ser responsabilizado.

Mas transformar divergência institucional em cabo de guerra não fortalece a Justiça. Enfraquece-a.

E é impossível não lembrar do velho problema brasileiro: quando a política entra pela porta dos fundos das instituições, a credibilidade costuma sair pela porta da frente.

O caso Lulinha não pode virar uma espécie de campeonato de autoridade no qual cada lado tenta demonstrar quem manda mais. Supremo não é delegacia. Polícia Federal não é extensão de gabinete de ministro. E investigação criminal não pode ser convertida em espetáculo eleitoral.

Mendonça deveria ser o primeiro a compreender isso.

A impressão que fica é a de um ministro excessivamente disposto a disputar espaço com a instituição que deveria apenas fiscalizar dentro dos limites constitucionais. E, enquanto ele endurece, Fachin tenta evitar que a crise adquira proporções maiores.

É quase uma cena de incêndio institucional: um coloca mais lenha, o outro procura o extintor.

No final, quem paga a conta é a credibilidade das instituições.

E há uma ironia adicional: quanto mais a investigação for cercada por brigas, vazamentos, suspeitas e disputas entre autoridades, mais espaço se abre para aqueles que querem transformar qualquer investigação em narrativa política.

Por isso, a melhor resposta para o caso Lulinha é a mais simples e menos espetacular: provas, autos, contraditório e devido processo legal.

Se houver crime, que os responsáveis respondam por ele.

Se não houver, que as acusações desmoronem por falta de provas.

O que não dá é transformar o Supremo em uma central de comando investigativo e depois esperar que ninguém questione os limites dessa atuação.

Mendonça pode até não querer trégua com a PF. Mas a República precisa de limites. E, neste momento, parece que Fachin está tentando lembrar ao colega que toga não vem acompanhada de crachá de delegado.

Soma-se a isso o silêncio ensurdecedor sobre o caso de Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A encrenca está armada para André Mendonça.


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