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Não se esqueçam, Michelle e Eduardo Bolsonaro lideraram a ala mais radical da tentativa de golpe do 8 janeiro

Não se esqueçam de um fato que muitos tentam apagar da memória coletiva: Michelle Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro foram apontados pelo tenente-coronel Mauro Cid como integrantes da ala mais radical do entorno bolsonarista após a derrota eleitoral de 2022. Segundo seu relato às autoridades, eles estariam entre os que mais pressionavam Jair Bolsonaro a rejeitar o resultado das urnas e a adotar medidas de exceção para impedir a posse do presidente eleito.

Enquanto o país assistia à transição democrática prevista pela Constituição, setores do bolsonarismo alimentavam teorias conspiratórias sobre fraude eleitoral, desacreditavam as instituições e incentivavam a mobilização de grupos que não aceitavam o resultado das eleições. O ambiente político criado por essa radicalização não surgiu do nada: foi construído por meses de ataques ao sistema eleitoral, ao Supremo Tribunal Federal e às regras básicas da democracia.

Por isso, quando se fala nos acontecimentos que culminaram nos atos de 8 de janeiro, é impossível ignorar o papel desempenhado por figuras que ajudaram a insuflar a narrativa de que a eleição deveria ser contestada a qualquer custo. A tentativa de reescrever essa história, apresentando alguns de seus protagonistas como meros espectadores dos acontecimentos, não resiste aos fatos já conhecidos.

Potanto, não permitam que a conveniência política reescreva a história. Michelle Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro passaram anos alimentando a ala mais radical do bolsonarismo, difundindo discursos de confronto contra as instituições, desacreditando o sistema eleitoral e estimulando a narrativa de que uma derrota nas urnas só poderia ser resultado de fraude.

Após as eleições de 2022, quando a maioria dos brasileiros esperava uma transição pacífica e democrática, o núcleo mais extremista do bolsonarismo intensificou a pressão por medidas de ruptura institucional. Segundo o relato de Mauro Cid às autoridades, Michelle e Eduardo, figuravam entre os mais alinhados com essa estratégia de enfrentamento. Não se tratava de simples divergência política ou de contestação jurídica de resultados eleitorais. O que estava em jogo era a tentativa de manter vivo um movimento que se recusava a aceitar a soberania do voto popular.

O ataque às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, não nasceu espontaneamente. Foi o desfecho de uma campanha sistemática de desinformação, radicalização e hostilidade contra a democracia. Durante anos, lideranças bolsonaristas trabalharam para convencer seus seguidores de que as instituições eram inimigas do povo, que as eleições eram suspeitas e que apenas uma intervenção de força poderia “salvar” o país. O resultado dessa semeadura foi colhido naquele domingo vergonhoso que entrou para a história como uma das maiores agressões à ordem democrática brasileira.

Agora, diante do desgaste político e jurídico que cerca aquele episódio, alguns tentam reconstruir suas biografias públicas como se fossem personagens periféricos ou meros espectadores dos acontecimentos. Não eram. Estavam no centro do movimento político que insuflou a desconfiança nas urnas, atacou adversários, desacreditou instituições e criou o ambiente que tornou possível a tentativa de ruptura.

A memória é um obstáculo para os que apostam no esquecimento. Por isso é importante recordar, sempre que necessário, quem ajudou a construir a narrativa golpista, quem incentivou a radicalização e quem apostou no caos quando a democracia exigia responsabilidade. O Brasil tem o dever de seguir em frente, mas não tem a obrigação de esquecer. E muito menos de absolver politicamente aqueles que contribuíram para levar o país à beira do abismo institucional.


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Brasil Mundo

Ala radical nos EUA ganha espaço e inaugura ingerência em eleição no Brasil

Ultraconservadores na Casa Branca intensificam ações contra o Brasil e aliança com bolsonarismo; estratégia é não repetir tarifaço para não dar palco para Lula

A crise no Irã tem causado um dano importante para o Brasil. O problema, porém, não é o Estreito de Ormuz. Fontes diplomáticas em Washington revelaram ao ICL Notícias que o foco de Donald Trump na guerra e seu medo de uma derrota abriram o caminho para que outros temas da agenda de política externa deixassem de receber a mesma atenção da cúpula da Casa Branca.

Como resultado, alas mais radicais passaram a dar as cartas no que se refere à situação com o Brasil. Para membros do governo Lula, a nova realidade e os atos adotados pela administração Trump nas últimas semanas sinaliza que a ingerência na eleição do país já começou na prática.

Em meados de 2025, Trump abriu uma crise inédita com o Brasil, adotando sanções e tarifas. Observadores na capital americana confirmaram que o pacote de medidas contra o país havia sido articulado em parte por Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e uma base mais radical do governo Trump, principalmente no Departamento de Estado. A estrutura ainda ganhou o apoio de republicanos, principalmente na Flórida, e personagens conhecidos por suas campanhas contra as “esquerdas”.

Foi necessário uma operação sigilosa, repleta de canais extra-oficiais e empresários para convencer Trump de que abrir uma guerra comercial e uma crise política com o Brasil seria prejudicial para os interesses americanos. Lula tirou proveito e a crise o levou a ter sua melhor taxa de popularidade em todo seu governo.

A partir de setembro de 2025, um período de distensão foi inaugurado, com Trump chegando a dizer que havia uma “química” entre ele e Lula. Telefonemas e reuniões acabaram ocorrendo entre os dois líderes, seguida pela retirada de algumas das sanções e de tarifas.

Mas a aproximação nunca foi aplaudida pelo Departamento de Estado e nem pela base mais radical dos republicanos. Marco Rubio, o chefe da diplomacia americana, havia sido contrariado e seu semblante em cada um dos encontros era revelador do mal-estar.

Mesmo assim, foi estabelecido que Lula viajaria para Washington para um encontro na Casa Branca. O governo brasileiro, porém, condicionava a reunião a passos concretos por parte dos EUA. Ela apenas deveria ocorrer se houvesse algum anúncio a ser feito. Negociações foram iniciadas em temas como comércio, a luta contra o crime organizado e terras raras. Mas impasses impediram que o processo fosse acelerado e diferenças fundamentais levaram o diálogo a um congelamento.

Com o início da guerra no Irã, no final de fevereiro, os interlocutores que defendiam uma relação “madura” com o Brasil acabaram sendo sugados para a crise no Oriente Médio.

E, segundo negociadores em Washington, o espaço voltou a ser ocupado por uma ala que lutou contra qualquer aproximação com Lula ou uma normalização da relação com o Brasil.

Agenda positiva ‘congelada’
Aos poucos, a agenda positiva entre Brasil e EUA começou a ser congelada, enquanto atritos surgiram. Segundo negociadores, o Departamento de Estado passou a apresentar propostas vagas ao Brasil, sem uma sinalização de compromissos.

A frieza entre os dois governos foi interpretada como um sinal de que a “química” entre Lula e Trump poderia estar sendo sabotada dentro do próprio governo americano.

A primeira crise veio com Darren Beattie, o novo enviado de Trump ao Brasil e um dos porta-vozes do segmento mais ideológico dentro do governo.

Ao solicitar um visto ao país, ele mentiu sobre a intenção de sua viagem. O enviado acabou tendo seu visto negado. Para Brasília, houve “má-fé” por parte do representante americano ao solicitar a autorização e não revelar, nos documentos, que o objetivo era o de visitar Jair Bolsonaro na prisão.

A crise foi aprofundada com o alerta passado pelo governo Trump a interlocutores brasileiros de que a ideia de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas estava avançando rápido. A pauta é vista como uma ameaça à soberania brasileira, já que a medida permitiria que, para defender a segurança dos EUA, ataques militares ou sanções financeiras sejam adotadas contra o Brasil.

O caráter eleitoral é também um fator, já que Flávio Bolsonaro chegou a declarar que havia passado informações aos americanos sobre o crime organizado e sugeriu ataques contra esses grupos criminosos, inclusive na baía de Guanabara.

Uma outra frente de atrito foi estabelecida depois que o Brasil se recusou a fazer parte de uma aliança para garantir o abastecimento de terras raras aos EUA. Semanas depois, o governo estadual de Goiás assinou um acordo com o Departamento de Estado norte-americano, fechando uma parceria até mesmo para mapear as reservas na região.

Dias depois, a única mineradora de terras raras no Brasil foi comprada por uma empresa americana que acabara de receber uma injeção de recursos por parte do governo Trump.

O abalo ganhou mais um capítulo nesta semana. Na segunda-feira, o governo Trump anunciou que solicitou a expulsão de um “funcionário brasileiro” nos EUA. Trata-se de Marcelo Ivo, delegado da Polícia Federal em Miami e que teve uma atuação na operação que prendeu Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin e que está foragido nos EUA.

A alegação foi de que Ivo tentou convencer as autoridades americanas que o caso de Ramagem era de deportação por conta de um visto vencido, e não de extradição – o que envolveria uma consideração do processo legal contra ele pelo STF.

No momento da prisão de Ramagem, a atitude da PF de dizer que o ato foi resultado de uma cooperação entre os dois países irritou a ala mais radical da Casa Branca.

O fato gerou uma mobilização de bolsonaristas que, com contatos nos EUA, conseguiram convencer a Casa Branca a liberar o ex-diretor da Abin.

Teria sido Beattie – que foi impedido de entrar no Brasil – quem liderou a pressão para que Ramagem fosse solto e para que o delegado da PF tivesse seu visto revogado. Foi sua revanche.

Agora, o governo Lula cobra explicações aos EUA para entender por qual motivo a expulsão foi realizada. Na terça-feira, uma reunião foi realizada em Brasília entre o Itamaraty e a embaixada dos EUA. Mas o governo Lula já considera expulsar do país um funcionário americano, como ato de reciprocidade.

O ICL Notícias apurou que o tema está sendo tratado internamente e que diplomatas apontam que é “bem provável” que a decisão de uma expulsão seja tomada.

Enquanto os desentendimentos se acumulam, parece ficar cada vez mais distante a chance de uma viagem do brasileiro à Casa Branca.

Flávio empolga radicais nos EUA, mas sintonia com Trump é calculada
As pesquisas de opinião sobre a eleição no Brasil têm empolgado a Casa Branca, que considera o destino político do país como “fundamental” em sua estratégia de hegemonia na América Latina. Flávio Bolsonaro seria o “parceiro ideal” na visão de Washington.

Mas, entre bolsonaristas e a ala mais radical do trumpismo, a ordem é a de adotar uma postura diferente daquela de meados de 2025. Quando o presidente americano atacou o Brasil publicamente e adotou tarifas, o resultado foi um salto na popularidade de Lula.

Nos últimos meses, o envolvimento direto de Trump em eleições na Hungria e outros países revelou que o americano é um péssimo cabo-eleitoral.

A ordem, portanto, é a de promover uma ingerência “mais sofisticada”, sem a presença do presidente ou de um tarifaço. Washington descobriu que Lula poderia justamente se beneficiar de uma ofensiva explícita e que irá usar cada gesto de Trump para ganhar votos.

No próprio Palácio do Planalto, a visão também é de que Trump dificilmente se envolverá diretamente na eleição neste momento. Mas isso não significará que não haja uma ofensiva da extrema direita americana no processo eleitoral no Brasil.

“De muitas formas, a realidade é que essa ingerência já começou”, completou um experiente embaixador brasileiro.

*Jamil Chade/ICL


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