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Sumiço de provas contra Trump nos arquivos Epstein é ‘assustador para democracia’

Ligações do republicano com criminoso sexual têm sido ocultadas, enquanto outros nomes aparecem, aponta o professor

Nesta quinta-feira (26) aconteceu o depoimento de Hillary Clinton no caso Jeffrey Epstein, no qual a ex-secretária de Estado afirmou não se lembrar de ter conhecido o financista e sugeriu que os senadores deveriam questionar o próprio Trump sobre suas ligações com a rede criminosa. “O que é preocupante é que as ligações óbvias com Trump têm sido disfarçadas e deixadas de lado. É isso que precisaria ser investigado. Inclusive, quando Hillary faz essa relação, ela sabe muito bem para onde está levando a conversa”, aponta Paulo Borba Casella, professor de direito internacional público da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Ao Conexão BdF, ele destaca a gravidade do envolvimento de tantas personalidades com a rede criminosa de Jeffrey Epstein. “É um número enorme de pessoas. Até o Noam Chomsky aparece. É assustador ver os tentáculos da rede Epstein e o estrago que já fizeram”.

O professor revela um fato ainda mais alarmante: “A gente teve a informação recente de que parte dos arquivos que relacionam Trump a possíveis agressões sexuais contra mulheres não estão mais disponíveis nos relatórios das investigações”.

Sobre as implicações legais para o presidente, Casella é enfático. “Ele não é um réu primário. Já foi acusado de outros delitos sexuais e já pagou grandes quantias em casos anteriores para se livrar de processos por mulheres que tinham sido assediadas e mesmo atacadas por ele.”

Para o professor, o desaparecimento das provas é um escândalo democrático. “O que é assustador para um regime democrático, como se diziam até agora, é que essas informações relativas ao atual dirigente sumam dos arquivos. Isso é escandaloso e nunca poderia ser aceito.”

A pressão sobre o Irã
Sobre a escalada contra o Irã, Casella contextualiza a posição estadunidense que agem por procuração para supostamente proteger seu aliado na região, que é Israel. “Mas tem também uma coisa altamente destrutiva por parte dos Estados Unidos em quererem atacar o Irã. Querem fazer do Irã o que fizeram há algumas décadas com o Iraque, que foi arrasado pelos Estados Unidos.”

“Esse duplo padrão é inaceitável. Israel tem um programa nuclear que não deixa ninguém fiscalizar, ao arrepio dos acordos internacionais de monitoramento e de visitas periódicas pela Agência Internacional de Energia Atômica. Esse jogo de pressão com parâmetros totalmente desiguais em relação a situações parecidas é absolutamente injustificável”, aponta.

O professor lembra que já havia um acordo firmado com o Irã durante a gestão Obama. “Quem jogou fora esse acordo foi o próprio Trump, com aquela arrogância e falta de cuidado. Disse que o acordo não era bom e que ele ia negociar um muito melhor. Estamos vendo esse ‘muito melhor’ agora.”

Ele conclui que a postura estadunindense é inaceitável sob qualquer ponto de vista. “Nenhum país pode se sentir confortável e aceitar publicamente esse tipo de pressão. ‘Olha, eu boto todo o meu poder militar e se você não negociar, vai ficar muito ruim para você.’ A inércia da comunidade internacional em torno de mais essa agressão americana é assustador e preocupante.”

Sobre a capacidade militar dos EUA, Casella pondera. “Análises dizem que toda essa mobilização cenográfica de porta-aviões e aviões teria poder de fogo por alguns dias, mas não seria o suficiente para um conflito prolongado.”

“De cara, dispara o preço do petróleo, dispara o preço do ouro e da prata. Cria-se uma enorme apreensão com relação aos 20% do comércio de petróleo e gás que passam pelo Estreito de Hormuz. O regime iraniano já disse que, se atacado, poderia restringir ou fechar a passagem, pelo menos temporariamente”, contextualiza.

Para Casella, os efeitos seriam globais: “Se esse ataque abusivo, descabido e provavelmente ineficaz acontecer, pode apostar que tem confusão que repercute para o mundo inteiro, principalmente na região, mas com reflexos para todo o planeta.”

*BdF


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Relatores da ONU denunciam possíveis crimes contra a humanidade em arquivos de Epstein

Especialistas denunciam rede global de criminosos e alertam que a responsabilização criminosos tem sido limitada, com apenas uma pessoa sob investigação

Os “Arquivos Epstein” contêm “evidências perturbadoras e credíveis de abuso sexual sistemático e em larga escala, tráfico e exploração de mulheres e meninas”. O alerta foi feito por relatores da ONU que apontam como as informações sugerem escravidão sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratamento desumano e degradante e feminicídio.

“Esses crimes foram cometidos em um contexto de crenças supremacistas, racismo, corrupção, misoginia extrema e mercantilização e desumanização de mulheres e meninas de diferentes partes do mundo”, disseram os especialistas, num comunicado conjunto.

“Os ‘Arquivos Epstein’, que sugerem a existência de uma organização criminosa global, chocaram a consciência da humanidade e levantaram implicações aterradoras sobre o nível de impunidade para tais crimes”, diz o texto.

A declaração é assinada por Attiya Waris, Perita Independente sobre os efeitos da dívida externa,
George Katrougalos, Perito Independente sobre a promoção de uma ordem internacional democrática e equitativa, Balakrishnan Rajagopal, Relator Especial sobre o direito à habitação, Michael Fakhri, Relator Especial sobre o direito à alimentação, Ana Brian Nougrères, Relatora Especial sobre o direito à privacidade, Heba Hagrass, Relatora Especial sobre os direitos das pessoas com deficiência, Gina Romero, Relatora Especial sobre os direitos à liberdade de reunião pacífica e de associação e Mariana Katzarova, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos na Federação Russa.

“A escala, a natureza, o caráter sistemático e o alcance transnacional dessas atrocidades contra mulheres e meninas são tão graves que algumas delas podem, razoavelmente, atingir o limiar legal de crimes contra a humanidade”, concluíram.

De acordo com o direito penal internacional, crimes contra a humanidade ocorrem quando atos como escravidão sexual, estupro, prostituição forçada, tráfico de pessoas, perseguição, tortura ou assassinato são cometidos como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil, com conhecimento do ataque.

Os especialistas alertaram que os componentes e padrões relatados podem atingir esse limiar e que esses crimes devem ser processados ​​em todos os tribunais nacionais e internacionais competentes.

“Todas as alegações contidas nos ‘Arquivos Epstein’ são de natureza grave e exigem investigação independente, completa e imparcial, bem como inquéritos para determinar como tais crimes puderam ocorrer por tanto tempo”, afirmaram.

O processo de divulgação está sendo realizado sob a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, sancionada em 19 de novembro de 2025. Em 30 de janeiro de 2026, após atrasos, o Departamento de Justiça divulgou um grande lote de material, incluindo mais de 3 milhões de páginas, 2.000 vídeos e 180.000 imagens.

Os relatores da ONU ainda alertam que, apesar da escala das revelações, a responsabilização dos criminosos tem sido limitada, com apenas um associado próximo sob investigação.

“De acordo com o direito internacional dos direitos humanos, os Estados são obrigados a prevenir, investigar e punir a violência contra mulheres e meninas, incluindo atos cometidos por atores privados”, insistem.

“Os graves erros no processo de divulgação ressaltam a necessidade urgente de procedimentos operacionais padrão centrados na vítima para divulgação e redação, para que nenhuma vítima sofra mais danos”, afirmaram.

Os especialistas ainda pedem às autoridades americanas a corrigir urgentemente essas falhas, garantir a plena divulgação para compreender os métodos da organização criminosa, a reparação integral dos danos sofridos pelas vítimas e o fim da impunidade para os perpetradores. Os prazos de prescrição que impedem o processamento de crimes graves atribuídos à organização criminosa de Epstein devem ser revogados.

“Qualquer sugestão de que seja hora de deixar os ‘arquivos Epstein’ para trás é inaceitável.” “Isso representa uma falha de responsabilidade para com as vítimas”, afirmaram.

“A renúncia dos indivíduos envolvidos, por si só, não substitui a responsabilização criminal”, disseram os especialistas. Eles saudaram as medidas tomadas por alguns governos para investigar funcionários públicos, ex-funcionários e indivíduos privados citados nos processos. Eles também instaram outros Estados a fazerem o mesmo.

“A falha dos governos em investigar e processar efetivamente os responsáveis ​​por esses crimes, inclusive por cumplicidade ou aquiescência, quando houver jurisdição, corre o risco de minar os marcos legais destinados a prevenir e responder à violência contra mulheres e meninas”, alertaram.

“É imprescindível que os governos ajam com firmeza para responsabilizar os perpetradores”, disseram os especialistas. “Ninguém é rico ou poderoso demais para estar acima da lei.”

*Jamil Chade/ICL


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