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Relatores da ONU denunciam possíveis crimes contra a humanidade em arquivos de Epstein

Especialistas denunciam rede global de criminosos e alertam que a responsabilização criminosos tem sido limitada, com apenas uma pessoa sob investigação

Os “Arquivos Epstein” contêm “evidências perturbadoras e credíveis de abuso sexual sistemático e em larga escala, tráfico e exploração de mulheres e meninas”. O alerta foi feito por relatores da ONU que apontam como as informações sugerem escravidão sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratamento desumano e degradante e feminicídio.

“Esses crimes foram cometidos em um contexto de crenças supremacistas, racismo, corrupção, misoginia extrema e mercantilização e desumanização de mulheres e meninas de diferentes partes do mundo”, disseram os especialistas, num comunicado conjunto.

“Os ‘Arquivos Epstein’, que sugerem a existência de uma organização criminosa global, chocaram a consciência da humanidade e levantaram implicações aterradoras sobre o nível de impunidade para tais crimes”, diz o texto.

A declaração é assinada por Attiya Waris, Perita Independente sobre os efeitos da dívida externa,
George Katrougalos, Perito Independente sobre a promoção de uma ordem internacional democrática e equitativa, Balakrishnan Rajagopal, Relator Especial sobre o direito à habitação, Michael Fakhri, Relator Especial sobre o direito à alimentação, Ana Brian Nougrères, Relatora Especial sobre o direito à privacidade, Heba Hagrass, Relatora Especial sobre os direitos das pessoas com deficiência, Gina Romero, Relatora Especial sobre os direitos à liberdade de reunião pacífica e de associação e Mariana Katzarova, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos na Federação Russa.

“A escala, a natureza, o caráter sistemático e o alcance transnacional dessas atrocidades contra mulheres e meninas são tão graves que algumas delas podem, razoavelmente, atingir o limiar legal de crimes contra a humanidade”, concluíram.

De acordo com o direito penal internacional, crimes contra a humanidade ocorrem quando atos como escravidão sexual, estupro, prostituição forçada, tráfico de pessoas, perseguição, tortura ou assassinato são cometidos como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil, com conhecimento do ataque.

Os especialistas alertaram que os componentes e padrões relatados podem atingir esse limiar e que esses crimes devem ser processados ​​em todos os tribunais nacionais e internacionais competentes.

“Todas as alegações contidas nos ‘Arquivos Epstein’ são de natureza grave e exigem investigação independente, completa e imparcial, bem como inquéritos para determinar como tais crimes puderam ocorrer por tanto tempo”, afirmaram.

O processo de divulgação está sendo realizado sob a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, sancionada em 19 de novembro de 2025. Em 30 de janeiro de 2026, após atrasos, o Departamento de Justiça divulgou um grande lote de material, incluindo mais de 3 milhões de páginas, 2.000 vídeos e 180.000 imagens.

Os relatores da ONU ainda alertam que, apesar da escala das revelações, a responsabilização dos criminosos tem sido limitada, com apenas um associado próximo sob investigação.

“De acordo com o direito internacional dos direitos humanos, os Estados são obrigados a prevenir, investigar e punir a violência contra mulheres e meninas, incluindo atos cometidos por atores privados”, insistem.

“Os graves erros no processo de divulgação ressaltam a necessidade urgente de procedimentos operacionais padrão centrados na vítima para divulgação e redação, para que nenhuma vítima sofra mais danos”, afirmaram.

Os especialistas ainda pedem às autoridades americanas a corrigir urgentemente essas falhas, garantir a plena divulgação para compreender os métodos da organização criminosa, a reparação integral dos danos sofridos pelas vítimas e o fim da impunidade para os perpetradores. Os prazos de prescrição que impedem o processamento de crimes graves atribuídos à organização criminosa de Epstein devem ser revogados.

“Qualquer sugestão de que seja hora de deixar os ‘arquivos Epstein’ para trás é inaceitável.” “Isso representa uma falha de responsabilidade para com as vítimas”, afirmaram.

“A renúncia dos indivíduos envolvidos, por si só, não substitui a responsabilização criminal”, disseram os especialistas. Eles saudaram as medidas tomadas por alguns governos para investigar funcionários públicos, ex-funcionários e indivíduos privados citados nos processos. Eles também instaram outros Estados a fazerem o mesmo.

“A falha dos governos em investigar e processar efetivamente os responsáveis ​​por esses crimes, inclusive por cumplicidade ou aquiescência, quando houver jurisdição, corre o risco de minar os marcos legais destinados a prevenir e responder à violência contra mulheres e meninas”, alertaram.

“É imprescindível que os governos ajam com firmeza para responsabilizar os perpetradores”, disseram os especialistas. “Ninguém é rico ou poderoso demais para estar acima da lei.”

*Jamil Chade/ICL


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Em carta sigilosa, relatores da ONU denunciam Bolsonaro por “segregação”

Relatores da ONU se unem para denunciar a nova Política Nacional de Educação Especial (PNEE), sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em setembro de 2020 e mais conhecida na sociedade civil como “decreto da exclusão”.

A iniciativa, na prática, desobriga a escola a matricular estudantes com deficiência e permite a volta do ensino regular em escolas especializadas. Para entidades, isso é um retrocesso de décadas na educação inclusiva no país, além de uma violação a Constituição ao segregar alunos.

Numa carta sigilosa, enviada em fevereiro de 2021 ao governo e obtida pela coluna, os relatores alertam que a medida de Bolsonaro pode “restringir o direito à educação inclusiva para crianças com deficiências no Brasil”. O documento é assinado por Gerard Quinn, relator especial para o direito de pessoas com deficiências, e Koumbou Boly Barry, relatora especial para o direito à educação.

“O decreto promove o estabelecimento de um sistema separado de educação especial, incentivando estados e municípios a construir escolas e programas especializados para pessoas com deficiência”, aponta a carta. “Em particular, permite que as autoridades direcionem algumas crianças para escolas especiais se as crianças forem consideradas incapazes de “beneficiar-se em seu desenvolvimento quando incluídas em escolas regulares inclusivas e necessitarem de apoio múltiplo e contínuo”, alerta. Para os relatores, a política prevê “segregação”.

“O decreto também exige o desenvolvimento de critérios para identificar “estudantes que não se beneficiam das escolas regulares inclusivas”, o que levanta sérias preocupações de que as autoridades possam, nesta base, excluir crianças com deficiências das escolas regulares e exigir ou pressioná-las a frequentar escolas ou salas de aula especiais”, denuncia a carta.

De acordo com os relatores, ao considerar a estratégia, o governo não consultou pessoas com deficiências ou suas organizações representativas, nem durante o processo de elaboração do decreto, nem antes de sua adoção formal. Segundo os relatores, a única consulta realizada ocorreu online e apenas 0,6 % dos entrevistados.

A carta constata que, em 1º de dezembro de 2020, o Ministro Dias Toffoli suspendeu a política do governo. No dia 18 de dezembro, o Supremo Tribunal Federal proferiu uma sentença final adotada por maioria, para confirmar a suspensão do decreto.

Isso não impediu o governo a continuar a promover a ideia. No documento da ONU, os relatores lembram que, em 7 de janeiro de 2021, o presidente Jair Bolsonaro disse que “a presença de estudantes com deficiência, em classes de estudantes sem deficiência, pode prejudicar toda a classe”.

Programa viola obrigações internacionais assumidas pelo Brasil

No documento, os relatores ainda se dizem “preocupados” com o fato de que as disposições contidas no decreto possam ser “contrárias às obrigações internacionais do governo brasileiro de promover a universalidade e a não-discriminação no gozo do direito à educação por todos”.

“Queremos expressar nossa séria preocupação com o desenvolvimento desta nova política nacional sobre educação especial e seu impacto negativo sobre os direitos das crianças com deficiência, bem como sobre a sociedade como um todo. Estamos preocupados que, se implementada, a nova política violaria uma série de obrigações em matéria de direitos humanos”, denunciam.

Na carta, os relatores ainda pedem que o governo adote “medidas necessárias, de acordo com as normas internacionais de direitos humanos, para garantir o direito das crianças com deficiência de ter acesso a uma educação inclusiva e de qualidade em pé de igualdade com os demais”.

O documento ainda pede que o governo responda a uma série de perguntas e solicita que Bolsonaro “altere ou revogue urgentemente as disposições do Decreto nº 10.502/20 pois consideramos este decreto incompatível com as disposições da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e outras normas de direitos humanos no que diz respeito ao direito à educação inclusiva”.

A postura dos relatores é aplaudida por Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. “O decreto foi mais uma ação do governo Bolsonaro que vai na contramão dos avanços em termos de direitos humanos, políticas públicas e educação”, disse.

Há muitos estudos nacionais e internacionais que mostram que a educação inclusiva é o melhor caminho. Tanto a convenção da ONU quanto as políticas que vinham sendo elaboradas e implantadas no Brasil avançaram nessa concepção”, disse.

“O decreto, ao contrário, apesar de se dizer pela educação inclusiva, reforçava a educação especial excludente, imprimindo uma série de retrocessos nessa política”, alertou.

Andressa conta como organizações do campo dos direitos da criança e do adolescente e do direito à educação se uniram para entrar com ações no STF contrárias a esse decreto. “Foi uma vitória em meio a uma série de arbitrariedades de cunho privado conduzidas por esse governo que não está preocupado com a população, mas sim com seus próprios interesses marqueteiros e escusos”, disse.

Segundo ela, a legislação educacional, desde a Constituição Federal, passando pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o Plano Nacional de Educação, determinam que a educação deve ser inclusiva. “A ONU e a OEA em suas recomendações ao Brasil, desde 2015, vêm reiterando a necessidade de cumprir com o PNE, mas os governos o têm escanteado, como mostram os balanços que publicamos todos os anos na Semana de Ação Mundial”, disse.

Para a especialista, o desafio para a garantia da educação inclusiva passa não só por barrar retrocessos nas políticas e diretrizes como este decreto como também por “garantir insumos adequados nas escolas e formação dos profissionais da educação para implementação das políticas”.

*Jamil Chade/Uol

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