25 de setembro de 2021
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Com Bolsonaro na presidência, o brasileiro espera pelo pior. Isso é destaque claro na pesquisa Ipsos.

Significa dizer que é muito mais do que uma simples expressão de desânimo, mas de todo um processo negativo construído ardilosamente pelas classes dominantes com um único propósito, o de produzir uma concepção filosófica do país que radicalize o pensamento antipovo, antipobre e antinegro. No caso específico de Bolsonaro, antimulher.

Em momento algum, o golpe em Dilma e a prisão de Lula, o povo brasileiro abandonou a esperança de ser o protagonista de um novo país, porque jamais desistiu de defender os governos petistas nos três mandatos em que conseguiu governar, desde o início do processo que desembocou em Bolsonaro, da farsa do mensalão armada pela grande mídia, sobretudo a Globo e a Veja em tabelinha, até os dias atuais, passando pela criminosa Lava Jato.

Lógico que, ao contrário do otimismo que o Brasil viveu com Lula e Dilma, o estado de espírito dos brasileiros mudou completamente com Temer e piorou ainda mais com Bolsonaro, simplesmente porque a vida concretamente piorou muito, ao contrário da versão que o mercado paga para a mídia vender.

Mas que raio de mercado é esse? Quem são essas pessoas no Brasil que fazem com os indivíduos o que se chama de mercado? As classes dominantes, grandes empresários, banqueiros, grandes rentistas e, sobretudo, a agiotagem, melhor dizendo, empréstimo entre pessoas que cresceu assustadoramente. Pior, isso está sendo comemorado como se comemora na mídia a precarização do trabalho.

Como bem disse hoje Lula em uma live que, entre outras pessoas, participaram Haddad, Flávio Dino e Boulos, esse sistema de precarização da mão de obra e a total redução dos direitos dos trabalhadores pelos donos do dinheiro grosso é cinicamente classificado pelo meio de comunicação como empreendedorismo.

E são milhões e cada vez mais milhões brasileiros que hoje enfrentam esse sistema neoescravocrata que se transformou na principal plataforma daqueles que só têm uma coisa em mente, explorar a mão de obra, fazer do sangue e do suor do trabalhador lucro em estado puro, sem qualquer garantia ou direito, no sentido mais potente de um capitalismo nazista em que o termo ser humano é rigorosamente apagado do debate para se colocar como ponto central o dito mercado que, em última análise, é também o principal vetor de estímulo ao racismo.

Por isso, Bolsonaro ainda não caiu, porque conta com o apoio dessa escória da sociedade que só vai mudar seu comportamento criminoso com toda a população indo para as ruas, com boicote a produtos como uma corrente popular capaz de derrubar essa muralha doentia de quem não se dá por satisfeito em ganhar, mas sente uma felicidade incontrolável em segregar, em massacrar, em esmagar as camadas mais pobres da população.

Somente isso justifica a raiva que eles têm de Lula, porque ganharam muito durante o seu governo, porque o país como um todo ganhou, quando se transformou na 6ª potência econômica do mundo.

Mas essa gente não está interessada em país, em ranking de economia global e menos ainda no bem-estar da população, do contrário não apoiaria um monstro que é responsável pela perda de quase 600 mil vidas, somado a uma quantidade enorme de crimes comuns que vem cometendo.

Mas isso não é o pior, o pior é a atitude pornográfica de agentes do Estado pagos a peso de ouro pelo povo para trabalhar a favor dessa classe dominante contra o próprio povo que lhe garante os maiores privilégios do Estado.

O que pode ser mais cínico do que a proposta de Barroso para tirar qualquer peso popular na escolha do principal governante com seu semipresidencialismo de encomenda? Exatamente o que já foi dito aqui. Foi preciso, num primeiro golpe, unir o parlamento corrompido com o judiciário, igualmente corrompido, para destituir uma mulher honrada como Dilma e colocar no lugar um lixo humano como Temer para fazer o serviço sujo programado pelos “donos da terra”.

E Luis Roberto Barroso chega ao cúmulo do cinismo de, 5 anos após o golpe, justificando a sua tese antipovo de semipresidencialismo, assumir publicamente que Dilma foi golpeada porque jamais cometeu qualquer crime.

O mesmo Barroso, que se transformou no maior defensor da quadrilha da Lava Jato comprovadamente corrupta e, em duas oportunidades, mostrou como foi e ainda segue sendo parceiro de Bolsonaro na sua eleição e sustentação no poder. Primeiro, como relator no TSE, negando que o nome de Lula permanecesse na urna como determinou a ONU e, agora, negando-se a admitir que Moro foi um juiz corrupto e ladrão, como quem disse Glauber Braga.

Para tanto, Barroso se pegou na estúpida tese de que toda a sujeira que foi descortinada pelo Intercept sobre a Lava Jato, não tem valor por ter sido não mentirosa, mas hackeada. Com isso, condenou-se um inocente, e Barroso sabe disso, mas ainda assim defendeu uma corja de criminosos.

Isso tem uma explicação que se estende a outros personagens centrais do judiciário que agem com preconceito com quem paga seus leitões, porque todos eles se declaram liberais, ou seja, fãs dessa política segregacionista de Paulo Guedes que oferece restos de comida dos pratos da classe dominante para 20 milhões de famintos que Bolsonaro jogou na miséria.

Em outras palavras, numa leitura um pouco mais ampla do que mostra a pesquisa Ipsos, é a completa falta de crença na governança que aí está no sentido mais amplo da palavra, não como um país de verdade, mas como um Brasil oficial que, como dizia Machado de Assis, é burlesco e caricato.

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Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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