O tarifaço de Donald Trump contra o Brasil começa a produzir um efeito que talvez o governo americano não tenha calculado: em vez de isolar o país, está ajudando a aproximá-lo ainda mais de outras grandes economias que também rejeitam a política de imposição unilateral de tarifas adotada pela Casa Branca.
A China sinaliza disposição para atuar ao lado do Brasil na defesa das regras do comércio internacional e no enfrentamento das medidas protecionistas de Washington. Não se trata de uma simples demonstração de solidariedade diplomática. É o reconhecimento de que o que está em jogo ultrapassa os interesses comerciais brasileiros: é o próprio funcionamento do sistema multilateral de comércio que está sob pressão.
O Brasil já recorreu à Organização Mundial do Comércio para contestar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. O movimento coloca Brasília no terreno das regras internacionais, justamente o oposto da lógica de Trump, que tenta transformar tarifas em instrumento de pressão política e econômica.
E aqui está o grande paradoxo do tarifaço: Trump pretendia usar o tamanho do mercado americano para obrigar o Brasil a se curvar, mas pode estar acelerando a diversificação comercial brasileira.
A China já é um mercado fundamental para o Brasil e, no primeiro semestre de 2026, absorveu muito mais exportações brasileiras do que os Estados Unidos. A ampliação dessa relação não significa abandonar o mercado americano, mas deixa evidente que o Brasil não precisa aceitar uma relação de dependência em que Washington determina as condições e Brasília simplesmente obedece.
O que Trump parece não compreender é que o mundo mudou.
O planeta não é mais uma extensão econômica dos Estados Unidos. Há China, Índia, União Europeia, países do Oriente Médio, América Latina e outras economias capazes de estabelecer relações comerciais, investimentos e alianças estratégicas sem submissão automática aos interesses de Washington.
Por isso, a aproximação entre Brasil e China na OMC pode adquirir um significado muito maior do que uma disputa tarifária. Pode representar a defesa de um princípio básico: nenhuma potência deveria ter o direito de transformar sua força econômica em instrumento permanente de chantagem contra países soberanos.
Trump pode até aumentar tarifas. Pode ameaçar parceiros. Pode tentar impor acordos assimétricos. Mas não pode simplesmente decretar que o comércio internacional funcionará segundo a vontade de um único governo.
E é justamente aí que a resistência brasileira ganha importância.
O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China como quem escolhe um lado de uma guerra. Precisa escolher o lado de seus próprios interesses nacionais. E isso significa negociar com todos, ampliar mercados, fortalecer sua indústria, proteger seus exportadores e defender as instituições multilaterais.
Se a China realmente avançar ao lado do Brasil na OMC, o recado a Washington será inequívoco: o Brasil não está sozinho e o mundo não está obrigado a aceitar o jogo de Trump.
O tiro pode, portanto, sair pela culatra.
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