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Socialismo com Características Chinesas: inteligência artificial de graça e com código aberto

Aquiles Lins

Brasil, que já tem cooperação com a China na área de inteligência Artificial, é um dos países que mais têm a ganhar com a chegada do Deepseek.

O lançamento do Deepseek, modelo avançado de inteligência artificial de código aberto desenvolvido na China, está reconfigurando as bases do mundo tecnológico. Ao contrário do modelo predominante no Ocidente, onde grandes empresas monopolizam a inovação e lucram com acesso restrito às tecnologias, a startup da China aposta em uma abordagem inclusiva e colaborativa. O Deepseek reflete a filosofia do “Socialismo com Características Chinesas”, um modelo político e econômico desenvolvido na China que combina os princípios do socialismo, como a liderança do Partido Comunista, com mecanismos de mercado para impulsionar o crescimento econômico. Ele busca alinhar o planejamento estatal à inovação tecnológica e à abertura econômica, preservando a soberania nacional e adaptando o socialismo às especificidades culturais, históricas e econômicas do país. Esse sistema prioriza o desenvolvimento coletivo, a redução das desigualdades e o fortalecimento da China como potência global, ao mesmo tempo em que promove uma narrativa de modernização com inclusão social.

Ao disponibilizar o Deepseek de forma gratuita e aberta, a China demonstra, na prática, sua política do “ganha-ganha”. Essa estratégia, que guia as relações internacionais chinesas, propõe que a prosperidade de uma nação pode e deve beneficiar outras, criando um ciclo virtuoso de cooperação. Para a China, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta para ganho econômico, mas uma alavanca para a redução das desigualdades globais. Com o Deepseek, pequenos países em desenvolvimento, que muitas vezes ficam à margem das revoluções tecnológicas, agora têm a chance de acessar tecnologia de ponta para resolver problemas locais, como otimização agrícola, saúde pública e educação personalizada.

Internamente, chineses já colhem os frutos dessa visão de inclusão tecnológica. Ao aplicar IA em larga escala, promoveu avanços significativos em áreas como infraestrutura, logística e conectividade digital para comunidades rurais. Esses resultados sustentam sua narrativa de que o Socialismo com Características Chinesas não se limita ao desenvolvimento econômico, mas busca equilibrar inovação tecnológica com justiça social. No cenário global, o Deepseek consolida essa postura ao exportar uma tecnologia que incentiva o compartilhamento de conhecimento e a colaboração entre países, marcando uma ruptura em relação à lógica de competição predatória típica de outras potências tecnológicas.

O Brasil é um dos países que mais têm a ganhar com a chegada do Deepseek e com a ampliação da cooperação com a China. Durante a visita do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil em novembro de 2024, foram firmados 37 acordos bilaterais, incluindo o estabelecimento de um Laboratório Conjunto em Mecanização e Inteligência Artificial para Agricultura Familiar. Este laboratório permitirá ao Brasil adaptar soluções do Deepseek às necessidades da agricultura tropical, promovendo produtividade sustentável para pequenos agricultores. Outro acordo, voltado ao fortalecimento de capacidades em IA, prevê o intercâmbio de pesquisadores e a formação de profissionais brasileiros, consolidando a transferência de conhecimento e tecnologia. Com o apoio da China, o Brasil tem a oportunidade de desenvolver algoritmos próprios e avançar em áreas estratégicas como saúde, educação e inclusão digital, ao mesmo tempo em que preserva sua soberania tecnológica.

Essa política de código aberto também é um ato estratégico. Ao disseminar uma tecnologia robusta e acessível, a China se posiciona como líder global em inteligência artificial e influência tecnológica, ampliando seu soft power. Para os países que adotarem o Deepseek, a parceria com a China traz mais do que tecnologia: inclui acesso a infraestrutura, treinamento e financiamento, como demonstram iniciativas já em curso no Brasil. Esse movimento consolida a visão de que a liderança global da China não se baseia na exploração de mercados, mas na construção de redes interdependentes de prosperidade compartilhada.

O impacto do Deepseek é, portanto, mais profundo do que apenas no mundo da tecnologia. Ele simboliza uma alternativa ao modelo hegemônico centrado no lucro e na concentração de poder, oferecendo uma visão de futuro onde a inteligência artificial é uma ferramenta para o bem-estar coletivo. Ao unir tecnologia de ponta com uma política de inclusão global, a China reafirma seu compromisso com um desenvolvimento que prioriza pessoas e comunidades. O Deepseek é mais do que um modelo de IA: é um manifesto do que o Socialismo com Características Chinesas pode oferecer ao mundo no século XXI/247.

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José Dirceu: Os desafios da esquerda no pós-pandemia

Os desafios para a esquerda socialista são derrubar a velha ordem, reler o Brasil e o mundo de hoje para formular uma teoria revolucionária que atenda às demandas econômicas, sociais e culturais atuais. Paralelamente, temos que levar a luta diária, em todas as frentes, contra o bolsonarismo e as classes sociais e políticas que o apoiam e temos que disputar com a oposição liberal os rumos do país.

Em seu pronunciamento no 1º de Maio, Lula, mencionando o que vem sendo dito pelos principais jornais econômicos – que o capitalismo está moribundo -, afirmou que “está mãos dos trabalhadores a tarefa de construir esse novo mundo que vem aí”.

Num primeiro momento, notei, em seu discurso, omissões importantes: não mencionou a crise política institucional, o Fora Bolsonaro, o impeachment, a luta política. Logo depois me dei conta de que Lula estava nos convocando a pensar o pós-pandemia e a enfrentar uma tarefa postergada por nós, petistas e socialistas: qual a alternativa ao capitalismo como ele realmente é hoje, no mundo e no Brasil?

A primeira lembrança que me veio foi da lição que aprendi nos bancos escolares na juventude, lutando contra a ditadura: sem uma teoria revolucionária não há revolução e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução. Sempre me guiei pela realidade, pelos fatos. Minha geração cresceu sob o signo da revolução cubana e da imagem do Che e Fidel, da agressão criminosa e genocida do império norte-americano contra o povo vietnamita, das revoltas estudantis e operárias na Europa e no Brasil, da luta pelos direitos civis dos negros estadunidenses em plena segunda metade do século XX.

Se 1968 foi o ano da rebeldia e da luta contra o autoritarismo, o racismo, o militarismo, também foi o da invasão da Tchecoslováquia, do começo da crise do então chamado campo socialista e do próprio socialismo – ainda em sua infância, se comparado com o capitalismo.

Globalização e crise

Nos últimos cem anos vivemos crises, depressões, duas grandes guerras mundiais e dezenas de guerras pela independência e civis, grandes catástrofes e desastres naturais e o capitalismo sobreviveu e se fortaleceu. A globalização parecia um deus invisível e onipotente, devastou as conquistas sociais de décadas de lutas dos trabalhadores, o chamado estado de bem estar social, suas organizações e, o mais grave, suas ideias, ideais e cultura.

Parecia o fim de uma época, a das revoluções sociais, mas o tempo provou o contrário. Nunca houve tanta instabilidade política e social, tantas guerras de agressão e ocupação, tanta pobreza e miséria. A desigualdade cresceu inclusive nos países centrais do capitalismo, destaque para os próprios Estados Unidos. Incapaz de resolver suas contradições, o capitalismo revelou suas entranhas e natureza com o crescimento do nacionalismo, do autoritarismo, do racismo, dezenas ou no máximo centenas de ricos passaram a controlar a riqueza mundial.

A pandemia da Covid-19 apenas veio expor as misérias e a ideologia do capitalismo, sua falta total de compromisso com suas próprias ideias, seja porque elas eram falsas ou porque sua natureza o leva à barbárie para sobreviver como nos ensina as experiências do colonialismo e do nazismo.

No Brasil também as radicais mudanças no mundo do trabalho provocadas pelo avanço tecnológico e pela reorganização da produção serviram de pretexto para a agressão aos direitos sociais e às conquistas dos trabalhadores. Mais uma vez o custo da crise do capitalismo recaiu sobre a classe e a submeteu, como nunca, ao fantasma do desemprego, impondo a falsa opção de trocar o emprego pela redução dos direitos, ou seja, da cidadania em benefício das empresas e, principalmente, dos bancos e do capital financeiro.
Desmonte do Estado

O ataque ao Estado como indutor do crescimento e ao Estado de Bem Estar Social chegou junto com ideias totalitárias envoltas em uma retórica nacionalista e religiosa — destruir para construir foi a máxima do presidente eleito.

Não vivemos mais sob o capitalismo dos anos 1980/1990. Mudou o modo de produção, mudaram as classes sociais, mudou o mercado de trabalho sob o impacto das inovações tecnológicas e da hegemonia do rentismo. Todo e qualquer projeto de desenvolvimento nacional foi banido e o país perdeu a autonomia sobre sua moeda, câmbio e capitais.

O ciclo político e histórico que nos deu origem não existe mais, com o agravante de que mesmo as grandes empresas de capital nacional abandonaram todo e qualquer projeto de autonomia e independência, já que a maior parte das elites sempre foi entreguista. E as Forças Armadas, que desde a redemocratização vinham observando seu papel constitucional, viram o campo aberto para abraçar o autoritarismo político-militar agora casado com o fundamentalismo religioso e o alinhamento com os Estados Unidos.

As experiências históricas de socialismo no mundo e o que vivemos em nosso país — as reformas de base no governo Jango e os programas sociais nos governos do PT — devem ser reavaliados. Devemos retomar o fio da nossa história. Não haverá soberania e autonomia sem controle da nossa moeda e câmbio, dos capitais.

A experiência trágica do coronavírus provou como nosso país está desarmado e exposto à dependência externa em áreas estratégicas e mesmo de segurança nacional. Será necessário rever nossas inserção nas cadeias globais de valores e restaurar nossa soberania em áreas estratégicas como a de fármacos para dar um exemplo.

Nossas tarefas

Devemos restaurar o papel do Estado como indutor e condutor do desenvolvimento nacional mais ainda na pós-pandemia. Os bancos públicos e as empresas estatais no setor de energia, petróleo e gás são decisivas para a retomada do crescimento.

Nosso país tem grandes vantagens comparativas na agroindústria e na produção de energia, um dos maiores mercados internos do mundo e uma demanda de infraestrutura social e econômica. Mas o subconsumo, produto da concentração de renda e riqueza, impede o crescimento. Para reverter este quadro, será necessária uma mudança radical na política monetária e fiscal do país, com a redução dos juros a níveis internacionais hoje negativos (nossa taxa média real de juros é de 32% para uma inflação e uma taxa Selic de menos de 4%). Para grande parte da nossa dívida interna ainda pagamos juros de 10%, o que além de um escândalo é praticamente uma expropriação da renda nacional de famílias e empresas.

 

 

*José Dirceu/Nocaute

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Vídeo: Depois dos nossos militares serem chacota na França, The Guardian ridiculariza submissão de Bolsonaro a Trump

O jornal britânico The Guardian ridicularizou, em sua edição deste sábado (8), o fato do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) publicar um vídeo de si mesmo assistindo ao discurso do presidente americano Donald Trump.

De acordo com o jornal, “mais de 4.000 milhas ao Sul, no coração do próprio pântano político do Brasil, Bolsonaro se sentou para assistir – filmando-se vendo o discurso de Trump durante uma hora e oferecendo comentários ocasionais para a câmera, saudando seu herói norte-americano ou repreendendo inimigos na política e na imprensa”.

O jornal cita que críticos, tanto de direita quanto de esquerda “ridicularizaram as transmissões Trumpianas de Bolsonaro – que duraram 73 minutos – como um desperdício de tempo presidencial”.

Veja trechos da reportagem abaixo:

Ele há muito se autodenomina um Trump tropical – um duro trabalhador encarando a carnificina brasileira.

Mas, nas últimas semanas, o presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, elevou sua fixação com o líder dos EUA a um novo ponto, fazendo uma transmissão ao vivo dele mesmo no Facebook enquanto assistia ao seu ídolo político em ação.

A mais recente aparição foi nesta quinta-feira enquanto Trump celebrava sua absolvição pelo Senado no processo de impeachment com um malicioso e vulgar discurso à nação.

Mais de 4 mil milhas ao sul, no coração do Brasil, Bolsonaro se sentou e filmou a si próprio assistindo à íntegra do discurso de uma hora feito por Trump, fazendo alguns comentários para a câmera, saudando seu herói norte-americano ou repreendendo inimigos na política e na imprensa.

Os críticos ridicularizaram as transmissões Trumpianas de Bolsonaro – a última das quais durou 73 minutos – como um desperdício de tempo presidencial.

O senador Humberto Costa (PT-PE) alertou que os brasileiros pagariam um preço alto pela adoração de Bolsonaro. “Não basta ser um capacho. É preciso mostrar-se um capacho ”, twittou Costa.

Mas Brian Winter, editor-chefe do Americas Quarterly, viu método no que muitos chamam de reverência.

“Na verdade, acho que são mensagens políticas sérias e eficazes. Ouvir Trump envia uma forte mensagem simbólica à base de Bolsonaro de que ele também está afastando o país do socialismo.

“Muitos brasileiros olham para isso e veem traição à soberania nacional. Mas pelo menos um terço do país analisa e entende o que ele quer dizer e está muito feliz com isso ”, acrescentou Winter.

“Na mente dos seguidores de Bolsonaro, os EUA significam capitalismo, prosperidade e segurança pública – a capacidade de ter uma arma, uma economia em crescimento. Eu acho que é realmente eficaz com a base dele.”

 

 

*Com informações da Forum