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A velha mídia, a blindagem de Mendonça e o silêncio das redações sobre os escândalos de corrupção de Flávio Bolsonaro

Não é preciso ser jornalista investigativo, muito menos possuir qualquer acesso privilegiado aos bastidores do poder, para perceber o tamanho do silêncio que se formou em torno de André Mendonça. Basta comparar o peso dos fatos com o espaço que eles ocupam no debate público.

O que está diante de todos não é uma questão abstrata. André Mendonça é ministro do Supremo Tribunal Federal e assumiu a relatoria do caso Banco Master. Antes disso, havia sido ministro da Justiça de Jair Bolsonaro — o mesmo Bolsonaro que o indicou para o STF.

E Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo do Banco Master, esteve com Mendonça em março de 2025, na sede de um instituto fundado pelo próprio ministro. O encontro foi confirmado pelo gabinete de Mendonça. Mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro mostram, ainda, a articulação prévia para aproximar o banqueiro do ministro e levantam questionamentos sobre o que efetivamente estava na pauta daquela conversa.

Mendonça afirma que o encontro foi único e que se limitou a ouvir Vorcaro. A questão, entretanto, não desaparece porque existe uma explicação oficial. Ao contrário: quando um ministro do STF se torna relator de um caso envolvendo justamente um personagem com quem havia mantido contato anteriormente, a obrigação de transparência deveria ser redobrada.

E é justamente aí que começa o problema da cobertura jornalística.

Porque o caso não envolve apenas um encontro entre um ministro e um banqueiro. Envolve uma teia de relações políticas, financeiras e institucionais que alcança personagens do entorno do bolsonarismo — entre eles Flávio Bolsonaro.

É impossível ignorar, portanto, a pergunta que deveria estar no centro do debate público: por que determinados nomes recebem uma avalanche de manchetes, análises, editoriais e comentários, enquanto outros parecem escapar sistematicamente do mesmo escrutínio?

O contraste é gritante.

Quando o assunto é Alexandre de Moraes, a máquina midiática consegue transformar cada detalhe em manchete, editorial, análise de conjuntura e debate interminável. Quando surgem fatos envolvendo Mendonça, Vorcaro, Banco Master e Flávio Bolsonaro, entretanto, a intensidade parece frequentemente mudar de escala.

Isso não significa que a imprensa não tenha publicado nada sobre o assunto — publicou, e há reportagens importantes. O problema é outro: o tamanho do escândalo e o tamanho da repercussão não parecem caminhar juntos.

E essa diferença precisa ser questionada.

Porque, quando a imprensa deixa de transformar determinado conjunto de fatos em assunto nacional, ela também está fazendo política — ainda que silenciosamente. A seleção do que merece indignação, o tempo dedicado a cada personagem, a quantidade de chamadas, análises e entrevistas e até o que desaparece rapidamente da pauta também moldam a percepção pública.

É aí que a chamada blindagem se torna perceptível.

Veja-se o caso do Instituto Iter. Reportagem da Folha apontou que a instituição fundada por Mendonça firmou 68 contratos sem licitação com órgãos públicos de 15 estados desde 2024, totalizando R$ 11,5 milhões. O próprio ministro anunciou que deixaria o quadro societário da instituição após os questionamentos.

R$ 11,5 milhões em contratos públicos não são uma nota de rodapé.

O encontro com Vorcaro também não é uma nota de rodapé.

A relação política de Mendonça com o governo Bolsonaro não é uma nota de rodapé.

A condição de Mendonça como relator do caso Master não é uma nota de rodapé.

E a presença de Flávio Bolsonaro no universo de relações que envolvem Vorcaro também não deveria ser tratada como nota de rodapé.

Mas existe algo ainda mais revelador.

Quando Michelle Bolsonaro vem a público para chamar André Mendonça de “ungido do Senhor”, em meio justamente à crise envolvendo o ministro e o caso Master, isso deveria provocar uma discussão jornalística sobre a relação política entre o magistrado e o núcleo bolsonarista. Michelle não fez uma manifestação protocolar: ela publicou uma defesa explícita do ministro, exaltando sua fé, sua coragem e sua fidelidade aos princípios cristãos.

É difícil imaginar demonstração mais clara de alinhamento político.

E, ainda assim, a pergunta permanece: onde está a mesma indignação jornalística que costuma acompanhar qualquer movimento envolvendo ministros do STF?

A situação fica ainda mais incômoda quando entra em cena Nikolas Ferreira.

O deputado do PL, uma das figuras mais populares da direita brasileira nas redes sociais, também apareceu nas revelações relacionadas a Vorcaro. Segundo a Agência Brasil, áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva mostram Nikolas pedindo ajuda ao banqueiro para liberar um ativo de minério para um ex-assessor.

Ora, estamos falando de um dos políticos mais influentes do campo bolsonarista.

Não seria justamente esse o tipo de revelação que deveria receber cobertura exaustiva?

A pergunta não é se a imprensa pode criticar Alexandre de Moraes. Evidentemente pode — e deve.

A pergunta é outra: por que o mesmo rigor não é aplicado a todos?

Por que o holofote é tão poderoso quando ilumina determinados personagens e tão fraco quando chega perto de outros?

Por que a lupa jornalística parece aumentar diante de Moraes e diminuir diante de Mendonça?

Por que a trajetória que conecta Bolsonaro, Mendonça, Vorcaro, Banco Master e Flávio Bolsonaro não recebe uma investigação pública proporcional à gravidade das conexões reveladas?

É nesse ponto que a velha mídia precisa responder — não ao governo, não ao STF, não à oposição, mas aos próprios leitores.

Porque jornalismo não é escolher previamente quem será vilão e quem será personagem protegido.

Jornalismo é seguir os fatos até onde eles levarem.

E os fatos, neste caso, levam a uma constatação incômoda: André Mendonça está no centro de uma história que envolve o Banco Master, Daniel Vorcaro e uma crise institucional dentro do próprio STF; Flávio Bolsonaro aparece no universo de relações envolvendo Vorcaro; Nikolas Ferreira também surgiu nas revelações sobre o banqueiro; e, apesar disso, a repercussão pública desses nomes não parece guardar proporcionalidade com o tamanho das revelações.

Se isso não é motivo para investigação jornalística permanente, então é preciso perguntar:

o que exatamente precisa acontecer para que a blindagem deixe de funcionar?

Porque óleo de peroba em spray talvez não seja suficiente para explicar tamanho silêncio.

E quando a imprensa decide quem deve ocupar o centro do escândalo e quem deve permanecer nas margens, ela deixa de ser apenas espectadora da disputa política.

Ela passa a fazer parte dela.


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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