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Inteligência artificial inflaciona preços apesar da promessa de reduzir custos

Estudo revela que algoritmos de “preço por vigilância” exploram dados pessoais para cobrar o máximo que cada consumidor aceita pagar

A narrativa dominante das últimas décadas prometia um futuro onde a inteligência artificial (IA) seria a grande equalizadora: tecnologias mais eficientes reduziriam custos operacionais, barateariam produtos e facilitariam a vida do cidadão. No entanto, a realidade de 2025 e 2026 aponta para uma distorção perigosa desse roteiro.

Em vez de repassar economias ao consumidor, grandes corporações estão utilizando a IA para implementar sistemas sofisticados de discriminação de preços, gerando uma inflação oculta e personalizada.

O fim do preço único e o surgimento da “vigilância de preços”

O The New York Times publicou editorial intitulado “Goodbye, Price Tags. Hello, Dynamic Pricing” [Adeus, etiqueta de preço. Olá, preço dinâmico], alertando que a tradicional etiqueta fixa pode desaparecer. O preço passa a variar em tempo real conforme demanda, perfil e contexto.

O conceito tradicional de etiqueta de preço, que representava um acordo tácito de valor igual para todos, está sendo substituído pelo dynamic pricing (preço dinâmico) turbinado por algoritmos. Segundo uma investigação da CBS News, plataformas como a Instacart foram flagradas cobrando valores diferentes pelo mesmo produto no mesmo dia, com variações de até 23%. Não se trata de erros ou promoções aleatórias, mas de um sistema intencional. Após investigação e pressão pública, a empresa anunciou o fim dos testes com precificação algorítmica baseada em IA.

Reportagem da Al Jazeera detalhou esse fenômeno de “Surveillance Pricing” (Preço por Vigilância). Diferente da precificação dinâmica tradicional, baseada na oferta e demanda geral, a vigilância de preços analisa o perfil individual do consumidor. Trata-se do uso de dados pessoais — comportamento de navegação, localização, dispositivo, histórico de compras — para estimar a disposição máxima de pagamento de cada consumidor.

Um relatório da Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA, divulgado em janeiro de 2025, detalhou como empresas coletam dados granulares — desde o tipo de dispositivo e nível da bateria até movimentos do mouse e histórico de navegação — para calcular o “ponto de dor” (pain point) de cada cliente: o valor máximo que ele está disposto a pagar antes de desistir da compra. O resultado: o preço deixa de ser universal e passa a ser personalizado.

“A tecnologia não observa só o mercado, ela observa você”, alerta a análise baseada em dados da CNN Brasil, que aponta que o uso de IA nas empresas saltou de um terço para quase dois terços das organizações globais em 2024, motivado primariamente pela redução de custos operacionais e maximização de receita, não por benefício social.

Companhias aéreas e a reação política

O tema ganhou repercussão após a Delta Air Lines informar que parte de suas tarifas domésticas já é determinada por sistemas baseados em IA. Senadores democratas questionaram se a tecnologia poderia elevar preços até o “ponto de dor” individual do passageiro, segundo a Reuters.

A Delta negou uso de dados pessoais para discriminação tarifária. Ainda assim, legisladores apresentaram projetos para restringir a personalização algorítmica de preços.

Em 2025, 51 projetos de lei em 24 estados americanos passaram a discutir limites à precificação automatizada.

A exploração da vulnerabilidade: bateria baixa, preço alto

Um dos exemplos mais controversos dessa nova lógica é a exploração de sinais de urgência e vulnerabilidade do usuário. Relatos investigados pelo India Today e pelo jornal belga La Dernière Heure indicam que usuários de aplicativos de transporte como o Uber pagaram tarifas significativamente mais altas quando seus celulares estavam com bateria baixa.

A hipótese levantada por especialistas em economia comportamental, citada pela Reuters, é que os algoritmos identificam que um usuário com 10% de bateria tem menos capacidade de esperar ou comparar preços, estando, portanto, mais propenso a aceitar um valor elevado.

Embora a Uber negue utilizar o nível da bateria como fator direto, seu ex-chefe de pesquisa econômica, Keith Chen, admitiu em entrevista à NPR que a empresa sabia que usuários com pouca carga aceitavam o “preço de pico” com mais frequência, um dado psicológico valioso para a modelagem de algoritmos de lucro.

Veículos brasileiros de imprensa, como o UOL, realizaram testes para verificar esta ocorrência e não observaram a variância de preços denunciada em outros países. Mesmo sem comprovação definitiva, relatos recorrentes reforçam a percepção pública de opacidade.

Eficiência corporativa vs. custo social

A contradição central reside nos resultados financeiros das empresas versus o bolso do consumidor. Um relatório da Boston Consulting Group (BCG), citado pela Exame, revela que as empresas líderes em adoção de IA registram crescimento de receita 1,7 vezes maior e redução de até 40% nos custos operacionais em comparação aos concorrentes. A McKinsey corrobora que quase 80% das empresas globais já utilizam IA generativa visando ganhos de escala.

No entanto, essa eficiência interna não se traduz em preços menores nas prateleiras. Pelo contrário. Estudos acadêmicos publicados na American Economic Review demonstram que algoritmos de precificação podem aprender, sem comunicação direta entre empresas, a manter preços “supracompetitivos”.

Com isso, eles estabilizam valores altos automaticamente, reduzindo a concorrência real. Esse efeito preocupa autoridades antitruste porque não há acordo explícito entre empresas, mas o resultado econômico se assemelha à colusão.

Como aponta a análise do canal Futuro Econômico, a IA tornou-se a ferramenta perfeita para a lógica da ganância corporativa: reduz custos internamente, justifica aumentos externamente sob a desculpa de “investimento em tecnologia” e opera numa zona cinzenta onde a intenção humana de cartel é difícil de provar juridicamente.

A reação regulatória e o futuro do consumo

Diante do cenário onde consumidores pagam mais por serviços muitas vezes inferiores e menos humanos, legisladores começam a reagir. A Reuters informa que, apenas em 2025, 51 projetos de lei foram introduzidos em 24 estados dos EUA para regular a precificação algorítmica. Nova York já proibiu a precificação personalizada não divulgada, e a União Europeia, através do Digital Markets, Competition and Consumers Act, estabeleceu multas de até 10% da receita global para práticas enganosas de preços digitais.

O Financial Stability Board (FSB), órgão ligado ao G20, alertou em 2025 que a adoção massiva de modelos semelhantes de IA pode gerar riscos sistêmicos e comportamento de “rebanho” nos mercados.

De acordo com o Vermelho, o Bank for International Settlements (BIS) defendeu atualização urgente das capacidades regulatórias diante do avanço da tecnologia.

Apesar dos esforços regulatórios, o desafio é técnico. Ferramentas de device fingerprinting permitem que as empresas contornem medidas básicas de privacidade, como navegação anônima ou limpeza de cookies.

O paradoxo econômico: eficiência interna, inflação externa?

Há uma tensão central:

  • Internamente: empresas relatam cortes de custos e aumento de margens.
  • Externamente: consumidores enfrentam preços crescentes e menos transparência.
  • Economistas observam que, quando ganhos de eficiência são apropriados majoritariamente pelo capital — e não repassados ao consumidor — o efeito pode ser aumento de margem, não redução de preços.

Além disso, o boom de investimentos em chips e infraestrutura de IA tem pressionado cadeias produtivas de tecnologia, elevando preços de eletrônicos e equipamentos, segundo análises de mercado citadas pela imprensa especializada.

A promessa original da IA era simples: produzir mais com menos e baratear o acesso.

Os dados mostram que ela, de fato, reduz custos corporativos e amplia receitas. Porém, a disseminação de precificação dinâmica e personalizada sugere que parte relevante desses ganhos tem sido apropriada pelas empresas sob forma de margem — e não revertida em queda de preços.

Se a tecnologia aumenta produtividade, mas o custo de vida continua subindo, a explicação pode estar menos na inovação em si e mais na lógica econômica que a orienta. A questão central já não é apenas tecnológica, mas estrutural: quem captura os ganhos de eficiência?

A conclusão analítica é clara: a promessa da IA de baratear a vida foi redirecionada. O sistema econômico encontrou na inteligência artificial não um motor de bem-estar social, mas um mecanismo de extração de valor sem precedentes, onde a conta da inovação tecnológica continua chegando, salgada, para as mesmas pessoas de sempre.


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Twitter admite favorecer alcance de conteúdos de direita

Em todos os países pesquisados, exceto a Alemanha, tuítes de contas da direita receberam amplificação maior do que da esquerda.

Uma pesquisa interna divulgada pelo Twitter nesta sexta-feira (22) apontou que o algoritmo da rede social impulsiona mais postagens feitas por políticos e organizações de direita do que de esquerda. O levantamento foi feito em sete países: Alemanha, Canadá, França, Japão, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Foram comparados dois tipos pelos quais o usuário pode visualizar sua linha do tempo na rede social: uma visão personalizada dos tuítes nos quais ele pode estar interessado, com base nas contas com as quais mais interage; e a linha do tempo mais “tradicional”, em que o usuário lê as postagens mais recentes em ordem cronológica inversa.

Foram analisados milhões de publicações de autoridade eleitas entre 1º de abril e 15 de agosto de 2020 e centenas de milhões de tuítes de organizações de notícias, principalmente nos Estados Unidos, no mesmo período. Em todos, exceto a Alemanha, os tuítes das contas da direita política receberam uma amplificação algorítmica maior do que da esquerda, se estudados como grupos.

De acordo com o Twitter, ainda não se sabe o que causa essa diferença. Os profissionais farão, agora, parcerias externas para tentar entender a ocorrência desse comportamento preferencial.

A maior discrepância entre direita e esquerda foi observada no Canadá (liberais 43%; conservadores 167%), seguido pelo Reino Unido (trabalhista 112%; conservadores 176%). Mesmo excluindo altos funcionários do governo, os resultados foram semelhantes, conforme o documento.

*Com informações da Forum

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150 demissões em um segundo: os algoritmos que decidem quem deve ser mandado embora

Uma empresa de ‘software’ despediu centenas de funcionários em agosto seguindo apenas a recomendação de uma inteligência artificial, um caso que pode se tornar comum.

El País – Você será demitido por um algoritmo. Parece uma profecia de mau agouro, mas esse é o destino que aguarda a maior parte das pessoas empregadas neste agitado primeiro terço do século XXI: ser contratadas e despedidas por máquinas, sem nenhuma intermediação humana. É possível que muitas delas passem por esse ciclo de destruição criativa em várias ocasiões ao longo de trajetórias de trabalho que prometem ser agitadas. É o fim do emprego para a vida toda, que era comum até o final do século XX.

Em agosto, a Xsolla, filial russa de uma empresa de software e serviços interativos com sede em Los Angeles, fez uma reestruturação inovadora de sua equipe, atraindo a atenção de veículos de comunicação do mundo todo. Sem prévio aviso, ela decidiu demitir 150 dos 450 funcionários de seus escritórios em Perm e Moscou, seguindo apenas a recomendação de um algoritmo de eficiência no trabalho que os considerou “improdutivos” e “pouco comprometidos” com os objetivos da empresa.

Nem o impacto da pandemia nem as tão citadas “razões estruturais”. Desta vez, a causa alegada para justificar as demissões em massa foi o julgamento frio de um programa de inteligência artificial alimentado com big data. A medida foi tão drástica e incomum que o diretor-executivo e fundador da empresa, Alexander Agapitov, apressou-se em declarar à edição russa da Forbes que não concordava totalmente com o veredicto da máquina, mas era obrigado a acatá-lo devido aos protocolos internos pactuados com sua assembleia de acionistas. Ele até se ofereceu para ajudar os trabalhadores demitidos a encontrar novos empregos o mais rápido possível porque, em sua opinião, eles são, na maioria, “bons profissionais”.

O caso da Xsolla é um dos muitos exemplos de empresas modernas com vocação disruptiva que estão incorporando a inteligência artificial ao seu processo de tomada de decisões. O que é relativamente novo é que as funções que a máquina assumiu nesta ocasião são nada menos do que as da diretoria-geral de operações e das divisões de recursos humanos e gestão de talentos.

Que as máquinas acabariam substituindo os trabalhadores humanos, é algo que os luditas britânicos do século XIX já sabiam, e que Charles Chaplin nos mostrou de forma bastante eloquente no filme Tempos Modernos, de 1936. O que não esperávamos era que as máquinas fossem se transformar em nossos chefes.

Existe pelo menos um precedente muito conhecido. Em 2019, a Amazon, a mãe de todas as empresas disruptivas de hoje, atraiu a atenção da revista Bloomberg por sua tendência de demitir funcionários com base em critérios informáticos. Naquela ocasião, um dos afetados, Stephen Normandin, foi entrevistado pela revista e virou um símbolo desse procedimento aparentemente frio e desumanizado.

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Política

Facebook ”afinou” o algoritmo para tirar visibilidade a publicações de esquerda

Uma reportagem do Wall Street Journal diz que foi o próprio Mark Zuckerberg a dar instruções para a mudança, cedendo assim às críticas dos meios conservadores norte-americanos que acusavam a plataforma de parcialidade.

Em 2017, a mudança no algoritmo que gere as publicações de notícias no Facebook tinha por finalidade anunciada o combate às fake news. E não demorou muito tempo a perceber que a alteração teve um impacto considerável nas visitas de sites de direita como o Daily Wire, um dos mais populares na plataforma apesar de muitas vezes apontado pelos verificadores de factos do próprio Facebook como estando a publicar notícias falsas.

Segundo uma reportagem publicada na sexta-feira pelo Wall Street Journal, o líder do Facebook terá sido pressionado pelos responsáveis de publicações associadas ao setor mais extremista dos conservadores, entre os quais Ben Shapiro, visita de casa do dono do Facebook e fundador do Daily Wire, ou Tucker Carlson, fundador de outro site conhecido por difundir “fake news”, o Daily Caller.

Segundo o Wall Street Journal, as pressões deste círculo de apoiantes de Trump terão levado o Facebook a “afinar” o algoritmo no sentido inverso. Embora a empresa reafirme ainda hoje que as mudanças não foram dirigidas contra nenhuma publicação em concreto, a revista Mother Jones, com uma linha editorial à esquerda no panorama político norte-americano, já se queixava em 2019. Segundo as suas contas aos 18 meses anteriores, a perda de tráfego provocada por essa mudança correspondeu a cerca de 400 mil dólares de receita anual perdida, impedindo-a de financiar projetos de investigação ou de contratar mais gente.

”Sabemos agora que o Facebook fez alterações para lhe mostrar menos notícias da Mother Jones” é o título do editorial publicado na sexta-feira. Ben Dreyfuss, o diretor editorial responsável pela área do Crescimento e Estratégia da revista fundada em 1976, afirma que teve reuniões com responsáveis do Facebook no fim de 2017 e no início de 2018 acerca das mudanças no algoritmo.

“Disseram que estavam a fazer afinações e que todas as publicações iriam sentir uma diminuição ligeira do tráfego e interações, mas não de forma a favorecer ou desfavorecer qualquer publicação em concreto”. Aos jornalistas da publicação, Dreyfuss escreveu na altura: “Não acho que isto seja a bomba nuclear que toda a gente pensava ha umas semanas”.

“Bom, eu estava muito enganado. O nosso alcance afundou”, reconhece o responsável da revista, frustrado por ver que o trabalho dos seus três editores para as redes sociais não teve resultado. “Muitas vezes não funciona, é a vida, mas quando não funciona nunca, é muito frustrante”, prossegue o editor, que diz ter sempre dado o benefício da dúvida ao Facebook, apesar de “os ‘top posts’ no site serem agora todos de publicações conservadoras”.

Também a CEO da Mother Jones, Monika Bauerlein, reagiu no Twitter ao artigo do Wall Street Journal, mostrando um gráfico sobre a evolução das audiências da revista no Facebook antes e depois da decisão de Zuckerberg.

*Carta Capital/Publicado originalmente em esquerda.net

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