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Brasil aproveita erros de Trump e da família Bolsonaro e encosta nos EUA no agronegócio

O que Donald Trump pretendia transformar em instrumento de pressão contra o Brasil começa a produzir um efeito bastante diferente no comércio internacional: o país está ocupando espaços que os Estados Unidos vêm perdendo no agronegócio e já se aproxima de superar os norte-americanos em valor de exportações do setor.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2025, os Estados Unidos exportaram cerca de US$ 171 bilhões em produtos agropecuários, apenas 14% acima do resultado de cinco anos antes. No mesmo período, o Brasil saltou 68%, chegando a US$ 169 bilhões. A distância, que no início do século era enorme a favor dos americanos, praticamente desapareceu.

A explicação não está apenas na extraordinária capacidade produtiva brasileira. A política comercial de Trump também abriu portas para os concorrentes. Ao transformar a China e outros parceiros tradicionais em adversários comerciais, Washington perdeu mercados estratégicos justamente para países capazes de oferecer produtos competitivos — e o Brasil estava pronto para ocupar esses espaços.

Na Ásia, o movimento é particularmente revelador. Entre 2022 e 2025, as exportações agropecuárias dos EUA para a região caíram 25%, enquanto as brasileiras cresceram 9%. No mercado chinês, a retração americana foi ainda mais expressiva: as vendas dos EUA diminuíram 49% em cinco anos, enquanto as brasileiras avançaram 8%.

É a velha ironia da geopolítica: ao tentar usar tarifas para proteger o produtor americano, Trump acabou estimulando compradores internacionais a procurar fornecedores alternativos. E o Brasil apareceu como uma alternativa natural.

A soja é um dos exemplos mais emblemáticos. Os Estados Unidos continuam fortes no milho, mas perderam espaço justamente em uma das commodities que historicamente sustentaram sua balança agrícola. Nas carnes, o avanço brasileiro também é significativo. O Brasil ampliou sua presença internacional enquanto os americanos enfrentam um rebanho bovino no menor nível em décadas e passaram, paradoxalmente, a depender mais de carne importada.

O desempenho brasileiro não é apenas uma reação circunstancial ao tarifaço. As exportações do agronegócio atingiram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde para o período, impulsionadas principalmente por carnes, soja e algodão. A China sozinha respondeu por US$ 30,5 bilhões, 35,1% do total, com crescimento de 10,5% sobre o mesmo período anterior.

E há outro dado que desmonta a ideia de que o Brasil estaria excessivamente dependente dos Estados Unidos: no primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras de produtos do agronegócio para os EUA caíram 25,1%, mas a China, a União Europeia e outros mercados absorveram boa parte da expansão brasileira.

Isso significa que a diversificação virou uma espécie de seguro contra o protecionismo de Trump. Quanto mais Washington fecha portas, mais Brasília procura — e encontra — compradores em outras partes do planeta.

O resultado é uma transformação importante no equilíbrio do agronegócio mundial. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência agrícola incontestável, mas já não podem contar com a mesma vantagem de décadas atrás. O Brasil dispõe de território, produtividade, capacidade de expansão, diversidade de produtos e uma posição privilegiada no comércio com a Ásia.

Trump queria utilizar o tamanho do mercado americano como arma. O problema é que o mundo mudou — e o Brasil também.

Hoje, quando Washington ergue barreiras, Pequim abre espaço. Quando os americanos perdem competitividade, os brasileiros avançam. Quando Trump transforma parceiros em adversários, produtores brasileiros encontram novos clientes.

O mais revelador, portanto, é que a política de confronto dos Estados Unidos pode estar acelerando exatamente aquilo que pretendia evitar: a consolidação do Brasil como um dos grandes fornecedores estratégicos de alimentos do planeta e como concorrente cada vez mais direto da agricultura americana.

A disputa pelo agronegócio mundial, ao que tudo indica, está mudando de mãos — e o Brasil chega a essa disputa muito mais forte do que estava no início do século.


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A audiência que desmontou o espetáculo: entrevista de Lula na Record supera em mais de duas vezes o debate da Band

A noite de domingo deixou um recado que a televisão e os estrategistas eleitorais deveriam levar a sério: o público não comprou o debate presidencial da Band. Enquanto a emissora transmitia um confronto esvaziado, sem Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, a entrevista de Lula à Record, exibida praticamente no mesmo horário, alcançava mais que o dobro da audiência.

Na medição em tempo real das 20h57, na Grande São Paulo, a Record registrava 4,28 pontos, contra apenas 2,06 pontos da Band — uma diferença de 108%.

E há uma ironia ainda maior nesse resultado. O debate foi vendido como um dos grandes momentos da largada da corrida presidencial, mas acabou transformado em uma espécie de palco de segunda linha. Com a ausência dos principais candidatos, sobraram três concorrentes — Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos — tentando ocupar um espaço que deveria ser disputado pelos nomes que efetivamente estão no centro da eleição.

Enquanto isso, Lula estava na Record falando diretamente com o eleitor. E a resposta veio na forma mais objetiva possível: a audiência.

O dado é especialmente significativo porque demonstra que não basta colocar câmeras, púlpitos e candidatos em um estúdio e chamar aquilo de grande debate presidencial. O eleitor decide onde quer prestar atenção. E, naquela noite, preferiu acompanhar Lula a assistir a um confronto sem os dois candidatos que polarizam a disputa.

Nas redes sociais, a entrevista também ganhou enorme repercussão, ampliando seu alcance muito além da televisão. Lula conseguiu transformar uma ausência no debate em uma oportunidade de comunicação direta, enquanto a Band acabou transmitindo um programa que, pela audiência registrada, despertou pouco interesse do público.

O resultado expõe uma realidade incômoda: o debate pode ter sido importante para os candidatos que participaram, mas não conseguiu se impor como o grande acontecimento eleitoral da noite.

A audiência fez a comparação por conta própria. De um lado, um debate esvaziado. Do outro, Lula falando ao eleitor. E, pelo menos naquele confronto de audiência, o eleitor escolheu claramente onde queria estar, com Lula


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A cortina de fumaça da mídia para proteger Flávio Bolsonaro

O cerco começa a se fechar sobre Flávio Bolsonaro — e, curiosamente, quanto mais avançam as questões que envolvem o candidato, mais determinados setores da mídia parecem interessados em deslocar o foco para Lulinha. Não se trata de negar a necessidade de investigação sobre o filho de Lula: qualquer suspeita deve ser apurada, com provas, contraditório e direito de defesa. O problema está em outra coisa: na tentativa deliberada de construir uma equivalência política entre situações que não são equivalentes.

A própria conjuntura ajuda a entender o movimento. Flávio enfrenta questionamentos relacionados ao caso Dark Horse e aos recursos recebidos de Daniel Vorcaro, enquanto Lulinha é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de tráfico de influência. São fatos que devem ser investigados individualmente, sem proteção para ninguém. Mas transformar isso automaticamente em uma espécie de “empate moral” é justamente a velha fórmula da mídia de sempre: colocar duas histórias lado a lado, atribuir-lhes pesos semelhantes e deixar ao leitor a impressão de que “todos são iguais”.

É nesse ponto que a coluna de Carlos Andreazza, no Estadão, torna-se emblemática. O expediente é conhecido: quando um personagem politicamente incômodo está sob pressão, cria-se uma simetria artificial com alguém do outro campo. A comparação passa então a funcionar como uma cortina de fumaça. O debate deixa de ser sobre o que Flávio precisa explicar e passa a ser sobre o que Lulinha também precisa explicar.

É uma operação retórica extremamente conveniente.

E ela se encaixa perfeitamente na sentença de Merval Pereira, em O Globo, de que o resultado da eleição estaria nas mãos do STF e da PF. A frase, além de revelar o enorme protagonismo que o baronato midiático atribui às instituições de investigação e Justiça no processo eleitoral, também ajuda a estabelecer o enquadramento: a eleição passa a ser apresentada como uma disputa determinada por inquéritos, decisões judiciais e vazamentos — e não pelo julgamento dos eleitores sobre os candidatos, suas trajetórias e, sobretudo, suas responsabilidades.

Não é difícil compreender a mensagem política por trás desse enquadramento.

Se a eleição será decidida pelo que STF e PF fizerem, então é preciso nivelar previamente os personagens que podem ser atingidos pelas investigações. Flávio aparece de um lado; Lulinha, do outro. Um caso puxa o outro. Uma manchete responde à outra. Uma denúncia vira argumento para relativizar a seguinte. E, assim, a velha tese do “dois lados” volta a funcionar como uma espécie de máquina de lavar reputações.

O problema é que jornalismo não é contabilidade de escândalos.

Não existe obrigação jornalística de encontrar um escândalo para cada escândalo. Não é porque há investigação contra Lulinha que qualquer questionamento envolvendo Flávio Bolsonaro perde importância. Tampouco é porque Flávio enfrenta problemas que as suspeitas contra Lulinha devam ser ignoradas. Cada caso tem de ser examinado pelos seus fatos, provas, personagens e consequências.

O que causa estranheza é a insistência em transformar essa necessária distinção em uma falsa equivalência.

E há uma pergunta incômoda que deveria ser feita: por que, justamente quando aumentam as atenções sobre Flávio, a discussão sobre Lulinha passa a ocupar tanto espaço?

O próprio Flávio já percebeu a utilidade eleitoral dessa estratégia e passou a explorar publicamente o caso Lulinha enquanto tenta declarar o episódio Dark Horse “página virada”. A coincidência entre a estratégia do candidato e o enquadramento de parte da mídia merece, no mínimo, ser observada com lupa.

Até porque os fatos não desaparecem porque surgiu uma nova manchete.

Flávio pode falar em “página virada”. Pode apontar para Lulinha. Pode tentar transformar o adversário em espelho de suas próprias dificuldades. Mas isso não responde às perguntas que permanecem sobre o caso Dark Horse. E, sobretudo, não elimina a obrigação da imprensa de continuar cobrando explicações.

A comparação entre Flávio Bolsonaro e Lulinha, portanto, não é apenas uma questão de estilo jornalístico. Quando usada para atribuir pesos iguais a situações distintas, ela produz um efeito político concreto: dilui a responsabilidade de quem está sob pressão e transforma investigação em instrumento de compensação narrativa.

É a velha carcomida fórmula do “mas e o outro lado?”.

Só que democracia não funciona assim.

Se há suspeitas contra Lulinha, que sejam investigadas até o fim. Se houver crimes, que haja responsabilização. Mas, pelo mesmo princípio, se há questões envolvendo Flávio Bolsonaro, elas também precisam ser investigadas e cobradas até o fim — sem que Lulinha seja transformado em cortina de fumaça toda vez que o holofote ameaça iluminar o candidato da direita.

No fim, talvez o mais revelador não seja apenas aquilo que a mídia noticia.

É aquilo que ela escolhe colocar ao lado do que noticia — e, principalmente, aquilo que deixa de perguntar quando o assunto é Flávio Bolsonaro.


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O debate na Band teve a emoção de um jogo entre lanternas da Série B

O debate na Band despertou exatamente o mesmo nível de interesse de um jogo entre os dois últimos colocados da Série B numa noite de segunda-feira: pouca gente assistindo, quase ninguém comentando e uma parcela considerável do público perguntando se já estava na hora de começar a novela.

A expectativa até existia. Afinal, era debate eleitoral, candidatos frente a frente, promessas, ataques, réplicas e tréplicas. Mas, na prática, a sensação foi mais ou menos a de quem compra ingresso para uma final e descobre, na porta do estádio, que era treino coletivo.

Faltou aquela faísca capaz de fazer o eleitor largar o celular, a televisão e até o jantar para acompanhar cada minuto. Em vez de provocar discussões acaloradas no dia seguinte, o debate parecia disputar audiência com o ventilador, a geladeira e o próprio sono do telespectador.

Nas redes sociais, então, o cenário foi quase uma competição para ver quem conseguia resumir o evento em menos palavras. Teve gente comentando, claro. Mas também teve gente que só descobriu que o debate havia terminado porque apareceu a propaganda seguinte.

E não é pouca coisa: em plena corrida eleitoral, quando cada candidato deveria estar lutando para transformar segundos de televisão em votos, o debate conseguiu produzir uma espécie rara de efeito: ninguém parecia desesperado para saber quem ganhou.

Se política é emoção, estratégia e capacidade de mobilizar o eleitor, o debate da Band ficou devendo nos três quesitos. Foi menos “grande confronto eleitoral” e mais “amistoso de pré-temporada com portões fechados”.

No fim, a comparação com um jogo entre lanternas da Série B talvez ainda seja generosa. No futebol, pelo menos, sempre existe a possibilidade de sair um gol aos 47 do segundo tempo. No debate, o grande suspense parecia ser outro: quem seria o primeiro a desistir e mudar de canal.


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De olho em 2030, ninguém está torcendo mais do que Tarcísio para Flávio perder para Lula

Há uma contradição cada vez mais evidente na política da direita brasileira: Tarcísio de Freitas precisa apoiar Flávio Bolsonaro em 2026, mas seu projeto político pode depender justamente da derrota dele.

É a velha máxima da política: ninguém precisa desejar publicamente a queda de um aliado para, nos bastidores, saber que a queda desse aliado pode abrir o caminho para o seu próprio futuro.

Tarcísio já deixou escapar que a Presidência da República pode estar nos seus planos. Nesta semana, pela primeira vez, admitiu que “talvez” dispute o Planalto no futuro. E, enquanto isso, Flávio foi escolhido pelo pai para representar o bolsonarismo na disputa contra Lula em 2026.

O problema é simples: se Flávio vencer Lula, Tarcísio pode ter acabado de perder uma das melhores oportunidades de sua carreira política.

Flávio, eleito presidente, ocuparia o Planalto por quatro anos — e, dependendo do destino da proposta de fim da reeleição que vem defendendo, poderia transformar a sucessão presidencial em um novo campo de batalha dentro da própria direita. O próprio Flávio já fala em ser um “presidente de transição”.

Para Tarcísio, portanto, uma eventual vitória de Flávio não seria necessariamente o cenário dos sonhos.

Já uma derrota para Lula mudaria completamente o tabuleiro.

Se Flávio perder em outubro, o bolsonarismo entrará imediatamente na discussão sobre quem será o herdeiro político da direita para 2030. E Tarcísio, governador de São Paulo, com forte trânsito empresarial, estrutura política e capacidade eleitoral, estaria naturalmente entre os primeiros nomes da fila.

É por isso que a eleição de 2026 pode ser lida também como uma disputa pelo futuro da direita brasileira. Não está em jogo apenas Lula contra Flávio. Está em jogo quem estará de pé depois dessa batalha.

Tarcísio sabe disso.

E sabe também que Lula continua sendo um adversário extremamente competitivo. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 41% no primeiro turno contra 37% de Flávio e, no segundo turno, uma disputa praticamente empatada: 46% a 45% para Lula. Já o Datafolha divulgado na semana passada apontou Lula à frente de Flávio por 47% a 43% no segundo turno.

Ou seja: Flávio pode perfeitamente perder.

E é justamente aí que começa a fazer sentido a movimentação cuidadosa de Tarcísio.

Ele apoia Flávio, participa de agendas ao seu lado e, publicamente, fala em unidade da direita. Mas, ao mesmo tempo, já prepara seu próprio terreno. Não confirma candidatura presidencial, mas também não a descarta. Não rompe com o bolsonarismo, mas procura demonstrar autonomia. Não abandona Flávio, mas deixa claro que existe vida política depois de Bolsonaro.

É uma operação delicada.

Porque Tarcísio precisa evitar ser acusado de torcer contra Flávio sem deixar de pensar no dia seguinte à eleição.

E há ainda um detalhe revelador: pesquisas anteriores já mostraram que Tarcísio aparece como um dos nomes competitivos contra Lula e que a presença dele altera o desempenho de Flávio nos cenários eleitorais.

Por isso, a hipótese mais interessante não é imaginar Tarcísio fazendo campanha ostensivamente contra Flávio. É justamente o contrário: quanto mais disciplinado for seu apoio público, mais protegido estará o seu projeto pessoal.

Se Flávio vencer, Tarcísio terá cumprido seu papel e poderá reivindicar espaço no novo governo.

Se Flávio perder, Tarcísio poderá dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, preservar sua relação com o eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, apresentar-se como uma alternativa para reorganizar a direita.

É o famoso “ganha-ganha” da política.

E talvez seja por isso que o horizonte de Tarcísio não termine em 2026 — nem sequer em 2030.

Quem pensa em 2040 não precisa necessariamente vencer a eleição de 2026. Às vezes, precisa apenas garantir que os adversários certos não vençam.

Tarcísio pode estar olhando muito mais longe do que parece.

Enquanto Flávio luta para chegar ao Planalto, Tarcísio pode estar calculando quem estará ocupando o caminho quando chegar a hora de ele próprio tentar chegar lá.

Na política, apoio público e interesse privado nem sempre caminham pela mesma estrada.

E, nesse jogo, talvez ninguém esteja mais interessado do que Tarcísio em saber quem perderá — e quem sobreviverá — à eleição de 2026.


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Dino abre caminho para PF aprofundar investigação sobre o Dark Horse, filme de Bolsonaro

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a Polícia Federal a acessar dados apreendidos em uma operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, coloca novas peças no tabuleiro de uma investigação que já vinha cercada de suspeitas. A PF poderá incorporar ao inquérito federal informações obtidas nas buscas realizadas contra empresas e endereços ligados à produtora.

A medida é especialmente relevante porque a investigação federal apura se recursos de emendas parlamentares destinados a entidades ligadas à produção foram utilizados para financiar o longa. Ou seja: aquilo que inicialmente poderia parecer apenas uma operação envolvendo contratos públicos e uma ONG agora passa a fornecer material para uma investigação que alcança diretamente a origem e o destino do dinheiro relacionado ao filme.

A operação realizada em junho pela Polícia Civil paulista atingiu Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB). A investigação estadual apura suspeitas de fraudes e desvios de recursos públicos em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de wi-fi gratuito em comunidades carentes.

Agora, o conteúdo apreendido poderá ser cruzado com os dados já reunidos pela PF. E é justamente esse cruzamento que pode ser decisivo: documentos, mensagens, registros financeiros e outros elementos eventualmente encontrados na operação paulista podem ajudar os investigadores a reconstruir o caminho do dinheiro e verificar se houve conexão entre recursos públicos e a produção cinematográfica.

A investigação federal envolve emendas destinadas por parlamentares do PL, entre eles Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. Frias, por exemplo, destinou R$ 2 milhões ao ICB em 2024, mas afirma que o dinheiro não foi usado no filme. Os parlamentares citados negam irregularidades.

O caso ganha ainda mais peso porque Dark Horse já está no centro de outra investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça. Nessa segunda frente, são investigados os aportes e as tratativas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro para a conclusão do filme. Segundo informações divulgadas pela imprensa, áudios registraram Flávio cobrando de Vorcaro R$ 61 milhões para finalizar a produção.

Portanto, a autorização de Dino não significa que irregularidades estejam comprovadas. Mas significa algo politicamente e judicialmente importante: a investigação ganhou acesso a uma nova fonte de provas e poderá cruzar informações de diferentes apurações.

E isso torna cada vez mais difícil tratar o caso Dark Horse como uma simples “página virada”, como vem fazendo Flávio Bolsonaro. Enquanto o candidato tenta encerrar o assunto no discurso, a Polícia Federal recebe autorização para ampliar o exame dos elementos apreendidos e investigar justamente aquilo que ainda precisa ser esclarecido: de onde veio o dinheiro, para onde foi e quem efetivamente pagou pela produção do filme que pretendia celebrar a trajetória política de Jair Bolsonaro.

A decisão de Dino, portanto, pode representar um novo capítulo de uma história que está longe de terminar. Quanto mais as investigações cruzarem documentos, movimentações financeiras e comunicações, maior será a possibilidade de separar versões políticas de fatos comprováveis. E, nesse caso, é exatamente isso que a sociedade espera: menos narrativa, menos blindagem e mais transparência sobre o dinheiro que financiou o filme.


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Igreja Universal recebeu R$ 2,2 milhões em emendas de irmã de Edir Macedo

A deputada estadual por São Paulo Edna Macedo, do Republicanos, destinou R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares para megaeventos da Igreja Universal, liderada pelo seu irmão, o bispo Edir Macedo, um dos homens mais ricos do Brasil. Ela concorre à reeleição na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Emendas parlamentares são a ferramenta que deputados e senadores usam para enviar uma parte do dinheiro público para financiar obras, projetos e instituições, geralmente nas suas próprias cidades e estados.

A primeira indicação de Edna para eventos da igreja do irmão foi de R$ 1,2 milhão no ano passado para a The Love Walk – Caminhada do Amor – um misto de palestra e atrações musicais com orientações sobre relacionamentos amorosos – criado pelo casal Renato e Cristiane Cardoso, conhecidos pelo programa de TV “The Love School: Escola do Amor”. Ela é filha de Edir Macedo.

Já neste ano, a deputada Edna Macedo indicou R$ 1 milhão para o Família ao Pé da Cruz, uma série de cultos religiosos em estádios e ginásios que aconteceu em diversos países na última Sexta-Feira Santa.

Toda essa verba pública para eventos da Igreja Universal é destinada inicialmente para o Instituto Paulo Kobayashi, conhecido como IPK, que realiza vários eventos religiosos da congregação de Edir Macedo. O caso foi revelado inicialmente em reportagem do colunista Artur Rodrigues, do portal UOL.

Entre 2023 e 2026, o IPK recebeu R$ 37,7 milhões de dinheiro público indicado por parlamentares, na maior parte do Republicanos e do PL. Desse total, pelo menos R$ 16,8 milhões foram destinados a eventos da Universal. Ou seja, quase metade da quantia recebida pela entidade foi para atividades promovidas pela igreja de Edir Macedo.

Acontece que nem sempre a motivação desse recurso é esclarecida nos dados do Portal da Transparência do governo de São Paulo. As duas emendas da Edna Macedo para eventos da Universal, por exemplo, são descritas apenas como “apoio a evento cultural e criativo”. É preciso analisar o interior dos termos de fomento, uma espécie de contrato entre governos e ONGs, para identificar a real destinação daquele dinheiro.

Os outros parlamentares que destinaram verba para eventos da Universal, através do IPK, são Altair Moraes, Danilo Campetti, Gilmaci Santos, Rui Alves, Sebastião Santos e Tenente Nascimento. Todos são filiados ao Republicanos, braço político da Igreja Universal, com exceção do Tenente Nascimento, que deixou a legenda e migrou para o PL.

Além do Caminhada do Amor e do Família ao Pé da Cruz, também foram bancados com verba de emenda os festivais da Universal chamados Mega Dance, Mega Help e Canta Gospel. Parte desses eventos são promovidos pela Força Jovem Universal, a FJU, grupo da igreja de Edir Macedo voltado para a juventude.

Por sua vez, o Instituto Paulo Kobayashi é uma organização da sociedade civil de interesse público, ou OSCIP, criada e comandada por familiares do professor de geografia e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo Seiti Kobayashi, morto em 2005 quando era deputado federal pelo PSDB.

A organização, que foi criada em 2005, teve um salto na quantidade de recursos públicos do governo de São Paulo recebidos durante a gestão de Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Em 2023, primeiro ano do governo, foram pagos R$ 4,3 milhões em emendas para o IPK. Em 2024, subiu para R$ 10,3 milhões. Já no ano passado esse valor chegou a R$ 11,7 milhões. E já passa de R$ 11 milhões até agosto de 2026.

Os tipos de eventos promovidos pelo IPK com recursos públicos são bastante variados: festas religiosas, eventos gastronômicos, festivais culturais, projetos esportivos e até um encontro para capacitar pessoas para o apoio e atendimento de vítimas de tragédias.

Em dezembro de 2024, Edna Macedo publicou uma foto na sua conta do Instagram ao lado do presidente do IPK, Victor Kobayashi, e do fundador do ID Mais Vida, organização que trabalha com o IPK, Mauricio Miyazaki. A foto mostra uma visita dos dois ao seu gabinete. “Pessoas boas atraem pessoas boas! (…). Tivemos uma boa conversa sobre o terceiro setor”, escreveu a deputada do Republicanos.

A deputada Edna Macedo também foi pessoalmente à edição do evento Família ao Pé da Cruz que ocorreu na Neo Química Arena, e posou para fotos ao lado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB.

O doutor em Administração Pública e professor de estratégia e gestão pública do Insper Marcelo Marchesini explica que não há previsão legal que proíba o uso de emenda parlamentar para financiar um evento de uma igreja ligada a um familiar do autor da emenda, já que ele não é o beneficiário direto do recurso.

“As emendas impositivas têm essa possibilidade de serem alocadas sem a necessidade de justificar a escolha do beneficiário. Os requisitos são muito mais frouxos do que os do próprio poder Executivo para firmar esse tipo de parceria ou contratação”, avalia.

Marchesini defende que os critérios de contratação sejam, no mínimo, os mesmos exigidos pelo Executivo. Ele também ressalta que as emendas parlamentares estaduais recebem menos atenção do que as federais por terem menor presença no debate público.

*Intercept


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Da denúncia à blindagem: o que mudou na mídia quando o alvo passou a ser Lulinha?

A mesma mídia que, durante anos, ocupou manchetes, editoriais e horas de televisão denunciando — muitas vezes com enorme estardalhaço — os inúmeros escândalos envolvendo o clã Bolsonaro parece ter mudado radicalmente de comportamento. Agora, diante de fatos que atingem diretamente Flávio Bolsonaro, parte dessa imprensa prefere deslocar o foco, alimentar suspeitas contra Lulinha e transformar especulações em combustível para uma ofensiva política.

A pergunta é inevitável: o que mudou?

Não mudou o histórico dos personagens. Não mudaram os fatos que já foram amplamente noticiados. Não mudou a obrigação jornalística de investigar, cobrar explicações e confrontar políticos com suas próprias promessas. O que parece ter mudado é o tratamento dado aos protagonistas.

Quando o alvo era o governo Lula ou alguém ligado ao campo progressista, bastava uma suspeita para que o assunto ganhasse destaque, manchetes e intermináveis desdobramentos. Quando surgem fatos potencialmente comprometedores envolvendo figuras da direita, entretanto, o rigor parece desaparecer — e a cobertura passa a operar por outro método: menos cobrança sobre quem precisa explicar e mais ataques contra quem pode servir de distração.

É justamente aí que entra Lulinha.

Em vez de concentrar a atenção sobre as acusações, relações, documentos e explicações que envolvem Flávio Bolsonaro, a imprensa transforma Lulinha em uma espécie de cortina de fumaça. A estratégia é conhecida: criar uma associação permanente entre Lula e qualquer episódio envolvendo seu filho, mesmo quando ele não ocupa cargo público, não é candidato a nada e não pode ser responsabilizado automaticamente por suspeitas que eventualmente atinjam seu entorno.

Enquanto isso, perguntas objetivas continuam sem respostas satisfatórias.

Por que determinadas promessas feitas por Flávio Bolsonaro deixaram de ser cobradas com a mesma intensidade? Por que documentos anunciados publicamente não recebem a mesma pressão jornalística? Por que fatos envolvendo personagens do clã Bolsonaro são tratados com cautela seletiva, enquanto suspeitas contra adversários são transformadas em manchetes garrafais?

Isso não é jornalismo de investigação. É, no mínimo, uma mudança de prioridade editorial que precisa ser explicada.

A imprensa tem todo o direito — e o dever — de investigar Lulinha. Mas tem exatamente o mesmo dever de investigar Flávio Bolsonaro. Um não pode ser utilizado como álibi para deixar o outro em segundo plano.

O problema não é a imprensa investigar. O problema é investigar uns com lupa e outros com luvas.

Durante anos, o jornalismo brasileiro ensinou ao público que o poder precisava ser fiscalizado. E estava certo. Mas fiscalização só merece esse nome quando vale para todos. Quando a régua muda conforme o sobrenome, o partido ou a conveniência política, a credibilidade começa a desmoronar.

A pergunta que fica, portanto, é ainda mais incômoda: por que essa súbita mudança de comportamento justamente quando Flávio Bolsonaro enfrenta uma crise política e precisa explicar fatos que o atingem diretamente?

Se a imprensa realmente acredita que Lulinha deve explicações, que investigue, publique documentos, confronte versões e apresente provas. Mas que faça exatamente o mesmo com Flávio Bolsonaro.

O público não é obrigado a aceitar uma operação em que um filho serve de escudo para o outro.

Se antes a mídia dizia que nada deveria ser escondido quando o assunto era o clã Bolsonaro, agora ela precisa explicar por que parece tão empenhada em esconder o debate sobre o próprio clã atrás de manchetes contra Lulinha.

Afinal, jornalismo não pode ser escolhido conforme o personagem que convém proteger.

A pergunta não é apenas o que mudou. É quem ganhou com a mudança — e por que parte da imprensa parece disposta a pagar o preço de sua própria credibilidade para fazê-lo.


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