Presidente brasileiro rebateu a lógica da força, defendeu autodeterminação do povo venezuelano e argumentou que os desafios só se resolvem com união, e não com imposição
Os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura de seu presidente em 3 de janeiro são mais um capítulo lamentável na erosão contínua do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. A avaliação é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado no New York Times (NYT) neste domingo (18/01).
Segundo o líder brasileiro, chefes de Estado ou de governo – de qualquer país – podem ser responsabilizados por ações que prejudiquem a democracia e os direitos fundamentais. “Nenhum líder tem o monopólio do sofrimento de seu povo. Mas não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”, afirmou. Ele acrescentou que as ações unilaterais ameaçam a estabilidade em todo o mundo, perturbam o comércio e os investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais.
Lula declarou ser particularmente preocupante que tais práticas estejam sendo aplicadas à América Latina e ao Caribe, uma vez que trazem violência e instabilidade para uma parte do mundo que luta pela paz por meio da igualdade soberana das nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos.
“Em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora forças americanas já tenham intervindo na região anteriormente”, pontuou ao NYT.
A América Latina e o Caribe abrigam mais de 660 milhões de pessoas. “Temos interesses e sonhos próprios a defender”, afirmou o presidente. Para Lula, em um mundo multipolar, nenhum país deve ter suas relações exteriores questionadas por buscar a universalidade. “Não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos alheios. Construir uma região próspera, pacífica e pluralista é a única doutrina que nos convém”, declarou.
Lula afirmou que os países devem lutar por uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas em favor de resultados pragmáticos. “Queremos atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio dentro da região e com nações fora dela”, acrescentou. A cooperação é fundamental para mobilizar os recursos que a América Latina precisa para combater a fome, a pobreza, o tráfico de drogas e as mudanças climáticas.
“A história mostrou que o uso da força nunca nos aproximará desses objetivos. A divisão do mundo em zonas de influência e incursões neocoloniais por recursos estratégicos são ultrapassadas e prejudiciais”, disse ao NYT.
Ele enfatizou que é crucial que os líderes das grandes potências entendam que um mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que essas potências sejam, elas não podem contar apenas com o medo e a coerção.
“O futuro da Venezuela, e de qualquer outro país, deve permanecer nas mãos de seu povo”, afirmou. Lula lembrou que somente um processo político inclusivo, liderado pelos venezuelanos, levará a um futuro democrático e sustentável. “Esta é uma condição essencial para que os milhões de cidadãos venezuelanos, muitos dos quais estão temporariamente abrigados no Brasil, possam retornar com segurança ao seu país”, acrescentou.
Lula reiterou que o Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelano para proteger os mais de 2.000 quilômetros de fronteira que compartilham e para aprofundar a cooperação.
“É nesse espírito que meu governo se engajou em um diálogo construtivo com os Estados Unidos. Somos as duas democracias mais populosas do continente americano. Nós, no Brasil, estamos convencidos de que unir nossos esforços em torno de planos concretos para investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir. Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, concluiu ao New York Times – um hemisfério que, como ele mesmo afirma, ‘pertence a todos nós’, e não a uma única potência.
*Opera Mundi
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Avisos começaram nesta sexta-feira e terão duração de 60 dias
A FAA (Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos) informou nesta sexta-feira (16) que está emitindo uma série de alertas às companhias aéreas para que tenham cuidado ao sobrevoar a América Central e partes da América do Sul, citando os riscos de possíveis atividades militares e interferência de GPS.
A agência informou que emitiu avisos aos aviadores abrangendo o México, outros países da América Central até Equador, a Colômbia e partes do espaço aéreo no leste do Oceano Pacífico.
Os avisos começaram nesta sexta-feira e terão duração de 60 dias.
EUAOs alertas ocorrem em meio ao aumento das tensões entre os Estados Unidos e os líderes regionais, depois que o governo Trump montou uma força militar em grande escala no sul do Caribe e atacou a Venezuela e prendeu Nicolás Maduro.
Trump levantou a possibilidade de outras ações militares na região, inclusive contra a Colômbia.
Na semana passada, ele disse que cartéis estavam comandando o México e sugeriu que os EUA poderiam atacar alvos terrestres para combatê-los, em uma das várias ameaças de usar as forças americanas contra os cartéis de drogas.
Após o ataque à Venezuela, a FAA restringiu os voos em todo o Caribe, o que forçou o cancelamento de centenas de voos das principais companhias aéreas.
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Em lista com mais de 20 nomes de pessoas e entidades punidas, se destacam comandantes policiais e da Guarda Revolucionária iraniana
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos divulgou nesta quinta-feira (15/01) uma lista de autoridades do Irã que passam a estar sancionadas em função de sua participação na reação repressiva aos protestos registrados no país este ano.
A medida bloqueia todos os bens e ativos dos cerca de 23 sancionados sob jurisdição norte-americana e proíbe transações deles com cidadãos e residentes dos Estados Unidos.
Em comunicado, o governo norte-americano classificou as autoridades listadas como “arquitetos da brutal repressão do regime iraniano contra manifestantes pacíficos”.
Washington também disse que a medida visa desarticular “redes bancárias paralelas que permitem à elite iraniana roubar e lavar a receita gerada pelos recursos naturais do país”.
Entre os oficiais de segurança que sofreram a punição de Washington está Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (CSSN), órgão de aconselhamento da principal autoridade do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Segundo a nota do governo norte-americano, “Larijani foi um dos primeiros líderes iranianos a incitar a violência em resposta às demandas legítimas do povo”.
Outros nomes destacados da lista são os de Mohammad Reza Hashemifar e Azizollah Maleki, comandantes das forças policiais da República Islâmica nas províncias do Lorestão e de Fars, além de Nematollah Bagheri e Yadollah Buali, comandantes da Guarda Revolucionária nas respectivas regiões, nas quais os Estados Unidos consideram que “foram cometidas múltiplas atrocidades contra civis”.
Além deles, foram punidas outras 18 pessoas e entidades que “desempenham papéis cruciais na lavagem de dinheiro proveniente da venda de petróleo e produtos petroquímicos iranianos para mercados estrangeiros”.
*Opera Mundi
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Evangelical faithfuls hold images of deposed Venezuelan president Nicolas Maduro and his wife Cilia Flores during a rally in their support at Plaza Bolivar in Caracas on January 11, 2026. (Photo by Federico PARRA / AFP)
Coordenador da Alba Movimentos, Giovane del Prete, fala dos atos que vão acontecer por toda a América Latina
Movimentos populares, centrais sindicais, partidos políticos e outras organizações realizarão, no próximo dia 28 de janeiro, uma grande mobilização internacional contra o avanço das aspirações imperialistas do governo de Donald Trump. Os atos acontecerão nas ruas por toda a América Latina nos diversos territórios onde atuam essas organizações, e também nas redes sociais.
Veículos populares divulgarão detalhes da programação à medida que cada evento for agendado nas diferentes partes do país e nos territórios das nações vizinhas. O coordenador operativo da secretaria continental da Alba Movimentos, Giovane del Prete, participou nesta terça-feira 13 do Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, para dar o pontapé inicial na convocação.
Del Prete relatou que o momento é de preocupação, especialmente com a situação da Venezuela, após o sequestro de Nicolás Maduro pelo regime trumpista. Entretanto, o ataque e as ameaças a outros países servem também para mobilizar a militância.
“Isso levanta o povo com o espírito nacionalista e de consciência. A gente está aproveitando isso, também, com nossa militância. E também extrapolar a militância organizada para chamar para o dia 28 de janeiro, que marca 12 anos da proclamação de América Latina e Caribe como zona de paz pela Celac [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos]”, apontou.
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump deixou clara sua política externa baseada em agressões. Desde o início do mandato, vários países foram alvo ao mesmo tempo da fúria do presidente dos EUA: seja com tarifas, sanções ou guerras. E, nas regiões onde a extrema direita governa, cresceu a presença militar dos Estados Unidos.
“Todos os países, de alguma maneira, tem um porquê de se mobilizar contra o Trump nessa conjuntura. Então buscamos fortalecer o movimento de solidariedade internacional. Agora estamos falando da Venezuela, mas amanhã pode ser Cuba, Colômbia, México ou mesmo o Brasil. Fortalecer esse movimento anti-imperialista no Brasil é fortalecer nossa disputa nas eleições deste ano”, destacou del Prete.
Os movimentos contam com a mídia popular e também com a mobilização dos movimentos e da militância para dar visibilidade às ações de combate aos ataques trumpistas.
“Claro que a gente não tem essas agências de notícias internacionais conosco. A gente não espera e nem quer. Mas a gente vem buscando nossos próprios espaços de articulação para, sobretudo visibilizar nossas lutas. Isso é importante, alimenta a militância, completou.
*BdF
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Trump disse que Cuba deixaria de receber petróleo venezuelano como compensação por serviços de segurança
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, afirmou neste domingo que seu país está sob ataque dos Estados Unidos há 66 anos e está pronto para se defender até a última gota de sangue.
Mais cedo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que Cuba deixaria de receber petróleo venezuelano como compensação por serviços de segurança.
“Cuba não está atacando, está sob ataque dos EUA há 66 anos. Não representa ameaça alguma. Está se preparando para defender a pátria até a última gota de sangue”, escreveu o líder cubano na rede social X.
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Handout picture released by the press office of the Colombian Presidency of Colombian President Gustavo Petro during the II Peoples of the Western Caribbean Summit in San Andres, Colombia, on December 11, 2025. Colombia has not ruled out granting asylum to Venezuelan President Nicolas Maduro if he agrees to step down amid pressure from the United States, the Colombian Foreign Minister said on Thursday. (Photo by Handout / COLOMBIA'S PRESIDENCY PRESS OFFICE / AFP) / RESTRICTED TO EDITORIAL USE-MANDATORY CREDIT AFP PHOTO / COLOMBIAN PRESIDENCY-NO MARKETING NO ADVERTISING CAMPAIGNS-DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS
Presidente colombiano voltou a propor integração nos moldes de Simón Bolívar, em momento de agressões de Trump na região
O presidente colombiano, Gustavo Petro, voltou a propor a união de vários países latino-americanos para a formação da Grã-Colômbia, revivendo a ideia de Simón Bolívar. Em sua conta no X, nesse sábado (10), Petro publicou um mapa com a indicação da região e escreveu: “Proponho, por voto constituinte da população, a construção de uma confederação de nações autônomas”.
O bloco incluiria países como Venezuela, Equador, Panamá, além de partes do Peru, da Costa Rica e da Guiana. “Teríamos políticas comuns sobre assuntos propostos pelo povo. Sem dúvida, isso incluiria uma política comercial focada na industrialização e no cumprimento de nosso papel geográfico como centro do mundo e da América Latina”, disse o mandatário colombiano.
A confederação, na proposta de Petro, teria um parlamento da Grã-Colômbia, um tribunal de Justiça e um conselho governante, semelhantes aos da União Europeia ou dos Estados Unidos. “Teríamos também potencial para o turismo e a conectividade global”, acrescentou.
Diálogo com EUA O presidente colombiano confirmou que irá a Washington para se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista à CBS News, no sábado (10), Petro disse que o motivo da viagem aos Estados Unidos era “para impedir uma guerra mundial”.
Ele disse ainda que concorda com a política antidrogas de Trump desde que seja baseada no respeito à soberania nacional. A declaração foi feita em postagem nas redes sociais e divulgada pela imprensa colombiana.
“Estou de acordo com ela, com base no respeito à soberania nacional”, disse Petro, destacando que é preciso “duplicar ou triplicar” a luta contra as organizações de narcotráfico, atingindo líderes, finanças e promovendo a apreensão maciça de mercadorias ilícitas.
A visita, segundo informou Trump na sexta-feira (9), deve ocorrer na primeira semana de fevereiro. “Tenho certeza de que [a visita] será muito boa para a Colômbia e para os Estados Unidos, mas a cocaína e outras drogas devem ser impedidas de entrar nos Estados Unidos”, escreveu o presidente estadunidense na plataforma Truth Social.
Aparando as arestas Em meio à escalada retórica de Washington contra Bogotá, Gustavo Petro e Donald Trump mantiveram uma conversa por cerca de uma hora por telefone na quarta-feira (7).
O tensionamento entre os dois países não é uma novidade, mas escalou desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos e os bombardeios realizados em Caracas, no sábado (3), quando Petro saiu em defesa da Venezuela.
No dia seguinte ao ataque, Trump disse que não descartava realizar uma ação nos mesmo moldes contra a Colômbia. “Me soa bem”, afirmou, ao ser perguntado por jornalistas sobre a possibilidade. Na ocasião, ele também atacou diretamente o presidente Petro. “A Colômbia também está muito doente, governada por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.”
*BdF
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Reportagem especial aponta três eixos de intervenção que atravessam do século 19 ao governo do presidente Donald Trump
A América Latina volta a viver, no início de 2026, um episódio que remete às advertências mais antigas de sua história política. “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a atormentar a América Latina com miséria em nome da liberdade”, escreveu Simón Bolívar em uma carta de 1829. Quase dois séculos depois, o temor descrito pelo líder venezuelano reaparece com força diante da notícia de que militares dos EUA realizaram um ataque contra a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, transportando-os para território americano, onde ambos passaram por um primeiro julgamento.
A avaliação é apresentada em reportagem especial do Global Times, que trata o caso como mais do que um evento isolado: seria a continuação lógica de uma doutrina de poder inaugurada em 1823 e reatualizada em versões contemporâneas. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, o episódio se insere numa tradição marcada por três grandes vetores — hegemonia geopolítica, pilhagem econômica e infiltração ideológica — que sustentariam, há 200 anos, a lógica do chamado “quintal” latino-americano.
A reportagem integra a segunda parte de uma série em que o Global Times afirma “decodificar” a Doutrina Monroe e expor “esquemas intervencionistas” dos EUA em múltiplos campos. O texto cita uma sucessão de episódios “sangrentos” para ilustrar o que descreve como o funcionamento dos três eixos de interferência na região, da ocupação militar direta ao uso de sanções e mecanismos de influência política.
Eixo 1: hegemonia geopolítica e militarização O Global Times afirma que o sequestro do presidente venezuelano gerou críticas severas em uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, inclusive por países parceiros de Washington. Dentro dos EUA, segundo a reportagem, haveria mobilização de protestos contra a ação, citando o relato da revista Newsweek de que “protestos anti-guerra estão planejados em mais de 100 cidades”.
Na leitura dos especialistas citados, o episódio seria apenas o capítulo mais recente de uma política de imposição geoestratégica sustentada por declarações de segurança, presença militar permanente e estruturas institucionais exclusivas que bloqueiam alternativas regionais. A reportagem lembra que a Doutrina Monroe — sintetizada na frase “América para os americanos” — foi anunciada pelo então presidente James Monroe, em 1823, como justificativa teórica para interferir no continente.
O texto aponta que essa lógica teria ganhado nova formulação no documento de segurança nacional do governo do presidente Donald Trump, publicado em 2025. Segundo o Global Times, a estratégia teria designado explicitamente a América Latina como esfera de influência de Washington, posição tratada por veículos e think tanks como “Doutrina Monroe 2.0”, e descrita como uma ameaça “crua” e “sem desculpas” à soberania regional.
A sustentação material desse eixo, de acordo com a reportagem, é a presença militar. O texto cita a agência Xinhua para afirmar que os EUA mantêm cerca de 76 bases militares distribuídas pela América Latina. Essa infraestrutura, argumenta a matéria, cria as condições para intervenções diretas, muitas vezes apoiadas em pretextos.
Como exemplo, o Global Times menciona a invasão do Panamá em dezembro de 1989, quando Washington lançou a “Operação Justa Causa”, supostamente como iniciativa antidrogas, com o envio de cerca de 27 mil soldados, segundo registros históricos do Exército dos EUA. A reportagem afirma que a mesma justificativa de “combate ao narcotráfico” teria sido usada, ao menos formalmente, para o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Maduro.
O professor Evandro Menezes de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, é citado como voz crítica a essa mudança de paradigma. “O ataque à Venezuela em 3 de janeiro não deixa dúvidas: os EUA não se comportam mais como a democracia pacífica que afirmam ser”, disse ele, conforme entrevista anterior mencionada pelo Global Times. Carvalho acrescenta: “Hoje, a hegemonia americana é sustentada não pelas instituições multilaterais que antes defendia, mas pela projeção de força bruta.”
Eixo 2: pilhagem econômica e controle de recursos Ao abordar a dimensão econômica, a reportagem resgata um diagnóstico clássico do escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de As veias abertas da América Latina. “O subdesenvolvimento da América Latina deriva do desenvolvimento de outros e continua a alimentá-lo”, escreveu Galeano. Para o Global Times, a frase segue atual porque a região permanece presa a um modelo que favorece a extração de recursos, o controle de cadeias produtivas e o domínio de infraestrutura estratégica.
A matéria também menciona o papel histórico de grandes empresas na estrutura econômica regional. Como exemplo, cita estudos do History Labs da Universidade de Maryland para afirmar que, na década de 1930, a United Fruit Company teria controlado 42% das terras na Guatemala, além de deter isenções fiscais e dominar não apenas a produção de bananas, mas também sistemas de telefonia e telégrafo.
No campo comercial, a reportagem aponta que acordos de livre comércio foram desenhados para favorecer empresas americanas e produzir ganhos assimétricos. E acrescenta um instrumento recorrente: sanções econômicas contra governos que resistem à agenda de Washington. O Global Times cita dados do Tricontinental Institute for Social Research segundo os quais, em sete anos, as sanções dos EUA teriam devastado a indústria de petróleo da Venezuela, levando o país a perder receitas equivalentes a 231% do PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024.
O pesquisador Sun Yanfeng, dos Institutos Chineses de Relações Internacionais Contemporâneas, resume o efeito desse mecanismo segundo a reportagem: ao criar estruturas econômicas distorcidas, enfraquecer a capacidade industrial e impor acordos desiguais ou sanções, os EUA conseguiriam controlar o padrão industrial e a estrutura comercial da região.
Eixo 3: infiltração ideológica e engenharia política A terceira dimensão apontada pela reportagem é a infiltração ideológica, descrita como instrumento “flexível” para garantir a esfera de influência americana. O Global Times afirma que o documento de segurança nacional do governo Trump reafirma a estratégia do “America First”, apresentada como continuidade da visão da América Latina como “quintal”.
Segundo o texto, por décadas Washington usou slogans como “promoção da democracia” e “proteção dos direitos humanos” para interferir em processos políticos latino-americanos, financiando organizações e forças alinhadas, influenciando tendências sociais e atuando em disputas eleitorais por meio de apoio financeiro, manipulação de opinião pública e engenharia institucional.
A reportagem menciona a National Endowment for Democracy (NED) como exemplo de organização acusada de financiar grupos de oposição e entidades da “sociedade civil” em países como Venezuela e Cuba. O texto cita o jornalista Stephen Kinzer, ex-repórter do The New York Times, que teria publicado em 2021 artigos no site da New York Review of Books apontando que a NED colabora com a CIA e a USAID para apoiar forças insurgentes e promover mudanças de regime em governos que Washington rejeita. A matéria ressalta que, segundo esses artigos, membros iniciais do conselho da NED incluíam defensores de intervenções e ex-senadores entusiastas de mudanças de regime em Cuba e Nicarágua.
A reportagem também menciona a Bolívia, afirmando que os EUA teriam instigado uma “revolução colorida” por meio da NED e outras organizações, levando o então presidente Evo Morales a renunciar e se exilar. O Global Times diz que, entre 2013 e 2018, NED e USAID teriam canalizado, por diferentes meios, US$ 70 milhões para a oposição boliviana, citando um documento do Ministério das Relações Exteriores da China divulgado em 2022.
Um padrão que atravessa séculos e aprofunda instabilidade Para o Global Times, a soma dos três eixos — hegemonia geopolítica, pilhagem econômica e infiltração ideológica — não cria desenvolvimento nem estabilidade, mas intensifica conflitos internos, fragiliza instituições e produz ciclos de instabilidade. A reportagem atribui à professora Xu Yanran, da Universidade Renmin da China, a interpretação de que a intervenção americana é “autointeressada” e não mutuamente benéfica, e que as tragédias acumuladas explicam por que o envolvimento dos EUA “só piora as coisas”.
Ao final, o texto afirma que cresce na região um movimento de afirmação soberana. Segundo Xu, aumentam as vozes pela unidade regional, pelo fortalecimento interno e pela oposição à interferência externa. A especialista sustenta que mais países percebem que a dependência de potências externas não gera prosperidade, e que o caminho mais seguro seria aprofundar integração, cooperação e autonomia, como resposta a dois séculos de pressões.
Com o sequestro do presidente venezuelano e a escalada militar descrita pela reportagem, a América Latina entra em 2026 com um lembrete brutal de que a frase de Bolívar, escrita em 1829, continua assombrando o continente — e, na leitura do Global Times, ajuda a explicar por que a Doutrina Monroe permanece como uma das engrenagens centrais de conflito, disputa e resistência na região.
O texto sustenta que essa pilhagem aparece, sobretudo, na disputa por energia e recursos naturais, e menciona o que chama de “imperialismo alimentar”. A reportagem cita entrevista do economista americano Michael Hudson ao site The Grayzone, na qual ele afirma que os EUA, ao influenciar o Banco Mundial, teriam direcionado empréstimos para estimular culturas de exportação voltadas ao mercado americano, em vez de apoiar a soberania alimentar de países como Chile e Venezuela. Hudson diz que, com isso, “os países se tornaram cada vez mais dependentes dos EUA para alimentos”.
Outro ponto central é o controle de infraestrutura de transporte, com destaque para o Canal do Panamá. O Global Times menciona que, em 1903, tropas americanas desembarcaram no país e estimularam a separação do Panamá da Colômbia. Quinze dias depois da independência panamenha, segundo o texto, Washington teria imposto um tratado desigual — o Hay–Bunau-Varilla — que concedeu aos EUA o direito de construir o canal e controlá-lo permanentemente. A reportagem lembra que um novo acordo, assinado em 1977, determinou a devolução do canal em 31 de dezembro de 1999, mas afirma que, no início de 2025, o governo Trump teria voltado a ameaçar retomar o controle do canal, citando a CNN: “ou algo muito poderoso acontecerá”. 247.
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Governo tentará construir agenda positiva com Trump e estabilizar Venezuela para neutralizar atores mais radicais
2026 começa com duas prioridades para o Brasil. A primeira é agir para estabilizar a Venezuela, diante do risco de uma guerra civil nas fronteiras do país.
A segunda é construir uma “agenda positiva” com a Casa Branca. A meta é impedir uma ofensiva da extrema direita do país para retomar uma aliança com Donald Trump para interferir nas eleições de 2026.
No governo, há um consenso de que a extrema direita dos EUA irá “jogar pesado” para tentar impedir a reeleição de Lula em 2026 e que os ataques contra a economia nacional nos últimos meses mostraram o que são capazes de fazer.
A proposta de um cronograma de temas comerciais é uma das apostas do Ministério do Desenvolvimento e do Itamaraty, dando uma sinalização para Washington que uma relação “madura” traria mais ganhos para os EUA que a ingerência no pleito no final do ano no país.
O governo acredita que o bolsonarismo irá buscar formas de envolver Trump na eleição. Mas ainda que o presidente americano não se manifeste e não apoie abertamente um candidato, não se descarta que entidades ultraconservadoras atuem nos bastidores para ajudar movimentos reacionários do Brasil.
Já membros do alto escalão do PT admitem que a invasão da Venezuela é um divisor de águas na região e há uma consciência de que o bolsonarismo vai tentar usar a crise para colar a imagem em Lula de que haveria uma cumplicidade do governo brasileiro com as violações cometidos pelo chavismo.
As dificuldades dos aliados de Jair Bolsonaro, porém, podem ser importantes. O regime bolivariano continua, Maria Corina Machado está fora de jogo por enquanto e o Planalto insiste que não chancelou Maduro em suas violações.
Entre diplomatas brasileiros e americanos, a esperança é de que Lula e Trump possam se encontrar em 2026, principalmente diante da boa relação que os dois tiveram nas conversas nos últimos meses.
Para o governo, isso pode ser uma “vacina” contra eventuais vozes mais radicais dentro do próprio governo Trump e que possam ainda dar ouvidos aos bolsonaristas. A neutralização desses atores seria fundamental na estratégia do Planalto.
A postura do Brasil, porém, não será a de abrir mão de suas críticas sobre a ação de Trump na Venezuela, como já ficou demonstrado em discursos na ONU e na OEA. Mas isso não será usado para contaminar a relação mais ampla entre Brasília e Washington.
O Planalto ainda vai continuar a insistir para que não haja um segundo ataque contra a Venezuela e considera que a diplomacia americana sabe a postura contraria do Brasil à ingerência.
Em diálogos dentro da Venezuela e nos países que fazem parte da região, Lula ainda vai agir para garantir que possa haver um espaço para que a queda de Nicolas Maduro não se transforme em um vácuo de poder. Com 20 milhões de habitantes na Venezuela numa fronteira de 2 mil quilômetros com o Brasil, a estabilização do país passou a ser um foco da atuação do Itamaraty.
*Jamil Chade/Uol
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O Senado dos Estados Unidos (EUA) aprovou, nesta quinta-feira (8), uma resolução que determina a interrupção do uso da força contra a Venezuela sem autorização expressa do Congresso Nacional.
“Esta resolução conjunta orienta o Presidente a cessar o uso das Forças Armadas dos EUA em hostilidades dentro ou contra a Venezuela, a menos que uma declaração de guerra ou autorização para o uso da força militar para tal fim tenha sido promulgada”, diz o documento aprovado.
Apresentada pelo senador democrata Tim Kaine, a resolução foi aprovada por 52 votos contra 47, tendo recebido o apoio de cinco senadores republicanos, do partido do presidente Donald Trump. Já um senador republicano não votou.
O texto, porém, precisa ser novamente aprovado pelos senadores e deve passar ainda pela Câmara dos Representantes dos EUA, com maioria de republicanos. A resolução ainda precisaria vencer um provável veto do presidente Donald Trump para entrar em vigor.
Ao justificar a resolução, o senador democrata Kaine disse que apoia o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mas defendeu que novas ações tenham autorização legislativa.
“As declarações do presidente de que os EUA governarão a Venezuela por anos deixam claro: seus planos vão muito além de Maduro. Isso significa que o Congresso precisa se manifestar”, destacou Kaine antes da votação.
A oposição argumenta que a invasão da Venezuela foi ilegal uma vez que a Constituição dos EUA exige aprovação do Parlamento para declaração de guerras.
A senadora republicana Susan Collins disse que, apesar de apoiar a captura de Maduro, ela deseja afirmar o poder do Parlamento de autorizar ou limitar qualquer futura atividade militar na Venezuela.
“Não apoio o envio de mais forças americanas ou qualquer envolvimento militar de longo prazo na Venezuela ou na Groenlândia sem autorização específica do Congresso. A resolução que apoiei hoje não inclui nenhuma menção à operação de retirada. Em vez disso, reafirma a capacidade do Congresso de autorizar ou limitar qualquer atividade militar prolongada futura na Venezuela”, disse a parlamentar em comunicado oficial.
Ao ser questionado sobre o tema após a invasão da Venezuela, o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, havia argumentando que a invasão não seria uma guerra, mas apenas a prisão de duas pessoas. Na ação, Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados por militares estadunidenses.
Trump reage Ao comentar em uma rede social, aprovação da resolução, o presidente dos EUA disse que os republicanos deveriam se envergonhar dos senadores que votaram com os democratas para privar o poder de “lutar e defender os EUA”. Trump disse que esses parlamentares “jamais deveriam ser eleitos novamente”.
“Essa votação prejudica gravemente a autodefesa e a segurança nacional americanas, impedindo a autoridade do presidente como comandante-em-chefe. De qualquer forma, e apesar da ‘estupidez’ deles, a Lei dos Poderes de Guerra é inconstitucional, violando totalmente o Artigo II da Constituição, como todos os presidentes e seus respectivos Departamentos de Justiça já determinaram antes de mim”, disse.
*ICL
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Controle da navegação comercial do oceano é do interesse de Washington
Controlar todas as rotas marítimas para dificultar o comércio da China está por trás da intenção dos Estados Unidos (EUA) de invadir e anexar a Groenlândia, segundo avaliam especialistas em relações internacionais e geopolítica consultados pela Agência Brasil.
O Oceano Ártico liga Ásia, Europa e América do Norte e, com as mudanças climáticas, espera-se que o derretimento das calotas polares reduza o preço de frete nessa região nas próximas décadas.
Em documento publicado em 2018, a China se classificou como um país “quase-ártico” e tem atuado em cooperação com a Rússia para aumentar sua presença no menor dos oceanos do planeta.
O major-general português Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança e geopolítica, explicou que os EUA já controlam praticamente todas as rotas comerciais e oceanos, mas que têm uma presença reduzida no Ártico.
“[A anexação da Groenlândia] é uma política de controle de rotas marítimas com o objetivo de bloquear a China. Os EUA controlam o Pacífico e o Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual”, explica o militar, ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal.
Brasília (DF), 26/06/2025 – major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica e ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal. Foto: Pekka Kallioniemi/X Major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica e ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal – Foto: Pekka Kallioniemi/X Observações de satélite da Nasa (agência espacial dos EUA) apontam que o gelo marinho está caindo 13% por década e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), avalia que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070.
“Com o aquecimento global, a rota do Ártico diminui o tempo de navegação entre a China e a Europa”, lembra o general português Agostinho Costa, acrescentando que 80% do comércio global se faz pelos mares.
O cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia, destacou que o derretimento das calotas polares na Rota do Norte deve baratear o frete marítimo entre os continentes em mais de um terço.
“A Rússia tem mais que o dobro de bases da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] no Ártico e a China recentemente emitiu um documento se considerando um país do entorno do Ártico, provavelmente em colaboração com os russos. O Trump precisa do Canadá e da Groenlândia para dissuasão, bases, mísseis e etc”, comentou.
Brasília (DF), 17/06/2025 – O cientista político com estudos sobre Ásia e o mundo islâmico, Ali Ramos. Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal Cientista político com estudos sobre Ásia e o mundo islâmico Ali Ramos – Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal Em documento publicado ainda durante o governo do americano Joe Biden, em 2024, o Departamento de Defesa dos EUA expressou a importância do Oceano Ártico para frear os concorrentes de Washington no cenário global.
“Grandes mudanças geopolíticas estão impulsionando a necessidade desta nova abordagem estratégica para o Ártico, incluindo a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança da Otan, a crescente colaboração entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia e os impactos acelerados das mudanças climáticas”, diz o documento.
A Rússia tem 54% do litoral do Ártico e essa posição privilegiada dá à Moscou condições favoráveis para definir as rotas marítimas.
“Se a Rota Marítima do Norte se tornar um elo vital no transporte marítimo global, o controle quase total da Rússia sobre a rota lhe daria uma alavanca econômica e diplomática para expandir sua influência regional”, avalia Lee Mottola, especialista em Conflito, Segurança e Desenvolvimento em artigo publicado no Instituto do Ártico.
O analista afirma ainda que a China deseja usar o Ártico para driblar o controle que os EUA impõem em pontos de estrangulamento geopolítico da navegação global, como os estreitos de Malaca e o de Gibraltar.
“A continuidade da cooperação sino-russa em fatores econômicos e estratégicos é uma razão importante para que a Otan redobre seus esforços e atenção no Norte”, acrescenta Mottola.
Ameaça Com apenas 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo do Reino da Dinamarca. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem
ameaçado invadir e anexar a região, medida que é criticada pelos próprios aliados europeus.
“Precisamos da Groenlândia para nossa segurança nacional. Se você olhar para Groenlândia, olhar para cima e para baixo da costa, tem navios russos e chineses por todas as partes”, alertou o chefe da Casa Branca um dia após bombardear e invadir a Venezuela.
O major-general português Agostinho Costa destaca que o governo Trump tem adotado medidas semelhantes à de séculos passados.
“A primeira coisa que Trump fez quando assumiu o poder foi falar que queria o Canal do Panamá, que queria o Canadá como 51º estado dos EUA e que quer a Groenlândia. É uma estratégia que nos faz voltar ao século 15 ou 16, da pirataria, do controle dos mares”, concluiu.
Controlar todas as rotas marítimas para dificultar o comércio da China está por trás da intenção dos Estados Unidos (EUA) de invadir e anexar a Groenlândia, segundo avaliam especialistas em relações internacionais e geopolítica consultados pela Agência Brasil.
O Oceano Ártico liga Ásia, Europa e América do Norte e, com as mudanças climáticas, espera-se que o derretimento das calotas polares reduza o preço de frete nessa região nas próximas décadas.
Em documento publicado em 2018, a China se classificou como um país “quase-ártico” e tem atuado em cooperação com a Rússia para aumentar sua presença no menor dos oceanos do planeta.
O major-general português Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança e geopolítica, explicou que os EUA já controlam praticamente todas as rotas comerciais e oceanos, mas que têm uma presença reduzida no Ártico.
“[A anexação da Groenlândia] é uma política de controle de rotas marítimas com o objetivo de bloquear a China. Os EUA controlam o Pacífico e o Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual”, explica o militar, ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal.
Major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica e ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal – Foto: Pekka Kallioniemi/X
Observações de satélite da Nasa (agência espacial dos EUA) apontam que o gelo marinho está caindo 13% por década e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), avalia que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070.
“Com o aquecimento global, a rota do Ártico diminui o tempo de navegação entre a China e a Europa”, lembra o general português Agostinho Costa, acrescentando que 80% do comércio global se faz pelos mares.
O cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia, destacou que o derretimento das calotas polares na Rota do Norte deve baratear o frete marítimo entre os continentes em mais de um terço.
“A Rússia tem mais que o dobro de bases da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] no Ártico e a China recentemente emitiu um documento se considerando um país do entorno do Ártico, provavelmente em colaboração com os russos. O Trump precisa do Canadá e da Groenlândia para dissuasão, bases, mísseis e etc”, comentou.
Cientista político com estudos sobre Ásia e o mundo islâmico Ali Ramos – Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal
“Grandes mudanças geopolíticas estão impulsionando a necessidade desta nova abordagem estratégica para o Ártico, incluindo a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança da Otan, a crescente colaboração entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia e os impactos acelerados das mudanças climáticas”, diz o documento.
A Rússia tem 54% do litoral do Ártico e essa posição privilegiada dá à Moscou condições favoráveis para definir as rotas marítimas.
“Se a Rota Marítima do Norte se tornar um elo vital no transporte marítimo global, o controle quase total da Rússia sobre a rota lhe daria uma alavanca econômica e diplomática para expandir sua influência regional”, avalia Lee Mottola, especialista em Conflito, Segurança e Desenvolvimento em artigo publicado no Instituto do Ártico.
O analista afirma ainda que a China deseja usar o Ártico para driblar o controle que os EUA impõem em pontos de estrangulamento geopolítico da navegação global, como os estreitos de Malaca e o de Gibraltar.
“A continuidade da cooperação sino-russa em fatores econômicos e estratégicos é uma razão importante para que a Otan redobre seus esforços e atenção no Norte”, acrescenta Mottola.
Ameaça
Com apenas 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo do Reino da Dinamarca. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem ameaçado invadir e anexar a região, medida que é criticada pelos próprios aliados europeus.
“Precisamos da Groenlândia para nossa segurança nacional. Se você olhar para Groenlândia, olhar para cima e para baixo da costa, tem navios russos e chineses por todas as partes”, alertou o chefe da Casa Branca um dia após bombardear e invadir a Venezuela.
O major-general português Agostinho Costa destaca que o governo Trump tem adotado medidas semelhantes à de séculos passados.
“A primeira coisa que Trump fez quando assumiu o poder foi falar que queria o Canal do Panamá, que queria o Canadá como 51º estado dos EUA e que quer a Groenlândia. É uma estratégia que nos faz voltar ao século 15 ou 16, da pirataria, do controle dos mares”, concluiu.
Mapa Groenlândia e Mar Ártico – Arte/EBC
*Agência Brasil
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