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Medo da intolerância insuflado pela guerra atinge judeus e muçulmanos no Brasil

Sentimento em meio ao conflito Israel-Hamas vira tema de discussão e de preocupação em sinagogas e mesquitas.

Em dias tão divisionistas, um mesmo sentimento uniu mesquitas e sinagogas: medo. A guerra entre Israel e Hamas avivou ondas de intolerância contra judeus e muçulmanos, como se a identidade religiosa automaticamente tornasse alguém cúmplice de crimes cometidos por um irmão de fé.

Uma sinagoga em Berlim foi alvo de coquetéis molotov na quarta (18). O Conselho Central de Judeus na Alemanha reagiu lembrando do “dia de fúria” convocado por Hizbullah e aliados contra a comunidade judaica. Mais do que uma frase solta, seria “um terror psicológico que leva a ataques concretos”.

Algumas casas da cidade já tinham sido pichadas com estrelas de Davi, ação que emula a opressão antissemita durante o nazismo.

Enquanto isso, a foto de Wadea Al-Fayoume com um chapéu purpurinado onde se lê “happy birthday” circulava pelo mundo. Era seu aniversário de 6 anos. Dias depois, o proprietário da casa que a família de origem palestina alugava esfaqueou o menino. No funeral, um tio disse que suas últimas palavras foram: “Mãe, eu estou bem”.

São amostras brutais de uma violência que apavora judeus e muçulmanos, nutrindo a desumanização do outro lado e dando corda para um ciclo de repulsa mútua, segundo a Folha.

O pânico tem contaminado também o Brasil. Na esteira da chacina em Israel, o rabino Rogério Cukierman, da CIP (Congregação Israelita Paulista), falou a uma audiência judaica sobre as cenas inimagináveis “de violência e sadismo” que inviabilizaram o que era para ser “uma das datas mais felizes do ano”, a festividade do Simchat Torá.

A tia nonagenária de um dos sócios da CIP, que lhe pedia para levar uma cachaça do Brasil para que fizesse caipirinhas no kibutz onde vivia, foi uma das vítimas do Hamas. Muitos judeus brasileiros conheciam alguém assassinado no dia 7 e têm amigos morando em Israel. São corriqueiras as conversas de vídeo interrompidas por sirenes do outro lado, alertas para um possível ataque de mísseis.

Abrir o celular é um show de horrores. Grupos de WhatsApp se enxameiam com publicações antissemitas pinçados das redes sociais. Um deles: “É cada judeu existindo que me faz pensar onde foi que Hitler errou”.

O mesmo preconceito, com sinais trocados, incita a islamofobia mundo afora, e muçulmanos no Brasil não são poupados dessa retórica intolerante.

Líderes dizem que judeus ganham muito mais espaço na mídia para denunciar, inclusive, o antissemitismo que sofrem. Isso sem falar em círculos em que a defesa de Israel se confunde com a imagem de um Islã bárbaro. Fenômeno gêmeo ao que se espraiou depois do 11 de setembro de 2001 nos EUA.

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Mãe e filha libertadas pelo Hamas chegam ao Egito: ‘razões humanitárias’, diz grupo extremista

O porta-voz do braço armado do Hamas, as Brigadas al-Qassam, disse nesta sexta-feira que o grupo libertou duas reféns americanas por “razões humanitárias”, após esforços do Catar. A informação foi confirmada pela Cruz Vermelha e por veículos locais, embora Israel e seu principal aliado, os EUA, ainda não tenham se manifestado.

De acordo com o Canal 12, Judith Raanan e sua filha, Natalie Raanan, chegaram ao Egito nesta sexta-feira. Elas foram transferidas para as instalações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha no país e de lá seguirão para Israel, informou o jornal The Times of Israel. O Hamas optou por liberá-las devido ao declínio da saúde da mãe, segundo a CNN.

As duas residem em Evanston, Illinois, nos arredores de Chicago, e foram a Israel este mês para comemorar o aniversário de 85 anos de um parente e o feriado judaico, de acordo com seu rabino que conversou com o Times. Elas têm dupla nacionalidade, de Israel e dos Estados Unidos.

A família Raanan estava participando de uma celebração religiosa em Nahal Oz, um kibutz a cerca de 1,6 km da fronteira com Gaza, quando o ataque do Hamas começou, segundo informações apuradas pelo Times.

Natalie Raanan, de 18 anos, concluiu recentemente o ensino médio e estava ansiosa para tirar uma folga e visitar a família no exterior, disse seu tio, Avi Zamir, em um evento comunitário para os Raanans em Evanston na semana passada.

“Em resposta aos esforços do Catar, as Brigadas al-Qassam libertaram dois cidadãos americanos [uma mãe e sua filha] por razões humanitárias”, declarou Abu Obaida em um comunicado divulgado mais cedo nesta sexta pelo Hamas. “[Objetivo é] provar ao povo americano e ao mundo que as alegações feitas pelo [presidente Joe] Biden e seu governo fascista são falsas e sem fundamento”.

Israel afirma que o Hamas sequestrou 203 pessoas após o ataque terrorista em 7 de outubro. A Human Rights Watch (HRW) e outros grupos de direitos humanos disseram que manter os prisioneiros é um crime de guerra.

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Hamas diz que libertará os estrangeiros reféns em Gaza: “Convidados”

O grupo disse manter entre 200 e 250 sequestrados e alegou ter matado 22 israelenses. Israel havia contabilizado 199 reféns.

O Al Qassam, uma brigada do grupo extremista Hamas, anunciou, nesta segunda-feira (16/10), planos de libertar todos os reféns estrangeiros mantidos na Faixa de Gaza. Abo Obaida é o porta-voz que fez esse pronunciamento pelo Telegram, diz o Metrópoles.

“Libertaremos todos os estrangeiros mantidos em cativeiro em Gaza, porque não tivemos tempo de checar suas identidades na captura. Nós os consideraremos convidados até que a situação permita a libertação”, afirmou. Os cidadãos foram sequestrados a partir dos ataques do Hamas no dia 7 deste mês, quando foi reiniciado o conflito armado do grupo com o país do Oriente Médio.

A mensagem do Al Qassam culpou Israel pela demora em soltar os sequestrados ao dizer não ter conseguido contar quantos israelenses estão reféns, “porque Israel tem bombardeado sem parar” a região.

Apesar disso, o grupo disse manter entre 200 e 250 sequestrados, que não tiveram a nacionalidade checada, e alegou ter matado 22 israelenses. “O último, há dois dias, o artista israelense Guy llouz”, segundo o comunicado. O país do Oriente Médio havia notificado 199 reféns na Faixa de Gaza.

Autoridades de Israel já teriam identificado a maioria dos reféns capturados pelo Hamas, que ameaçou matar um sequestrado a cada contraofensiva. Segundo o contra-almirante Daniel Hagari, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, o grupo levou muitos idosos, crianças e mulheres.

A mensagem do Al Qassam indicou que poderiam ocorrer mais execuções: “Estrangeiros servindo ao Exército de Israel serão tratados como soldados”.

 

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Até tu, Guga Chacra?

Desde do 7, que o Hamas atacou Israel, que revelou uma inacreditável fragilidade da suposta super inteligência da Mossad de Israel, o cuidado dos entusiastas do sionismo no Brasil, ficou evidente.

Mas, desde ontem, o muxoxo se transformou em desânimo, mais que isso, num lamento murcho, típico dos derrotados com a crescente onda de manifestações internacionais, vindas de todos os lados, contra Israel.

Ou seja, a propaganda, que sempre foi a alma dos sionistas, mostra-se mais débil que a tida como intransponível inteligência dos dobermans da Mossad.

Agora, até Guga Chacra, diante dessa percepção de que Israel foi derrotado, do ponto de vista político e militar, político pelo massacre que impõe sobre a população civil de Gaza, e militar pela total falta de resistência da defesa de Israel no momento do ataque do Hamas, como mostra seu artigo de hoje, no Globo:

Israel fracassou quatro vezes em Gaza. Por que agora seria diferente?

Israel já enfrentou o Hamas quatro vezes em confrontos na Faixa de Gaza nos últimos 14 anos. Milhares de civis palestinos morreram, assim como centenas de israelenses. Mas todas essas ofensivas somadas não foram suficientes para enfraquecer o Hamas no longo prazo, já que o grupo está mais forte do que nunca como vimos no atentado terrorista que matou 1.300 israelenses, além de pessoas de outras nacionalidades, incluindo brasileiros. Por que esta quinta guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza seria diferente? Por que não fracassará como nas outras quatro vezes? Essa é uma pergunta que tenho colocado a uma série de interlocutores, seja em entrevistas, seja em conversas informais.

Benjamin Netanyahu não era o primeiro-ministro na época da primeira guerra Israel-Hamas em 2009, mas assumiu um mês depois do cessar-fogo. Ao longo dos 14 anos seguintes, governou Israel por 13. Toda a estratégia para lidar com o Hamas e evitar ataques a partir de Gaza é dele. Como um fracassado diante do atentado terrorista do dia 7 de outubro, impopular e antidemocrático líder teria a capacidade de agora ter planos melhores do que no passado, quando tinha muito mais popularidade e legitimidade, para derrotar o Hamas?

Ninguém conseguiu me responder até agora. Na verdade, desta vez, a ofensiva será ainda mais difícil do que nas outras quatro e em especial as de 2009 e 2014, quando houve incursão terrestre, como deve ocorrer agora. Afinal, há cerca de 200 reféns nas mãos do Hamas. Quatorze anos atrás, havia um. Há nove anos, nenhum. Como entrar por terra sem colocar em risco a vida deles? Outro complicador para Israel será sempre ter de lutar contra o Hamas em meio a civis palestinos inocentes. O número de vítimas se multiplicará, incluindo o de crianças, levando a uma crescente pressão internacional para um cessar-fogo.

Não há tempo ilimitado como os EUA no Afeganistão — e os norte-americanos fracassaram de qualquer maneira ao verem o retorno do Talibã após 20 anos e trilhões de dólares de gastos. Mesmo que tivesse, isso não seria garantia de vitória. Em 1982, Israel ocupou o Sul do Líbano. Possuía aliados locais de uma forte milícia cristã libanesa. Após 18 anos, os israelenses, derrotados juntos com seus aliados cristãos libaneses, se retiraram. Mas os vencedores não foram os palestinos. Foi o grupo xiita libanês Hezbollah, que sequer existia no momento da entrada dos israelenses.

Ainda que Israel consiga derrotar militarmente o Hamas, não terá capacidade de eliminar a ideologia do grupo. Quais os planos para o “depois”, mesmo em caso de vitória? Manter a ocupação de Gaza? Controlar a vida de 2 milhões de palestinos? Enfim, quando Israel enfrentou o Hamas pela primeira vez em Gaza, metade da atual população do território tinha menos de 3 anos ou sequer havia nascido.

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Hamas ataca população civil israelense e sionistas de Israel se vingam no povo palestino

Não adianta vir com a retórica de que o ataque covarde do exército sionista, que massacra a população de Gaza, numa clara limpeza étnica, obrigando uma multidão de mais de 1 milhão de pessoas a se retirarem às pressas de Gaza, sem ter para onde ir, é ataque do exército de Israel a civis da Palestina.

Isso é o maior nonsense da história. Lembrando que, certamente, existem milhares de palestinos mortos sob os escombros pelos bombardeios indiscriminado do exército de Israel em Gaza.

Não dá para listar tanta iniquidade e tanto ódio gratuito contra a população de Gaza, que tem em média, 14 anos de idade, em que Israel abriu a porta do inferno para colocar todos os demônios contra eles.

É muita covardia em paralelo com o cinismo cruel, nojento, de quem, no Youtube, com certeza contratada pela máquina de propaganda israelense, vir com a mesma lenga lenga de sempre para justificar seus crimes de guerra, como acusou a ONU.

Todos sabem que Israel sempre comprou opinião que reproduz o que os cães sionistas impõem.

Na prática, operam com o que existe de mais bárbaro, numa linguagem objetiva dos piores crápulas da história da humanidade. E essa gente ainda tem o desplante, a absoluta falta de vergonha na cara, de dizer que está exterminando a população civil de Gaza para livrá-los do Hamas.

Sinceramente, espero que toda a comunidade internacional, através dos cidadãos de todos os países se levantem contra o genocídio que Israel está promovendo para tomar de vez o resto de território em que os palestinos se espremem, porque, na verdade, é isso que está em jogo.

Israel quer aniquilar totalmente qualquer vestígio do povo palestino, não se importando nem um pouco com a faixa etária.

Essa gente, que comanda a carnificina, é inteiramente psicopata.

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Opinião

Quanto mais os sionistas acusam o Hamas de terrorista, mais as assombrações lhes aparecem

Tenho visto muitos sionistas murchos, ressaqueados, pela humilhante derrota que o Hamas lhes impôs dentro de casa, o que está fazendo a popularidade de Netanyahu, que já era escassa, secar de vez dentro de Israel.

Quem experimentou tamanha hostilidade foi a ministra do Meio Ambiente de Israel, que foi posta para fora de um recinto aos berros de israelenses, acusando o governo de Nethanyahu.

Isso só reflete o que pesquisas já vêm mostrando. Para piorar, a justificativa de que o Hamas é um grupo terrorista, internamente, aumenta a raiva dos israelenses com a displiscência da inteligência de Israel diante dos tais terroristas.

Já fora de Israel, para a comunidade internacional, uma resposta a esse conflito vai ganhando pulsação única, acusando Israel de um histórico de massacra à Palestina, infinitamente maior do que os ditos terroristas do Hamas.

Para entornar ainda mais o caldo contra Israel, os sionistas usam a velha tática de dizer que o Hamas oprime o povo palestino e, por isso, o remédio encontrado pelos gênios do terrorismo israelense, foi o de bombardear a população civil da Palestina, que ele diz ser  subjugada pelo Hamas.

Ou seja, não serão as velhas práticas de manipulação com retóricas nauseabundas que Israel se livrará de um pântano, que está atolado e cada dia se torna mais fundo.

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Vídeo: Hamas divulga libertação de refém israelense capturada com 2 filhos

O grupo palestino Hamas divulgou, na noite desta quarta-feira (11, quinta-feira, 12, em Gaza), um vídeo do que parece ser a libertação de uma mulher israelense que foi capturada e levada para Gaza como refém, junto com dois filhos, na incursão em território israelense do último sábado (7).

A informação foi dada pela rede Al Jazeera, que recebeu um vídeo do grupo, mostrando o que seria o momento da libertação, e confirmou a autenticidade das imagens. O vídeo mostra a mulher caminhando em direção aos filhos e depois indo em direção a militares israelenses (veja ao final da reportagem).

Segundo a emissora, não há informação sobre o momento que a refém foi liberada, e autoridades israelenses ainda não comentaram o caso.

 

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BBC desmente Biden: Casa Branca afirma que presidente não viu fotos de crianças israelenses mortas

Se a Casa Branca afirmou para a BBC que Biden não viu fotos de bebês supostamente decaptados pelo Hamas, e que somente repetiu informações do governo de Israel, fica mais fácil afirmar que Biden comprou a mentira dos sionistas, como se verdade fosse, desmoralizando-se como porta-voz da máquina de propaganda de Israel.

A verdade jantou um Biden fantasiado de indignado por, segundo ele, ter visto fotos decapitadas pelo Hamas.

Pois bem,  BBC desmascara a trapalhada de Biden e afirma que recebeu a informação da Casa Branca de que Biden não viu fotos coisa nenhuma, somente reproduziu a sujeira dos criminosos de guerra de Israel, como segue a matéria abaixo:

BBC – *O texto a seguir contém detalhes que podem ser considerados perturbadores

A Casa Branca negou que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tenha visto fotos de “terroristas decapitando crianças”, como o democrata havia afirmado mais cedo, na tarde de quarta-feira (11/10).

Procurada pela BBC, a Casa Branca afirmou que Biden não viu as imagens.

“Ele estava se referindo a relatos vindos de Israel”, afirmou a presidência.

Após um evento com líderes da comunidade judaica em Washington, Biden afirmou em discurso que teria visto imagens de crianças israelenses mortas durante os ataques do grupo extremista palestino Hamas no sábado (07/10).

“Eu nunca achei que eu veria, que teria confirmado, fotos de terroristas decapitando crianças”, disse o presidente americano.

Relatos de que haveria fotos assim circularam nas mídias sociais, mas a veracidade delas não foi confirmada pelas Forças de Defesa de Israel.

O correspondente da BBC na América do Norte, Anthony Zurcher, afirma que “Joe Biden, tal como o seu antecessor [Donald Trump], tem por vezes a tendência de sair do roteiro”.

“Com isso, sua equipe precisa se esforçar para esclarecer ou retratar essas falas”, lembra Zurcher.

Para o correspondente, o debate sobre a veracidade da afirmação acabou desviando o foco da mensagem de Biden — a de que ele condena o ataque do Hamas e apoia totalmente Israel.

“Crianças assassinadas são uma tragédia dolorosa, não importa como foram mortas. Mas as observações de Biden complicam as coisas para os EUA, que procuram ajudar e apoiar Israel”, analisa.

“À medida que o nevoeiro da guerra continua a girar em torno deste novo conflito, qualquer retrocesso ou confusão corre o risco de ajudar aqueles que tentam semear desinformação e lança dúvidas sobre acontecimentos e atrocidades que são comprovadamente verdadeiros”, avalia Zurcher.

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Viúva do célebre pensador palestino Edward Said condena violência do Hamas e de Israel; ela participa de evento em São Paulo nesta terça (10)

Viúva do célebre pensador palestino Edward Said condena violência do Hamas e de Israel; ela participa de evento em São Paulo nesta terça (10).

Em meio aos ataques recentes em Israel e na Faixa de Gaza, faz falta a voz do intelectual palestino Edward Said (1935-2003). Sua obra descreve, entre outras coisas, a relação que existe entre a desumanização e a violência. É uma ideia que volta à tona diante dos atentados contra israelenses e também dos bombardeios contra palestinos.

Por coincidência, Mariam Said, a viúva do pensador, está em São Paulo para falar sobre ele. É uma das convidadas do seminário “O Legado Intelectual de Edward Said”, realizado pelo Sesc em parceria com a Unifesp. O evento, gratuito, começa na terça-feira (10). É preciso se inscrever pela internet.

“Ele era um humanista”, diz Mariam à Folha. “Queria que o conflito fosse solucionado de uma maneira humana, acreditava na necessidade de as partes se sentarem para negociar em pé de igualdade.”

Ela condena a violência da facção Hamas e diz que, na história, essa tática não funcionou para os palestinos. “Se você se lembrar dos anos 1960, quando os palestinos sequestraram todos aqueles aviões, era uma ideia parecida. No fim, não rompeu nenhuma barreira.”

Condena também a resposta israelense. O governo de Binyamin Netanyahu fechou o cerco contra Gaza e deve intensificar os bombardeios. “É horrível, desumano e inaceitável.” Segundo ela, o mundo só aceita que isso aconteça porque não vê os palestinos como humanos.

Said é uma das principais referências para o estudo do Oriente Médio. Seu livro “Orientalismo”, de 1978, inclui uma poderosa crítica à maneira com que o mundo fala sobre árabes e muçulmanos. Said denuncia, por exemplo, o uso de estereótipos —como o das odaliscas e dos terroristas.

Além de Mariam, diversos intelectuais de renome participam do seminário em São Paulo. Na quarta-feira (11) falam o professor brasileiro Michel Sleiman e o historiador libanês Fawwaz Traboulsi.

Como a senhora está interpretando as notícias de Gaza?
É inacreditável. Mas, se você parar para pensar por um minuto, não vai culpar os agressores. A cada dois anos Gaza é bombardeada. Ninguém se importa com as pessoas de lá. Israel criou uma situação terrível com o cerco. Os palestinos chegaram ao seu limite.

A senhora está no Brasil para falar de Said. O que ele diria hoje?
Ele era um humanista. Queria que o conflito fosse solucionado de uma maneira humana, acreditava na necessidade de as partes se sentarem para negociar em pé de igualdade. Mas, quando visitamos a Palestina em 1992, percebemos que já não havia mais como ter uma solução de dois Estados. Hoje, talvez não haja chance nem para a solução de um Estado.

A senhora se surpreendeu com os ataques do Hamas no sábado (7)?
Se você tivesse me perguntado dois dias atrás, eu teria dito que era impossível. Não há saída da Faixa de Gaza pela terra, pelo mar e pelo ar. Eles estavam sufocados, não tinham como sair. Mas conseguiram sair.

Há um debate intenso sobre a legitimidade da violência nessa situação.
Jornalistas —na TV, no jornal, no rádio— chamam os palestinos de “terroristas” antes de dizer qualquer coisa. Com isso, com essa palavra, já deixam claro quem são os bandidos, os vilões. Já não pensam que os moradores de Gaza são como qualquer outra pessoa no mundo. Eles têm sentimentos, famílias, vidas. Estão pagando o preço por esse conflito.

A senhora condena a violência do Hamas?
Eu sou totalmente contra a violência. Na maior parte dos casos, a violência não funciona. Não funcionou para os palestinos. Se você se lembrar dos anos 1960, quando os palestinos sequestraram todos aqueles aviões, era uma ideia parecida. No fim, não rompeu nenhuma barreira.

Israel tem fechado o cerco em Gaza, dizendo que tem direito de agir.
É horrível, desumano e inaceitável. Os palestinos são humanos e têm que ser tratados como tal. Não importa a razão. Estão bombardeando civis. Isso não seria aceitável em nenhum outro lugar —apenas na Palestina.

Seu marido falava bastante sobre a desumanização dos palestinos…
Exato. É isso que está acontecendo.

O que vai acontecer nos próximos dias e semanas em Gaza e Israel?
Não aguento mais ver as crianças de Gaza sofrerem. Essa situação é perigosa, também, porque não sabemos como os outros atores regionais vão agir. Sim, os israelenses têm o direito de se defender. Sim, os judeus sofreram muito na Europa. Mas, como Edward costumava dizer, os palestinos são vítimas de vítimas. Precisamos ao menos reconhecer isso.

Com tudo o que está acontecendo, há perspectiva próxima de paz?
Está mais difícil. Muito mais difícil.

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Manipulações midiáticas sobre a geopolítica palestina, por Francisco Fernandes Ladeira

O não familiarizado com a geopolítica palestina, impressão é que Israel foi “vítima” de um “ataque gratuito” dos “terroristas do Hamas”.

Nas coberturas internacionais da grande imprensa brasileira, a linha editorial predominante sempre será aquela que esteja em acordo com os interesses das agendas externas das potências imperialistas. Não há exceção.

Nesse sentido, para tentar atrair a adesão do público, os discursos geopolíticos da mídia recorrem a determinados atalhos cognitivos (recursos linguísticos para tornar inteligível para o cidadão comum a caótica configuração das relações internacionais) e utilizam estratégias de manipulação como enquadramentos, fragmentação dos fatos, ocultação de condicionantes históricos e escolha de certas fontes em detrimento de outras.

No último sábado (7/10), a manchete dos noticiários internacionais dos principais veículos de comunicação do país (com poucas variações) foi a seguinte: “Ataque do grupo terrorista palestino Hamas surpreende Israel”.

Para o leitor/telespectador/ouvinte que não está familiarizado com a geopolítica palestina, a impressão é a de que o Estado de Israel foi “vítima” de um “ataque gratuito” dos “terroristas do Hamas”.

No entanto, se trata de pura manipulação midiática.

Conforme afirmou o professor Reginaldo Nasser, em entrevista à Fórum, o rótulo de “terrorista” ao Hamas é completamente inadequado, haja vista que o grupo, atualmente, é uma organização política que, na verdade, deflagrou uma operação militar contra o cerco ao seu território (Faixa de Gaza). Ou seja, não houve um “ataque à Israel”, mas uma “reação legítima” à ocupação israelense exercida sobre o território que pertencente, por direito, ao povo palestino.

Mas as manipulações midiáticas não pararam por aí. Como já bem apontou Perseu Abramo, uma das principais estratégias de manipulação da grande imprensa brasileira é o chamado “padrão de ocultação”, que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção jornalística. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre a realidade.

Desse modo, é ocultado nos noticiários a informação de que Gaza – cercada por terra, mar e ar pelo Estado de Israel – apresenta uma das piores situações humanitárias no mundo (onde a insegurança alimentar é extremamente alta, chegando a 75-80% e, ainda por cima, há um controle rigoroso sobre a entrada de alimentos).

Além disso, é importante lembrar do silêncio midiático sobre a recente onda de ações do governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu contra os palestinos, sobretudo em locais sagrados para o Islã, como a Mesquita de Al-Aqsa. Trata-se do motivo alegado pelo Hamas para a ofensiva contra Israel. Qualquer jornalismo minimamente plural, que ouve os dois lados de um conflito, teria mencionado esta questão.

Consequentemente, na grande mídia, as investidas do grupo palestino contra o Estado Sionista não tiveram causas; somente consequências. Desse modo, ocultando os fatos citados acima, é possível construir a narrativa de “ataque terrorista surpresa contra Israel”.

Mas não basta rotular o Hamas como “terrorista” e Israel como “vítima”, constituindo o atalho cognitivo maniqueísta de dividir o mundo entre “bem” e o “mal”. É preciso gerar aquilo que o linguista francês, especialista em Análise do Discurso, Patrick Charaudeau, chama de “efeito patêmico”, cujo objetivo é o engajamento/envolvimento da instância da recepção, por meio de performance no mundo dos afetos, despertando no público sentimentos como ódio, compaixão, tristeza e/ou solidariedade.

Assim, são incessantemente mostradas imagens das vítimas israelenses dos “ataques do Hamas”. As perdas do outro lado, diga-se de passagem, em número muito maior, são estrategicamente negligenciadas. Não por acaso, as reportagens em Israel privilegiam as perdas humanas; enquanto as notícias sobre Gaza enfatizam as perdas materiais.

Também nessa linha, é construído o discurso de que o exército de Israel visa somente “instalações militares” e o Hamas “ataca, sobretudo, a população civil; logo, é terrorismo”.

*GGN