É o retrato mais cruel do Brasil de 2026: o assalariado que mal consegue pagar uma consulta no posto de saúde agora torce contra o SUS, faz campanha pelo patrão, vota no candidato do patrão e, quando o chefe vira deputado ou senador, aplaude a bancada que precariza seus direitos e o transforma em mão de obra descartável.
Enquanto isso, o mesmo trabalhador é empurrado para o abismo das apostas online. As bets explodiram no vácuo deixado pelo governo Bolsonaro e hoje são blindadas por uma poderosa “bancada das bets” no Congresso. O resultado está à vista: famílias inteiras endividadas, lares destruídos, depressão e suicídios provocados pelo vício que cabe no bolso de qualquer celular.
E o escárnio não para por aí.
Enquanto o povo quebra as contas com o “jogo do tigrinho”, a cúpula do Congresso viaja de jatinho privado com um dos maiores empresários do setor de apostas. O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira foram flagrados em um voo vindo de São Martinho, paraíso fiscal no Caribe, propriedade do gigante “Fernandin OIG”. Cinco malas desembarcaram sem raio-X, sem inspeção, por ordem direta de um auditor fiscal — exatamente no período em que o Congresso discutia a regulamentação das bets.
Suspeita de contrabando, descaminho e favorecimento escandaloso? O caso foi parar nas mãos de Alexandre de Moraes por conta do foro privilegiado.
Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro, nome que ainda seduz parcelas da classe trabalhadora, acumula denúncias de rachadinhas, relações com milícias e atua como ponte para a liberação de cassinos e bingos. Pior: é relator da PEC das Praias, texto que pode entregar terrenos de marinha à iniciativa privada — abrindo caminho para resorts e grandes cassinos à beira-mar. Privatiza-se a praia pública, instala-se o cassino físico ao lado do digital que já rouba o salário do povo.
É o ciclo perfeito da exploração: primeiro endividam o trabalhador com bets, depois tiram seus direitos trabalhistas, depois destroem o SUS que ele tanto precisa e, por fim, transformam até a praia — último espaço de lazer gratuito — em playground de especuladores e da máfia dos jogos.
Como alertou Marilena Chauí, democracia exige igualdade, liberdade e participação consciente. O que vivemos hoje é a versão perversa dessa equação: o trabalhador, sem igualdade e sem consciência plena, torce contra si mesmo. Torce contra o SUS que um dia pode salvar sua vida. Torce contra direitos que um dia impediram sua exploração total. E entrega seu salário suado para o mesmo sistema que o humilha e o descarta.
O povo precisa acordar urgente. Antes que o último direito vire aposta perdida e a praia que era de todos vire muro de resort com cassino ao fundo — enquanto o trabalhador segue torcendo contra ele próprio.
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Investigados dizem no WhatsApp que senador do Piauí iria facilitar negócios entre Beto Louco e o grupo.
Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A relação também foi mencionada nos depoimentos prestados pelos investigados ao longo da apuração.
Beto Louco e seu sócio, Mohamed Mourad, o Primo, são acusados de liderar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de postos de combustíveis. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.
São eles também os donos da aeronave pilotada por Mauro Mattosinho, que revelou, em entrevista ao ICL Notícias em setembro do ano passado, ter transportado uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo. Segundo o piloto, o voo ocorreu dia 6 de agosto de 2024, mesma data em que Beto Louco comentou com outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira. Mattosinho também prestou depoimento à Polícia Federal (PF).
Antes da publicação da primeira matéria do ICL Notícias sobre o assunto, Ciro Nogueira negou ter “tido proximidade de qualquer espécie” com Beto Louco.
A Operação Carbono Oculto 86 (referência ao DDD do Piauí) é um desdobramento da operação homônima com foco principal em São Paulo. O inquérito foi trancado no último dia 2 de abril por decisão do juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos do Tribunal de Justiça do Piauí.
O Ministério Público piauiense (MP-PI) recorreu da decisão. A promotoria havia denunciado os empresários Haran Sampaio, Danillo Coelho de Sousa e Victor Linhares de Paiva por adulteração de combustíveis, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e associação com Beto Louco e Primo.
Ciro Nogueira não é formalmente investigado no caso. No entanto, após a menção ao seu nome e ao do deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) ao longo da apuração, a Polícia Civil solicitou o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado dos parlamentares.
De acordo com os relatos reunidos no inquérito, a aproximação entre os empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa — antigos proprietários da rede de postos de combustíveis HD — e o grupo ligado a Beto Louco e Primo – donos das empresas Copape, produtora de gasolina, e Aster, uma distribuidora — teve início em outubro de 2023. A dupla baseada em São Paulo já mantinha contato prévio com o senador Ciro Nogueira, mas buscava estreitar essa relação.
O movimento teria ocorrido em meio à disputa por espaço no mercado de combustível com o dono da Refit (antiga Refinaria Manguinhos), Ricardo Magro. Apontado como o maior sonegador do país, Magro é amigo de longa data de Ciro Nogueira, conforme mencionou em entrevista à Folha de S. Paulo.
Mensagens extraídas dos celulares de Haran Sampaio e Danillo de Sousa reforçam que o nome do senador — a quem se referiam como “Sena” — era recorrente nas tratativas. Em um dos áudios que estava nos celulares apreendidos, Danillo relata conversas envolvendo o grupo de Beto Louco e Primo e sugere o uso da proximidade com Ciro Nogueira como fator de influência para viabilizar os negócios.
“Se o ‘Sena’ desse uma ligada aí, Vitinho, pra esse Beto que é o que a gente vai encontrar amanhã, aí era top, viu. Porque ele disse que esse cara aí é muito amigo do Ciro, e é o cara que concorre com o Ricardo [Ricardo Magro].
O Ricardo é mais forte, pelo que eu entendi pela conversa, o Ricardo lá de Miami é mais forte que esse Beto, mas esse Beto era o cara que disputava com ele quem era mais forte, sabe?”, disse Danillo em mensagem de áudio enviada num grupo com Haran Sampaio e Victor Linhares, a quem chama de “Vitinho”.
Em outra mensagem, Haran contou para o sócio Daniel: “Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente”. No mesmo áudio, o empresário contou que havia incluído o senador Ciro Nogueira num grupo de Whatsapp. O grupo se chamava Ciro Vitor Haran Danilo, em referência ao nome dos integrantes.
Conforme revelou a Revista Piauí, o senador interagiu no grupo, inclusive convidando os empresários para um encontro em sua casa, em novembro de 2023. Semanas depois, em meio às negociações para a venda de parte da rede de postos HD ao grupo de Beto Louco e Primo, mensagens indicam que um aval de Ciro Nogueira foi dado — e o negócio acabou fechado ainda em dezembro daquele ano.
Negócio começou numa festa em Trancoso A relação entre os empresários do setor de combustíveis do Piauí com o grupo de Beto Louco e Primo, segundo depoimentos dos investigados, teria começado em uma festa em um bar na beira da praia em Trancoso (BA), em outubro de 2023. Na ocasião, Haran, Danillo e Victor teriam sido apresentados a um intermediário ligado ao grupo paulista.
De acordo com os relatos, o encontro teve clima informal. Em determinado momento, o interlocutor teria mencionado a proximidade com o senador Ciro Nogueira: “a gente é amigo do senador”. “É meu pai”, teria respondido Victor Linhares.
Homem de confiança de Ciro Nogueira, Victor Linhares trabalhou no gabinete do parlamentar entre abril de 2018 e março de 2019, e também na liderança do Partido Progressista (PP) no Senado em 2020. O político é padrinho de uma filha de Linhares, e há ainda diversas fotos publicadas em redes sociais que indicam a proximidade entre os dois.
O encontro em Trancoso foi mencionado em um áudio enviado por Danillo a Haran. Na mesma mensagem, Danillo menciona uma conversa que teve com o interlocutor da dupla baseada em São Paulo e volta a falar sobre a amizade entre Ciro Nogueira e Beto Louco.
“Era melhor vir aqui porque não adianta ser em Salvador, porque não vai estar a pessoa que deveria estar, que eu acho que é esse Beto, entendeu, que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né, que é o amigo do Ciro. Aí ele falou assim: ‘rapaz, eu até falei de vocês aqui pro meu sócio e ele ficou interessado’.
Na sequência, Danillo reforça a expectativa de que uma eventual aproximação política pudesse acelerar os negócios. “Já adiantei sobre vocês, ele se interessou, e tem amigos em comum… aí, pô, o Ciro… você já pulou 90% das etapas”, disse, referindo-se ao que teria ouvido do interlocutor. “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, falando que a gente se conheceu lá, falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, a gente já chega lá com as portas abertas. A gente pede pro Sena fazer essa ligação aí.”
*ICL
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Um desdobramento da Operação Carbono Oculto, que investiga um esquema de fraudes bilionárias no setor de combustíveis, encontrou mensagens trocadas entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e acusados de participação na fraude. O material foi obtido por meio da quebra do sigilo telemático (de dados de celulares, computadores e arquivos em nuvem) de Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa, empresários de Teresina que na semana passada foram denunciados à Justiça sob acusação de adulterar combustíveis, fraudar vendas, ocultar patrimônio e lavar dinheiro em associação com Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo.
Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, não é investigado no inquérito. Mas a Carbono Oculto 86 (o número faz referência ao DDD de Teresina) identificou um grupo de WhatsApp do qual o senador participou, intitulado Ciro Vitor Haran Danilo. Era uma referência ao nome dos integrantes: além do próprio Ciro e da dupla de empresários Haran e Danillo, estava lá Victor Linhares de Paiva, tratado informalmente como Vitinho. Ele é uma figura próxima de Ciro. Foi seu assessor no Senado, exerceu mandato de vereador em Teresina pelo PP e também está na lista de denunciados pelo Ministério Público do Piauí, acusado de lavar dinheiro para o esquema.
Os participantes do grupo conversavam por meio de mensagens temporárias, que expiravam depois de 24 horas. No entanto, como Haran fez capturas de tela de alguns diálogos, a polícia conseguiu acessar parte do que foi falado. As informações constam num relatório ao qual a piauí teve acesso. Numa das mensagens, Ciro – a quem os demais participantes se referiam como Sena, presumivelmente uma abreviação de senador – convidou os três colegas para “tomar um café” em sua casa, em Teresina.
A mensagem foi enviada no dia 20 de novembro de 2023, e o convite era para o dia seguinte, dia 21. Na época, Haran e Danillo, donos da rede de postos de combustível HD, negociavam a venda de parte da empresa para Beto Louco e Primo, donos da distribuidora Copape. Em 11 de dezembro, Haran escreveu no grupo: “Está no ponto lá/ Só depende do ok dele/ Dando o ok já inicia amanhã.” Ao que Ciro respondeu “Ok”. Dali a poucos dias, ainda em dezembro de 2023, o negócio foi fechado.
O quarteto continuou conversando nas semanas seguintes, segundo os prints obtidos pela polícia. No dia 4 de janeiro, Ciro escreveu no grupo: “Querem passar aqui no hotel pra gente atualizar as coisas?” Haran respondeu: “Ok, estamos indo.” Dali a pouco, Vitinho disse: “Estamos aqui.” Ciro pediu então “5 min”. A conversa dá a entender que os três se encontraram naquela tarde.
Os prints das conversas obtidos pela Polícia Civil
Se o encontro realmente aconteceu, não foi o único. O site ICL Notícias já tinha publicado que, em fevereiro, Ciro se encontrou com Hiran e Danillo no Aeroporto de Brasília. A reportagem mostra uma foto em que os três aparecem conversando (a piauí também obteve, posteriormente, a imagem original) e informa que eles embarcaram juntos para Teresina.
O ICL também revelou a existência de um relatório do Coaf – o Conselho de Controle de Atividades Financeiras – apontando que uma empresa do senador, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, recebeu 63,9 mil reais da Pima Energia Amizade em 2025. A Pima foi criada por Beto Louco e Primo justamente para administrar os postos de combustível que compraram de Haran e Danillo, no Piauí. Além disso, segundo o Coaf, a empresa de Ciro transferiu 25,1 mil reais para a HD Petróleo Uruguai Ltda, um dos postos de combustível de Haran e Danillo.
Segundo o Coaf, os pagamentos feitos à empresa de Ciro ocorreram sem “aparente justificativa, vínculo ou compatibilidade da atividade econômica”. Parte do dinheiro foi movimentada por meio da BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, fintech apontada como peça central no esquema de lavagem de dinheiro investigado pela Operação Carbono Oculto em São Paulo (uma das hipóteses ainda sob investigação é que o esquema lavava dinheiro do PCC, mas a informação não foi confirmada até aqui pelo Ministério Público).
As mensagens obtidas pela polícia indicam que, embora participassem do grupo de WhatsApp, Haran e Danillo pareciam não ter uma relação próxima com Ciro. Frequentemente, quando falavam a sós, os dois se referiam a Vitinho como um intermediário por meio do qual chegavam ao senador. O ex-assessor e braço direito de Ciro é descrito na denúncia do Ministério Público como lobista e intermediador financeiro da venda de parte da rede de postos HD para Beto Louco e Primo. Segundo a investigação, recebeu 230 mil reais de Haran em 20 de dezembro de 2023, mesma época em que aconteciam as conversas no grupo. O dinheiro foi depositado em uma conta aberta por ele na BK Bank havia pouco tempo. Segundo os procuradores, o pagamento foi uma “contraprestação pelos serviços de intermediação que viabilizaram a conexão entre os núcleos criminosos”.
A Carbono Oculto 86 também obteve áudios atribuídos a Danillo e enviados a Haran. Em um deles, o empresário faz menções a “Beto” e “Ciro” numa conversa sobre a venda da rede HD. “Eu acho que é esse Beto, entendeu? Que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né? Que é o amigo do Ciro”, disse Danillo, segundo a gravação colhida pela polícia. Depois continua: “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, né? Falando que a gente se conheceu lá, aí falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, aí a gente já chega lá com as portas abertas.” Em seguida, no mesmo áudio, o empresário se dirige a Vitinho, que parece estar ao seu lado: “Vitinho, pede pro Sena fazer essa ligação aí.”
A aproximação de Beto Louco e Primo com a dupla do Piauí aconteceu em um momento em que os donos da Copape e da Aster, principais alvos da Carbono Oculto, buscavam se fortalecer politicamente em meio a uma disputa de mercado com o empresário Ricardo Magro, dono da Refit. Versátil, Ciro manteve um pé em cada canoa: ao mesmo tempo que conversava com Haran e Danillo, cultivou uma relação próxima com Magro, rival de Beto Louco e Primo. Mas os empresários do Piauí pareciam esperar a ajuda do senador para destravar a venda da rede HD. Em um outro áudio obtido pela polícia, Danillo disse para o sócio: “Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente.”
A piauí entrou em contato com Ciro Nogueira para pedir esclarecimentos sobre sua relação com Haran e Danillo, as transações financeiras detectadas pelo Coaf e as conversas no grupo de WhatsApp. Perguntou também se ele intermediou a negociação da Rede HD com Beto Louco e Mohamad. O senador não respondeu às perguntas da reportagem, enviadas por WhatsApp. Sua assessoria de imprensa repassou apenas uma nota em que diz: “O senador Ciro Nogueira não é investigado no âmbito da operação mencionada e em nenhum outro inquérito em curso. Toda e qualquer tentativa de envolver o nome dele em escândalos acabará por ser frustrada, uma vez que o senador não tem envolvimento com ações ilícitas.”
A piauí não conseguiu localizar Haran e Danillo. O advogado Jader Madeira Portela Veloso, que representa os dois, disse que não poderia comentar o caso porque “o inquérito policial referente à Operação Carbono Oculto tramita em sigilo”. Vitinho, por sua vez, não atendeu às ligações nem respondeu às perguntas da reportagem, mas enviou uma mensagem dizendo: “O inquérito policial tramita em segredo de justiça. Qualquer divulgação indevida pode acarretar penalidades. Sugiro consultar a assessoria jurídica do portal para mais informações.” Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, estão foragidos desde a deflagração da Carbono Oculto em agosto de 2025. A piauí não conseguiu contatá-los, e seus advogados não responderam as mensagens até a publicação desta reportagem.
Além de Ciro Nogueira, outro parlamentar é citado no material apreendido pela Carbono Oculto 86: Júlio Arcoverde (PP-PI), deputado federal em primeiro mandato. Aliado de Ciro, em 2024 ele foi alçado ao cargo de presidente da Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização do Congresso.
A polícia obteve um áudio que diz assim: “Opa, deputado Júlio, tudo bom? É o Haran aqui. Quando você puder me dá uma ligada.” Não é possível cravar que o deputado em questão seja Júlio Arcoverde, e não outro Júlio. Mas, numa outra conversa, essa por mensagem de texto, um dos sócios tenta marcar um encontro com um interlocutor identificado como “Deputado Julio Arc”. Além disso, um relatório do Coaf detectou um repasse de 9,5 mil reais feito pelo CNPJ “Eleição 2022 Júlio Ferraz Arcoverde Deputado Federal” para a empresa HD Petróleo, pertencente aos dois empresários. Segundo o G1, o Coaf descobriu ainda um fato curioso: que, em 2024, Júlio Arcoverde e o deputado Átila Lira Filho (PP-PI) pagaram despesas de Ciro Nogueira no valor total de 17 mil reais.
Em áudios enviados a Haran, Danillo mencionou “o deputado Júlio” ao falar sobre a negociação de emendas parlamentares. Em um deles, ao tratar de recursos destinados a Caxias, no Maranhão, o empresário disse: “O problema foi porque o prefeito cobrou os 130. Mesmo a gente já tendo pago para o Júlio, ele cobrou os 130 de novo. Aí a gente teve que dar para aquele fela da puta, aquele prefeito. Aí o Júlio tinha que devolver os 130. Aí ele não devolveu.” Não fica claro, a partir da conversa, o que são os “130” a que ele se refere. Em uma outra mensagem de voz, o empresário dá a entender que não faria mais acertos com o tal Júlio. “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de 1 trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero.”
O deputado Júlio Arcoverde, assim como Ciro Nogueira, não é investigado na Operação Carbono Oculto. Caso um dos dois venha a ser, o caso terá de ser remetido ao Supremo Tribunal Federal, já que ambos têm direito a foro privilegiado.
Procurado pela piauí, Júlio Arcoverde enviou uma nota em que diz desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado e reforça que não é investigado no âmbito da operação mencionada. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com ações ilícitas”.
O deputado Átila Lira Filho, por sua vez, afirmou não conhecer Haran e Danillo, a não ser de “relação social”, e que as despesas que pagou a Ciro, de 3 mil reais, dizem respeito a um medicamento que o senador providenciou para ele. “Foi um remédio que o Ciro comprou para mim, para emagrecimento”, disse o deputado, em uma mensagem de áudio enviada à piauí. “Foi o Mounjaro. Foram uns 3 mil e 400 e poucos (reais)”, continuou. “O meu foi uma caneta só.”
*Breno Pires/Piauí
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Deputados do PP do Piauí pagaram cartão de crédito do senador Ciro Nogueira, diz site
Informações estão em relatórido do COAF logado às investigações do BK Bank; faturas totalizaram R$ 17 mil
Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que faturas de cartão de crédito do senador Ciro Nogueira (PP-PI) foram pagas por dois deputados federais do mesmo partido. Os valores, registrados em 2024, somam cerca de R$ 17 mil e envolvem os parlamentares Átila Lira e Júlio Arcoverde, ambos aliados do senador no Piauí.
As informações fazem parte de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) ligado à investigação sobre a fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, apontada pela Polícia Federal como um dos canais utilizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavagem de dinheiro.
Segundo o documento, o senador também realizou transferências que totalizam cerca de R$ 12,3 mil para contas vinculadas à fintech. A Caixa Econômica Federal classificou a movimentação da conta como “inusitada”, considerando o período entre janeiro e junho de 2024.
Em 4 de junho, Átila Lira aparece como responsável pelo pagamento de um boleto de R$ 3.457 referente a um cartão do Banco de Brasília (BRB) em nome de Ciro Nogueira. O deputado, no entanto, negou ter feito o pagamento e afirmou que a informação está incorreta, segundo o ICL
Já no dia 19 do mesmo mês, outra fatura, no valor de R$ 13,6 mil, foi quitada por Júlio Arcoverde. O parlamentar disse que o pagamento pode estar relacionado a despesas pessoais, como compras feitas pelo senador durante viagens ao exterior.
O relatório também destaca outras movimentações consideradas atípicas, como transações incompatíveis com a renda declarada, transferências para pessoas politicamente expostas e remessas internacionais sem justificativa clara. Entre elas, está o recebimento de cerca de R$ 25,8 mil, enviados por um condomínio em Miami Beach, nos Estados Unidos, classificado como “transferência sem contrapartida”.
A legislação brasileira permite que terceiros quitem dívidas em nome de outra pessoa. No entanto, esse tipo de operação pode levantar suspeitas se houver indícios de tentativa de ocultar a origem dos recursos. Em casos envolvendo agentes públicos, situações assim podem ser enquadradas em normas relacionadas à improbidade administrativa ou corrupção passiva, dependendo do contexto.
O senador foi procurado, classificou os questionamentos como “absurdos” e afirmou que não comentará o caso.
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A Polícia Federal apreendeu um envelope identificado com a palavra “Congresso” durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, realizada em novembro de 2025, quando agentes cumpriram mandados contra o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material foi recolhido no imóvel do empresário em Brasília durante a operação que investigava suspeitas envolvendo o grupo financeiro. Com informações da revista Veja.
O envelope foi localizado pelo caseiro responsável pela residência no momento da ação policial. A defesa de Vorcaro utilizou a existência do documento para argumentar que o caso deveria ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mencionando a possibilidade de relação com um projeto imobiliário que envolveria o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro privilegiado.
De acordo com a investigação, o parlamentar não aparece formalmente como investigado no processo. No entanto, mensagens apreendidas nos celulares de Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal mostram referências a diferentes figuras da política brasileira, incluindo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente do União Brasil, Antonio de Rueda, e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).
Os dados foram encaminhados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. As mensagens indicam ainda que Vorcaro mencionou encontros com autoridades do Judiciário. Em uma conversa registrada em abril de 2024, ele afirma ter participado de um evento com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), organizado em Londres pelo Fórum Jurídico Brasil de Ideias.
As mensagens citadas pela investigação foram filtradas pela Polícia Federal com autorização do ministro do STF André Mendonça, relator do caso na Corte. O conteúdo completo do envelope apreendido permanece sob sigilo e não foi divulgado publicamente até o momento.
A investigação contra Vorcaro inclui uma série de medidas adotadas desde novembro de 2025, quando a Polícia Federal realizou a primeira prisão do empresário. O caso envolve apurações sobre o Banco Master e outras instituições ligadas ao grupo financeiro, com decisões judiciais que determinaram que parte das informações fosse encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, segundo informações do DCM.
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Mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram que a modelo Martha Graeff enviou a ele um vídeo do senador Ciro Nogueira (PP-PI) em que o parlamentar declara apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A conversa ocorreu por mensagem direta no Instagram em 23 de julho de 2025.
No vídeo encaminhado pela namorada, Ciro Nogueira afirma: “Estamos com Bolsonaro. Sempre”. A gravação foi enviada por Martha Graeff às 11h27 daquele dia, segundo registros das mensagens analisadas nas investigações relacionadas ao Banco Master.
A publicação com o título “Estamos com Bolsonaro. Sempre!” foi enviada por Martha a Vorcaro às 11h27 do dia 23 de julho de 2025. No vídeo, Ciro Nogueira diz que Bolsonaro é vítima de “uma perseguição sem precedentes na história do nosso país” e que pretende apresentar um Projeto de Lei para “proibir qualquer tipo de cessamento de redes sociais”.
“É um homem que não tá sendo acusado de roubar, nem de matar e tá tendo cessado o seu direito de poder se manifestar, de poder ir e vir. Isso eu considero uma perseguição sem precedente na história do nosso país. Nós estamos estudando até no congresso um projeto de lei para proibir qualquer tipo de cessamento de redes sociais, porque da forma como está se acontecendo no país, isso é uma censura prévia que nós não podemos admitir em hipóteses nenhumas”, afirma no vídeo.
Na gravação, o senador também declara que Bolsonaro é alvo de “uma perseguição sem precedentes na história do nosso país”. Em seguida, afirma: “É um homem que não tá sendo acusado de roubar, nem de matar e tá tendo cessado o seu direito de poder se manifestar, de poder ir e vir”.
*DCM
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Mensagens trocadas por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, indicam que o empresário se referia ao presidente do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), como um “grande amigo de vida”.
Em diálogo com sua namorada, a blogueira Martha Graeff, Vorcaro apresenta o parlamentar — uma das principais figuras do centrão — como alguém muito próximo. “Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, escreveu ele em maio de 2024.
O diálogo faz parte do conjunto de mensagens e documentos sob análise da CPMI do INSS.
Meses depois, em agosto, Vorcaro voltou a mencionar o senador em conversa com Martha. Na mensagem, afirmou que “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro”. Segundo ele, a proposta ajudaria bancos médios e reduziria o poder das grandes instituições. “Está todo mundo louco”, acrescentou.
“Wow amor. Louca pra saber de tudo ao vivo”, respondeu Martha.
Naquele período, Ciro Nogueira havia apresentado uma emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor da garantia oferecida pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). A proposta foi incluída na PEC que tratava da autonomia do Banco Central.
A emenda foi criada às 17h57 e modificada pela última vez às 18h09. A mensagem de Vorcaro para a namorada foi enviada pouco mais de uma hora depois, às 19h44.
A emenda passou a ser apelidada de “emenda Master”, por supostamente favorecer o banco. Os CDBs do Banco Master chegaram a oferecer rendimentos de até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e destacavam, em campanhas de marketing, a proteção do FGC para transmitir segurança aos investidores.
Diante da resistência de entidades do setor bancário, a proposta acabou sendo engavetada.
Também há uma conversa entre Vorcaro e o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP). Na mensagem, o parlamentar escreveu: “Oi, amigo, precisamos fazer a videoconferência eu, você e Ciro”. O ex-banqueiro respondeu: “Opa. Vamos. Só me chamar”.
O senador afirmou, por meio de sua assessoria, que troca mensagens com centenas de pessoas e que esse tipo de interação não significa proximidade pessoal.
“Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”, completou, em texto enviado à Folha de S. Paulo.
Além disso, reportagem de Aguirre Talento, Gustavo Côrtes e Vinícius Valfré, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, revela que a Polícia Federal identificou no celular do banqueiro Daniel Vorcaro conversas com o senador Ciro Nogueira, além de registros em que o empresário determinava o pagamento a uma pessoa identificada apenas como “Ciro”, sem menção ao sobrenome.
Procurado pelo jornal, o senador disse não ter proximidade com o banqueiro e negou ter recebido qualquer quantia. A seguir, a íntegra da nota enviada ao Estadão:
“Associar meu nome ao recebimento de qualquer tipo de pagamento por ter o primeiro nome citado em diálogos, sem oferecer outra informação, tais como sobrenome ou cargo, é um ato irresponsável, inconsequente e até leviano. Segundo o IBGE, existem mais de 11 mil pessoas com o nome Ciro no Brasil, incluindo um ‘Ciro’ entre os advogados que atuam na defesa de Vorcaro, segundo informações de minha assessoria.
Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia. Informo que, embora conheça Daniel Vorcaro, assim como conheço centenas de empresários, ele jamais pertenceu ao meu círculo de amizades próximas. Estou absolutamente tranquilo quanto aos resultados das investigações da Polícia Federal, uma vez que, reafirmo, não tenho envolvimento algum com as denúncias relacionadas ao empresário”.
*ICL
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Mariângela Fialek, assessora do PP, chefiada por Arthur Lira, trabalhou com Ciro Nogueira, Jucá, Ricardo Barros e Temer
A advogada gaúcha Mariângela Fialek da Silva foi o alvo único da Operação Transparência deflagrada pela Polícia Federal a pedido do Ministério público Federal e autorizada pelo gabinete do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. Em tom de piada, quando conversam descontraidamente durante animados convescotes embalados à base de música sertaneja goiana ou sofrência baiana e regados por vinhos de rótulos impagáveis para 99% dos brasileiros, muitos deputados e alguns senadores se referem a ela como “a CEO de nossa holding”.
Em clima de fim de festa, por volta das 5h45min da manhã da 6ª feira 12 de dezembro de 2025, agentes da PF, acompanhados de procuradores da República, amanheceram no apartamento de Mariângela Fialek, no Bloco A da SQSW 300, no setor Sudoeste, em Brasília, e numa sala do Anexo 2 da Câmara dos Deputados. É ali que a funcionária pública não concursada despacha com deputados, senadores e assessores parlamentares com o objetivo de definir para onde, para quem e em que momento seriam liberadas verbas públicas do Orçamento Geral da União. É ela quem estabelece as prioridades orçamentárias, sempre depois de ouvir o ex-chefe formal que segue como seu mentor informal, Arthur Lira. Só depois dessas instruções do “presidente do Conselho” da “holding” (para ficar no campo semântico da galhofa de vossas excelências), as emendas são enfim direcionadas para os parlamentares determinados.
Fialek recebe da Câmara um salário de R$ 23,7 mil, topo da carreira para não concursados, e está vinculada à Casa desde 2021. Chegou àquele posto a convite do deputado Arthur Lira (PP-AL), então recém-eleito presidente da Câmara. Quatro anos depois, quando Lira entregou a cadeira da presidência ao afilado Hugo Motta (Republicanos-PB), com quem agora anda às turras, acertou-se que “Tuca”, como Mariângela se tornou conhecida pelos colegas de trabalho e também entre os políticos, seria transferida com o salário do topo de careira para os quadros da liderança do PP na Câmara.
Acertou-se, porém, que mesmo destituída do prestigioso crachá que a vincularia à Presidência da Mesa, a advogada seguiria na mesma sala que pertence ao organograma de espaços da administrativo da Casa Legislativa. Além disso, manteria a função de principal: direcionar as emendas parlamentares a serem pagas com o Orçamento da União por meio das emendas impositivas, das “emendas pix”, das “emendas de comissão” e das “emendas de bancada”.
Decisão de Dino é precisa e lapidar O ministro Flávio Dino é o relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 854 (ADPF 854), impetrada pelo Psol, que visa esclarecer os meandros das destinações orçamentárias das emendas ao Orçamento Geral da União. Desde abril de 2024, quando a ADPF 854 foi herdada por seu gabinete do arquivo remanescente da ex-ministra Rosa Weber, ele se dedica ao escrutínio de todas as despesas orçamentárias pagas com o erário por determinação dos comandos do Congresso de 2020 para cá. A ação determinada para ocorrer no início da manhã desta última 6ª feira não tem relação direta (ainda) com a ADPF 854. É uma investigação correlata, por enquanto.
Em relação a este ano de 2025, mais de 70% das emendas pagas já estão nos conformes de transparência e rastreabilidade em razão do cumprimento de cautelares impostas pelo Supremo com o auxílio do MPF, da AGU, da CGU, do TCU, das presidências dos bancos BB, Caixa e BNB e até mesmo da Advocacia Geral do Senado e da Câmara. Mas, entre 2021 e 2024, justamente o período em que a holding informal “presidida” pela CEO Mariângela e tendo Lira à frente de seu “Conselho de Administração”, reina o obscurantismo, a irrastreabilidade e o mistério sobre a verdadeira autoria da maioria das emendas e o processo de licitação de obras públicas por meio das quais empresas e fornecedores privados se tornam aptos a fornecer bens e serviços para a União ou para os entes federados.
Mariângela Fialek não teve a prisão decretada pelo ministro do STF. Nem isso foi pedido pelos investigadores, pois não se fazia necessário. Flávio Dino sequer mandou demiti-la e deixá-la sem salário. Determinou apenas que a ex-assessora e eterna fiel escudeira de Lira seja afastada de quaisquer atos designatórios relacionados a gastos com emendas parlamentares. Eles têm indicações firmes de que ela colaborará com as investigações. Os sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático dela foram quebrados.
Em seu apartamento do Setor Sudoeste foram recolhidos celulares, laptops, tablets, cadernos de anotações e uma mala de arquivo, além de pen-drives. Na sala da Câmara, Quartel General da Tropa de Choque de parlamentares de amplo espectro partidário que cerravam fileiras em defesa de Mariângela e de seus métodos de “executiva do Orçamento Secreto”, muitos papéis, computadores, arquivos, tablets e até mesmo um celular funcional foram recolhidos pelos policiais federais e procuradores. Bens pertencentes a outros funcionários que trabalhavam na mesma sala também foram levados. “Se minha amiga falar, aí cai tudo”, disse no meio da manhã de ontem uma colega de sala de Mariângela Fialek depois que força-tarefa enviada por ordem do ministro Dino deixou a repartição. “Ela é uma pessoa honesta, correta, exemplar. Mas, cumpria ordens. Isso cumpria à risca. Eu, se fosse ela, falava tudo”.
Fialek assessorou o ‘Centrão’ Mariângela Fialek graduou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 1998 e tem o mestrado em Direito do Estado pela Univrsidade de São Paulo. Depois de atuar de forma destacada como profissional de Relações Governamentais para diversas entidades paraestatais como o Instituto Euvaldo Lodi, vinculado à Confederação Nacional da Indústria, e para a organização não-governamental Casa Política, desembarcou no perigoso mundo da assessoria política direta atendendo a um chamado do ministro da Casa Civil de Michel Temer, o também gaúcho Eliseu Padilha, no período em que o ex-vice de Dilma Rousseff ocupou a presidência com a deposição da ex-presidente. Essa assessoria para a Casa Civil levou-a a integrar os conselhos fiscais do BNDES, da empresa Pré-Sal Petróleo e a se tornar subchefe da Assessoria Parlamentar da Presidência da República (comandada por Temer). De lá, foi para o Ministério do Desenvolvimento Regional levada pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR), cujo gabinete chefiou nos tempos de Senado.
A passagem de Jucá pelo MDR de Temer foi de apenas 15 dias, defenestrado por denúncias. De volta ao Senado, Mariângela assessorava o senador por Roraima sobretudo na relação dele com o Poder Judiciário com associações de magistrados. Ela trabalhava com Jucá quando ele foi gravado pelo ex-senador Sérgio Machado, nos primórdios da Operação Lava Jato, dizendo que era preciso “estancar a sangria” do lavajatismo do Ministério Público tirando Dilma Rousseff da presidência da República e fazendo um acordo “com o Supremo, com tudo”.
Entre 2019 e 2020, no início do governo Jair Bolsonaro, a advogada gaúcha perdeu o cargo no Planalto, mas, levada por amigos que fez no MDB “temerista”, foi indicada para assumir a Subsecretaria de Assuntos de Governo do Estado de São Paulo no período de João Doria. Mexia com emendas parlamentares também no Palácio do Morumbi. Em fins de 2020, ele foi puxada de volta a Brasília para uma assessoria do Ministério de Desenvolvimento Regional e recebeu como prêmio de consolo salarial um posto no Conselho Fiscal na Codevasf – Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos Rios São Francisco e Parnaíba.
Por meio de emendas “mágicas” patrocinadas pelo senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado também naquele momento, como agora, a Codevasf havia sido transformada num mostrengo para gastanças orçamentárias por meio de emendas parlamentares. Mesmo a milhares de quilômetros de distância do leito, do vale ou da foz dos rios São Francisco e Parnaíba, cidades como a Macapá de Alcolumbre ou a Goiânia de Ronaldo Caiado receberam escritórios regionais da Codevasf. A empresa que era para desenvolver perímetros irrigados por grandes rios perenes do Nordeste se converteu, sob Bolsonaro, com o comando de Alcolumbre e tendo a assessora de Arthur Lira à frente, na maior calçadora de ruas e obreira de meios-fios da República – tudo feito por licitações chinfrins beneficiando empresas que eram pagas com verbas da União determinadas a partir das emendas impositivas e das emendas pix emanadas do Congresso Nacional.
Em janeiro de 2021, o senador Ciro Nogueira, que conhecia Mariângela desde os tempos de Michel Temer e sabia que ela tinha excelente relação com seu futuro secretário-executivo Jonathan Assunção (também investigado pelo STF, pela PF e pelo MPF em outras ações relativas à ADPF 854 e ainda respondendo a ações de investigação do Grupo Refit e do empresário Ricardo Magro na Operação Poço de Lobato), levou-a pelas mãos até Arthur Lira. Deu match.
Jonathan já era o executivo da Casa Civil do general Braga Neto e resolvia tudo das emendas no Palácio do Planalto. Fialek batia bola com ele em sintonia fina, como se fossem uma dupla improvável entre Marta e Pelé tabelando nos gramados insondáveis do Orçamento da União. Mas, nem Jonathan é Pelé, nem Mariângela é Marta, e nem o Orçamento Secreto se presta a um campo digno para pelejas limpas: é um charco. Para dobar o salário que ganhava na Câmara, Mariângela se tornou integrante do Conselho Fiscal da Caixa Econômica, cujo presidente é indicado por Arthur Lira tanto agora, como no período de Bolsonaro na presidência do segundo maior banco público federal.
O currículo de Mariângela Fialek a pôs sempre perto e, às vezes, dentro do circuito do perigo. Porém, não há evidências de que tenha se locupletado nas ações investigadas pelo Supremo Tribunal Federal. É por isso que entre os conselheiros de investigação de Dino na ADPF 854 se imagina que a advogada pode atender aos apelos dos colegas de trabalho na Câmara e falar o que sabe das patranhas cometidas com o Orçamento da União em sua versão “Orçamento Secreto”, impositivo, pago por meio de “emendas pix” e nas categorias de emendas individuais, de bancada e de comissão. O ano de 2025 está muito longe de acabar em Brasília, apesar de ser já meados de dezembro pelo calendário gregoriano.
*Luis Costa Pinto/ICL
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É o sistema financeiro (combustíveis, fintechs, refinarias, sonegação bilionária) sendo capturado pelo crime organizado e blindado por quem deveria combater, tudo em nome do poder e do dinheiro sujo.
Preto e pobre continuam levando tiro na cara.
Quem lava os bilhões anda de jatinho com deputado, governador e senador.
É roubo com terno, golpe com lei no Congresso e crime com cargo público. Todos bolsonaristas.
PCC lava bilhões em combustíveis via Refit (R$ 20 bi devidos).
Blindagem total: Cunha, Ciro Nogueira, Derrite, Tarcísio e Castro. Daí a tentativa de dar fim a Polícia Federal como queriam Tarcisio e Derrite
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Transação foi realizada por meio de conta no “Banco do PCC”, de acordo com relatório do Coaf
Por Alice Maciel, Flávio V M Costa e Leandro Demori
A empresa do senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebeu R$ 63,9 mil de um posto de combustível localizado em Teresina (PI), que foi alvo nesta terça-feira (4) da Operação Carbono Oculto 86. A ação, deflagrada pela Polícia Civil do Piauí, investiga um esquema de lavagem de dinheiro do PCC no estado. Os repasses aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ao qual o ICL Notícias teve acesso.
O posto Pima Energia Amizade — que anteriormente operava sob o nome Maranhão Petróleo — realizou duas transferências para a Ciro Nogueira Agropecuária Imóveis, incorporadora pertencente ao senador. Segundo o relatório do Coaf, foram enviados R$ 47,9 mil em 2 de maio de 2025 e R$ 15,9 mil em 17 de abril do mesmo ano.
As transferências foram feitas por meio da conta do posto na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank. A instituição financeira foi apontada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) como peça-chave em um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
A conexão entre o banco e a facção criminosa veio à tona na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que mirou empresas e fundos de investimento sediados na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
A investigação da Polícia Civil do Piauí é um desdobramento da operação homônima, que teve o foco maior em São Paulo. Por essa razão, foi batizada com acréscimo do número 86, referente ao DDD do Piauí. A Justiça autorizou o compartilhamento de provas entre as duas operações.
Procurado pela reportagem, o senador Ciro Nogueira ainda não respondeu aos questionamentos. Se o fizer, este texto será atualizado.
Empresa de SP compra rede de postos no Piauí A Pima Energia Amizade faz parte de uma rede de postos de combustíveis em Teresina que foram adquiridos pela Pima Energia Participações, em dezembro de 2023. A transação chamou a atenção da Polícia Civil do Piauí pela ligação do negócio com empresas investigadas por envolvimento no esquema do PCC no ramo de combustível em São Paulo.
A Pima Energia Participações foi fundada na capital paulista apenas seis dias antes de adquirir a rede de postos de gasolina piauiense “Postos HD”, dos empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Daniel Coelho de Souza – eles também foram alvos ontem de mandados de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto 86.
Os investigadores suspeitam que foi uma venda de fachada, uma vez que houve uma “substituição de bandeira (de HD para Pima e Diamante) sem alteração operacional real” e que a Pima Energia “foi criada especificamente para formalizar a referida transação comercial”.
O único sócio da Pima Energia à época da transação com o grupo HD era o Jersey Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, que por sua vez, é administrado por uma empresa, também suspeita de lavar dinheiro e, igualmente, alvo da operação Carbono Oculto: a gestora de fundos Altinvest Gestão e Administração de Recursos de Terceiros.
Hub de soluções financeiras, a Altinvest é liderada pelo empresário Rogério Garcia Peres e administra 10 fundos citados pelos promotores na Operação Carbono Oculto. O MP-SP afirma que Peres é um dos responsáveis pelas “dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos e a BK Instituição de Pagamento”.
Advogado, Peres também é apontado pela promotoria como “administrador de fundos de investimento, amplamente envolvido com o grupo Mohamad [Mohamed Hussein Mourad], sócio em postos de combustíveis”. Mourad, mais conhecido como “Primo”, é acusado de liderar o esquema de lavagem de dinheiro do PCC, junto a Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”. Ambos estão foragidos da Justiça.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, o ex-piloto da empresa Taxi Aéreo Piracicaba (TAP), Mauro Matosinhos, afirmou ter transportado em voo uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, na mesma data em que Beto Louco mencionou a outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira.
Outros elos de Ciro Nogueira com empresas investigadas Segundo relatório da Polícia Civil do Piauí, após a conclusão da venda dos postos de combustível da rede HD, Moisés Eduardo Soares Pereira passou a figurar como único sócio da Pima Energia Participações Ltda. Ele é um ex-funcionário de Haran Sampaio e Danilo de Souza. A suspeita é de que ele seja um laranja de seus patrões.
Após a compra pela Pima Energia, os postos de gasolina da rede “Postos HD” passaram a ser chamados de Red Diamante. De acordo com a investigação da Polícia Civil do Piauí, há evidências de uso de empresas de fachadas vinculadas às marcas “Postos HD”, “Postos Pima” e “Postos Diamante”, “que têm suspeita de ligação com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC)”.
Conforme mostrou reportagem do ICL Notícias publicada nesta quarta-feira (5), os investigadores suspeitam que Victor Linhares Paiva – ex-assessor, aliado político e compadre do senador Ciro Nogueira que também foi alvo da Operação Carbono Oculto 86 – tenha intermediado a venda da rede Postos HD para a empresa Pima Energia. Isso porque, ele recebeu R$ 230 mil de Haran Santhiago Girão Sampaio, um dos antigos proprietários dos Postos HD, no mesmo mês em que a transação entre as empresas foi concluída.
O valor foi depositado em uma conta de Linhares no BK Bank, supostamente aberta apenas para essa operação, segundo alerta emitido pelo Coaf. O relatório do órgão também indica que, logo após o depósito de Sampaio, Linhares transferiu a quantia para outra conta bancária em seu nome.
O ICL Notícias também revelou nesta quarta-feita (5) que o irmão do senador Ciro Nogueira, Raimundo Nogueira, é dono de uma empresa em Teresina que já dividiu endereço com um posto de gasolina da mesma rede, a HD Petróleo Uruguai.
Conforme relatório do Coaf obtido pela reportagem, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, da qual Raimundo também configura como sócio junto com o irmão, realizou pagamentos que somam R$ 25,1 mil à HD Petróleo Uruguai entre dezembro de 2021 e maio de 2022.
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