O jornal britânico Financial Times publicou, nesta quarta-feira (31), sua tradicional lista anual com 20 previsões políticas para o ano seguinte e incluiu a reeleição do presidente Lula nas eleições de outubro de 2026 entre as apostas. Segundo o veículo, o atual chefe do Executivo poderia se beneficiar do desempenho da economia brasileira e de “gols contra” atribuídos à direita bolsonarista.
A publicação menciona o recente histórico de saúde de Lula, lembrando que ele passou por uma cirurgia de emergência na cabeça há cerca de um ano. Ainda assim, o Financial Times afirma que a previsão é de reeleição, apontando fatores como o enfrentamento aos tarifaços do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e resultados econômicos considerados positivos. O jornal também citou a possível candidatura de Flávio Bolsonaro como um dos “gols contra” da direita.
“Gols contra da direita do Brasil também estão o ajudando. Alguns políticos conservadores pediram sanções dos EUA para punir o Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, mas a estratégia saiu pela culatra, já que Lula mobilizou a nação em torno dele”, explicou o jornal.
A previsão diz o mesmo que a pesquisa da Genial/Quaest, que apontou que Lula como favorito contra qualquer adversário, incluindo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e os governadores do Paraná, Ratinho Junior (PSD), e de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nos dois turnos da eleição presidencial de 2026.
Hoje foi dia de o Financial Times cravar o favoritismo de Lula em 2026.
A consequência prática: por se tratar do principal jornal de finanças do mundo, o prognóstico do FT ajuda a normalizar o cenário de Lula 4, moderando expectativas do mercado internacional e da oposição.
Nas demais projeções, o Financial Times indicou que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, não aceitará abrir mão da região de Donbas em um eventual acordo de paz com a Rússia, além de uma possível derrota dos republicanos nas eleições para o Congresso dos Estados Unidos, em novembro, segundo o DCM.
O jornal também aposta no derretimento da “bolha” da Inteligência Artificial no mercado financeiro. No levantamento anterior, a publicação acertou 13 das 20 previsões, entre elas a vitória de Donald Trump nas eleições americanas.
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Num mapeamento dos riscos de violência e extremismo no Brasil, Abin alertou sobre potencial de expansão de grupos ultranacionalistas
Os movimentos neonazistas representaram a ameaça de “maior potencial de crescimento” no Brasil entre 2019 e 2020.
A informação faz parte de documentos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que foram obtidos após uma longa batalha judicial pela Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública. Desde meados de dezembro e pelas próximas semanas, o ICL Notícias traz com exclusividade dezenas de informes, relatórios e dados até hoje mantidos como confidenciais pela Abin.
Num relatórios sobre os riscos do terrorismo e dos atos de violência no Brasil e no mundo, de 6 de abril de 2020, a Abin traçou um mapa das diferentes correntes extremistas no país e seu potencial de representar um risco para segurança pública.
Naquele ano, a Abin alertava para o fato de que “ataques perpetrados por indivíduos ou grupos inspirados por ideologias extremistas, não necessariamente de caráter islâmico, vêm ganhando espaço no Brasil, como se verificou no massacre de Suzano, em 13 mar. 2019, e nas ameaças da célula ecoextremista Sociedade Secreta Silvestre (SSS) a autoridades públicas brasileiras em 2019”.
“Adeptos desses movimentos compartilham uma visão radicalizada de mundo e defendem o uso da violência como meio de promoção de seus ideais”, alertou.
Ainda que o risco fosse identificado em outros grupos ideológicos também, a Abin era explícita ao mencionar a ameaça da extrema direita.
“Com relação ao ultranacionalismo e ao neonazismo, esses movimentos se fortaleceram em 2019, com o aumento de ataques em diversos países do mundo”, disse. “No âmbito internacional, o crescimento dos grupos ultranacionalistas tem como principal motivação o aumento da imigração no continente europeu. Esses grupos são contrários ao que acreditam ser uma “islamização da Europa” e respondem a essa “ameaça” com ataques violentos”, explicou.
De acordo com a agência, o crescimento mundial do neonazismo estava influenciando a reorganização de grupos no Brasil, como o Crew 38 e Hammerskin Nation, o Misanthropic Division e o Combat 18/Blood & Honour/Aryan Strikeforce.
“Recentemente, houve aumento de ataques pontuais contra indivíduos que não se enquadram no estereótipo defendido por esses grupos. Desde a realização das operações policiais Azov e Hateless, em 2016 e 2017. respectivamente, os neonazistas brasileiros adotaram medidas de segurança para dificultar as ações policiais e de Inteligência”, constatou a Abin.
100 membros ativos em 2020 defendendo “revolução armada” A agência, naquele momento, tentava ainda decifrar qual seria o tamanho da ala mais violenta do grupo. “A Nova Resistência, representante da ideologia da Quarta Teoria Política, é movimento favorável aos valores tradicionais e à religiosidade e contrário ao liberalismo em todas as suas formas. Surgiu no Brasil, em 2014, e expandiu-se pelo território nacional tenda constituído células em vinte unidades da federação”, alertou. “Haveria, ao menos, uma centena de membros ativos promovendo ações de propaganda no país. O grupo defende a revolução armada como resistência popular legitima”, destacou a agência.
“Além da Nova Resistência, grupos de ideologia integralista têm ressurgido no país e demonstram tendencia a radicalização, como constatado a partir do ataque promovido a sede da produtora do humorístico “Porta dos Fundos”, em dezembro de 2019”, disse.
“Há indícios de que membros de grupos integralistas possuam vínculos com a Nova Resistência, que comentou o ataque em suas redes sociais como “inevitável”, afirmou a Abin.
Intolerância religiosa O informe também aponta como a intolerância religiosa de matiz não islâmica havia aumentado em 2019. “O uso de violência ou ameaça de violência tornou-se mais frequente, com emprego de armas de fogo, como fuzis e metralhadoras. Em alguns estados brasileiros, grupos criminosos organizados têm se envolvido em atos de intolerância religiosa com proibição de práticas de religiões de matriz africana territórios. Os eventos de intolerância religiosa são subnotificados, o que dificulta o monitoramento, análise e enfrentamento da ameaça”, afirmou.
Já naquele momento, a Abin destaca como a radicalização extremista violenta em ascensão no Brasil estava acontecendo nos fóruns da Internet e na deepweb. “Jovens, em sua maioria do sexo masculino, com histórico de problemas familiares, psiquiátricos e rejeição, encontram em grupos online um local de propagação de discursos radicais e de incentivo ao cometimento de massacres”, disse.
“Em 2019, os ataques à escola Raul Brasil, em Suzano/SP, representam o crescimento desse fenômeno. Após o atentado, ameaças de atos semelhantes espalharam-se pelos estados da federação. Em quase todos os estados, até o momento, foram relatados cerca de 80 incidentes. A maior parte deles restringiu-se a ameaças, os demais foram pequenas ações solucionadas pelas forças de segurança locais”, alertou.
Na web, a Abin havia identificado “uma mistura de ódio a gays, negros, mulheres e minorias em geral, apologia ao nazismo e à cultura dos “celibatários involuntários” (incels), símbolos do El, uso de roupas pretas e manifestações contrárias ao marxismo ou à esquerda”.
Projeção A Abin não disfarçava a preocupação com o aumento da violência no país. “Em 2020, é provável que atos de extremismo violento, baseados em ideologias difusas, aumentem no Brasil. Com o crescimento do fenômeno em nível internacional, a tendência é que novos grupos, movimentos e ideologias surjam no Brasil por espelhamento”, disse.
“Com relação ao anarquismo insurrecional, é provável que permaneça representando baixo nivel de ameaça, restringindo-se a atos pontuais e manifestações em ambiente virtual. No que concerne ao ecoextremismo, a tendência é de fortalecimento do movimento com a criação de novas células na América Latina e na Europa”, disse.
Mas o alerta principal vai para o movimento de extrema direita. “A mesma tendência verifica-se nos grupos ultranacionalistas e neonazistas, sendo essas as correntes que apresentam maior potencial de crescimento e fortalecimento”, completou.
Ecoterrorismo Um trecho do informe é ainda focado na ameaça do ecoterrorismo e às ameaças feitas contra o governo de Jair Bolsonaro.
“No Brasil, o expoente do ecoextremismo é a célula Sociedade Secreta Silvestre (SSS)”, disse.
“Já publicou onze comunicados, nos quais reivindicaram ataques com artefatos explosivos ou ameaças a autoridades públicas. Os fatos apontam para uma célula local, detentora de rede de apoiadores resilientes. Seus integrantes demonstram capacidade efetiva para empregar medidas de antivigilância”, apontou.
“Em 2019, a célula brasileira representou uma das principais ameaças no Brasil. Em janeiro de 2019, três suspeitos foram detidos em Alto Paraíso/GO, pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e pelo Departamento de Polícia Federal (DPF). após tentativa de ataque, em dezembro de 2018, contra o Santuário Arquidiocesano Menino Jesus, em Brazlândia/DF, e ameaças contra o presidente eleito, Jair Bolsonaro, e os então futuros ministros, Ricardo Salles e Damares Alves”, disse.
“Em abril de 2019, a célula reivindicou o incêndio de duas viaturas no posto da Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). na Floresta Nacional (Flona) de Brasília. A célula também fez novas ameaças aos ministros Ricardo Salles e Damares Alves. inclusive com ameaça de emprego de toxina biológica letal, e ameaçou de morte eventuais visitantes que realizem ecoturismo na Flona, principalmente, nos finais de semana”, completou.
*Jamil Chade/ICL
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Avaliação interna aponta que ações recentes dos EUA na América Latina podem se repetir no Brasil e influenciar o cenário eleitoral
247 – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a relação institucional com Washington não elimina o risco de uma eventual interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026. Integrantes do Palácio do Planalto consideram que, mesmo diante de gestos recentes de distensão, os Estados Unidos podem adotar estratégias semelhantes às observadas em eleições de outros países da América Latina.
A análise foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, que ouviu um alto funcionário do governo brasileiro. Segundo essa avaliação, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter feito apenas um recuo tático ao retirar parte das tarifas sobre produtos brasileiros e suspender sanções baseadas na Lei Magnitsky, após a tentativa frustrada de impedir a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No entendimento do governo brasileiro, a preocupação se baseia em precedentes recentes. Na eleição legislativa da Argentina, Trump condicionou a liberação de um pacote de ajuda financeira de US$ 20 bilhões a um bom desempenho eleitoral do partido do presidente Javier Milei. Já em Honduras, durante o pleito presidencial, Trump apoiou publicamente o candidato da ultradireita, Nasry “Tito” Asfura.
Nesse contexto, a presidente hondurenha, Xiomara Castro, afirmou que houve um “golpe eleitoral” motivado pela “interferência do presidente dos Estados Unidos”. Antes da votação, Trump declarou que a candidata governista, Rixi Moncada, era comunista e que sua eventual vitória entregaria o país à Venezuela.
Às vésperas da eleição em Honduras, Trump concedeu indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, aliado de Asfura, que havia sido condenado a 45 anos de prisão por tráfico de cocaína para os Estados Unidos. Passado quase um mês do pleito, o país ainda não tem um resultado oficial. Asfura lidera por margem estreita sobre o conservador Salvador Nasralla, enquanto uma apuração especial segue em andamento.
Na semana passada, o Departamento de Estado dos EUA revogou um visto e cassou outro de duas autoridades eleitorais hondurenhas ligadas ao partido de Xiomara Castro, sob a alegação de que estariam interferindo na apuração dos votos. Para o governo brasileiro, esse conjunto de ações reforça a necessidade de criar mecanismos de proteção contra possíveis interferências externas.
Entre essas medidas, autoridades citam a adoção de “vacinas”, como a ampliação da cooperação bilateral com os Estados Unidos no combate ao crime transnacional, anunciada recentemente. Segundo o 247, integrantes do governo disseram que essa estratégia também teve caráter preventivo para bloquear tentativas de grupos bolsonaristas de solicitar uma intervenção americana no Brasil sob o argumento do combate ao crime organizado.
O Planalto avalia que a agenda internacional terá um peso inédito na disputa presidencial de 2026. A percepção interna é de que Trump deve apoiar abertamente o candidato da direita brasileira, alinhado ideologicamente ao atual governo dos Estados Unidos.
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De acordo com a revista, “as reservas, que ainda estão sendo extraídas, impulsionaram o País no ranking dos produtores de petróleo”
Em reportagem publicada esta semana, a revista britânica The Economist destacou o potencial da Margem Equatorial para o crescimento econômico do Brasil. A região compreende a faixa litorânea dos seguintes estados: Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá.
“As reservas, que ainda estão sendo extraídas, impulsionaram o País no ranking dos produtores de petróleo. Até 2030, os campos ‘pré-sal’ do Brasil o tornarão o quarto maior produtor mundial de petróleo. A agência nacional de petróleo e gás do Brasil estima que a parte do País na Margem Equatorial contenha mais de 30 bilhões de barris de petróleo, dos quais 10 bilhões podem ser recuperáveis”, continuou.
“Graças a essa região, a América do Sul se tornou a parte do mundo onde a produção de petróleo cresce mais rapidamente. A previsão é que sua produção aumente em um terço até 2030, em comparação com cerca de um quarto no Oriente Médio e um décimo na América do Norte”, acrescentou.
Segundo a publicação, “a maioria dos habitantes do Amapá, Estado onde fica Oiapoque, está entusiasmada com o petróleo”. “Ao longo da rodovia que liga a capital do Estado à cidade, barracas de comida e casas em ruínas estão cobertas com adesivos que dizem ‘Sim ao desenvolvimento! Sim ao petróleo!’”, continuou.
A revista mencionou algumas previsões. “O Ministério de Minas e Energia do Brasil estima que os investimentos na Margem Equatorial podem chegar a R$ 280 bilhões (US$ 52 bilhões) e criar 350 mil empregos. Essas expectativas provavelmente explicam por que os brasileiros apoiam cada vez mais a perfuração”.
Petrobras
De acordo com Leonardo Lucena , 247, a publicação da revista britânica, “o principal local que a Petrobras está de olho, conhecido como Bloco 59, tem uma profundidade de cerca de 3 km”.
“Fica quase duas vezes mais abaixo da superfície do que o poço Deepwater Horizon, no Golfo do México”, publicou. “A Petrobras é líder mundial em perfuração em águas profundas, já que os campos do pré-sal ficam a uma profundidade de cerca de 2 km”.
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Abin mapeou fornecimento de Kalashnikov, caças e mísseis russos para os venezuelanos e alertou para estratégia do Kremlin de “retaliar” os EUA
Sob o governo de Jair Bolsonaro, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) monitorou, mapeou e alertou para o apoio militar que Vladimir Putin estava costurando ao governo de Nicolás Maduro. Num relatório de 2019, o serviço secreto nacional apontava como o Kremlin havia construído uma aliança militar com Caracas.
A informação faz parte de documentos da agência e que foram obtidos após uma longa batalha judicial pela Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública. Ao longo dos próximos dias, o ICL Notícias trará com exclusividade dezenas de informes, relatórios e dados até hoje mantidos como confidenciais pela Abin.
Em 2019, Bolsonaro havia estabelecido uma guinada na política externa brasileira, alinhando-se ao governo de Donald Trump. Naquele momento, em Washington e Brasília proliferaram reuniões para definir estratégias de pressão sobre Maduro, inclusive com o reconhecimento de Juan Guaidó como presidente da Venezuela.
Mas os documentos, agora, revelam que uma das preocupações brasileiras se referia à presença militar russa na região. Num relatório de Inteligência N° 0154/92130, de 2 de maio de 2019, a Abin destacava como a defesa da Venezuela por parte da Rússia possui “motivações econômicas e geopolíticas”.
“A posição russa integra estratégia para aumentar sua influência em área tradicionalmente prioritária na política externa dos EUA”, indicou. “A aliança com a Venezuela também representaria retaliação à interferência estadunidense em questões ocorridas na esfera de influência da Rússia, como na Crimeia”, constatou.
Segundo a Abin, a aproximação entre os dois países foi “liderada pelo setor de Defesa, cuja parceria ocorre no comércio de armas; na instalação de fábricas, de centros de treinamento e de manutenção de material bélico russo; e em exercícios militares conjuntos”.
A agência aponta como a cooperação militar abriu possibilidades de negócios também em outras esferas. A atuação russa na área econômica, além do setor de Defesa, ocorre principalmente nos campos energético e financeiro.
A avaliação da Abin foi, naquele momento, que as relações entre Rússia e Venezuela ganharam impulso com a tentativa venezuelana de se afastar da influência estadunidense. “A Rússia se mostrou um dos poucos países com desenvolvimento tecnológico de ponta na área militar disposto a resistir às pressões e ao embargo estadunidenses, embora o material vendido à Venezuela não seja o mais moderno do arsenal de guerra russo. Atualmente, há cooperação nas áreas militar, econômica e política”, destacou.
Os dados levantados pela agência de espionagem brasileira concluíram que:
Entre 2000 e 2017, a Venezuela foi o país que mais importou armamentos russos na América Latina, concentrando cerca de 80% dos US$ 4,7 bilhões exportados para a região.
No mesmo período, a Rússia também se posicionou como o maior fornecedor de armamentos para o governo venezuelano, respondendo por cerca de 70% do total de US$ 5,5 bilhões gastos, seguida pela China, com 11%. Comparando os períodos de 2009-2013 e 2014-2018, no entanto, verifica-se uma retração de 83% nas importações de armas por parte da Venezuela.
A empresa estatal russa Rosoboronexport, exportadora de armas e equipamentos militares, é a principal exportadora desses artigos para a Venezuela. Desde o acordo assinado em 2001, a Rússia forneceu armamentos e equipamentos como rifles de assalto Kalashnikov (AK- 103), caças Sukhoi, sistemas de mísseis antiaéreos Tor-M1 e helicópteros Mi.
Naquele ano de 2019, a Rosoboronexport estava finalizando a construção de fábrica de munições e fuzis Kalashnikov AK-103 na Venezuela. Embora o acordo para a construção da fábrica tenha sido assinado em 2006, sua construção foi interrompida em diversas ocasiões, tendo sido retomada em 2016.
No período de 2004 a 2016, estima-se entre US$ 11 e 14 bilhões o montante de capital investido pela Rússia na Venezuela na área militar.
Presença de militares russos Outro aspecto mapeado pela Abin foi a presença de militares russos na região. De acordo com os documentos, em 29 de março de 2019, a Rosoboronexport anunciou a inauguração do Centro de Instrução e Treinamento Simulado Conjunto General de Brigada Oscar José Martínez Mora, nas instalações do Batalhão de Helicópteros General de Brigada Florencio Jiménez, na cidade de San Felipe, a 230 km de Caracas. “O centro tem por objetivo fornecer treinamento e aperfeiçoamento para pilotos e engenheiros de voo de aeronaves russas modelos MI-17V5, MI-35M e MI-267”, disse.
A realização de exercícios militares conjuntos ganhou força a partir de 2008, quando a Rússia anunciou o envio de navios de guerra para realização de exercícios militares conjuntos com a marinha venezuelana.
“O intercâmbio militar e os exercícios conjuntos entre as duas nações foram intensificados recentemente”, destacou. “Em 10 de dezembro de 2018, uma aeronave de transporte militar An-124, um avião comercial da Força Aeroespacial russa e dois bombardeiros estratégicos TU-160 pousaram no Aeroporto Internacional de Maiquetía, na Venezuela. Em 2008 e 2013, bombardeiros similares também estiveram presentes no país”, constatou.
Vigilância de Israel A Abin ainda informou que, em 23 de março de 2019, dois aviões russos pousaram na Venezuela com cerca de 100 militares e aproximadamente 35 toneladas de equipamentos bélicos.
“Oficialmente, o governo russo declarou que a visita decorria da cooperação técnico-militar vigente desde 2001. O envio do contingente russo à Venezuela em março teria sido motivado por questões militares e técnicas. De acordo com imagens do sistema de vigilância satelital israelita iSi captadas em 07 de abril, na semana de 17 a 24 de mar. 2019 a Venezuela teria retirado o sistema antiaéreo russo S- 300 de armazém, na base Capitán Manuel Ríos, no estado de Guarico. As imagens identificaram lançador ereto, pronto para ser acionado, pertencente ao S-300”, disse.
Além do contingente encaminhado para a base Capitán Manuel Ríos, o governo russo está cooperando com a Venezuela na instalação de equipamentos de comunicação e radares de alerta para defesa antiaérea em Puerto Ordaz, no estado de Bolívar. Em 29 mar. 2019, 28 militares russos teriam se deslocado para o sul do país e se encontrado com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, para tratar sobre a situação da hidrelétrica de Guri.
Ao menos 14 militares russos, do contingente de aproximadamente 100, encontram-se na cidade de Guayana/Venezuela. Os russos estariam trabalhando em cooperação com cubanos para a construção do projeto Escudo Guayanês. O projeto consiste na elaboração e construção de centro de resistência militar, que deverá ser dotado de equipamentos de comunicação satelital, para a hipótese de invasão estrangeira.
A Abin ainda apontou que também haveria especialistas em guerra cibernética, os quais estariam atuando no treinamento das contrapartes venezuelanas para a proteção das infraestruturas críticas do país.
“Ademais, existiriam civis e militares russos no Exército venezuelano que auxiliariam em treinamentos de espionagem e na segurança de altos funcionários do governo venezuelano e prestariam assessoria à Direção Geral de Contrainteligência Militar (DCIM) e ao Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin)”, concluiu.
Investimentos russos Outro destaque da Abin foi o volume de apoio econômico recebido pela Venezuela. “Entre investimentos e empréstimos, estima-se que a Rússia teria dado suporte financeiro de aproximadamente US$ 17 bilhões à Venezuela”, apontou.
Segundo a agência, o governo russo intensificou investimentos no setor energético venezuelano, principalmente por meio da atuação da empresa estatal russa Rosneft.
O governo russo ainda possui 49,9% das ações da empresa Citgo, subsidiária da petrolifera estatal venezuelana Petróleos de Venezuela (PDVSA), situada nos Estados Unidos e alvo de sanções. Justamente por temer sanções econômicas impostas por países europeus, o governo venezuelano ainda planejava mudança da filial europeia da PDVSA de Portugal para Moscou.
Em 5 abr. 2019, os dois países estabeleceram parcerias comerciais para enfrentar as sanções econômicas da UE e dos EUA, bem como acordos na área energética. O país sul-americano também pediu auxílio na reposição de peças do seu sistema elétrico.
Desde então, o governo Maduro vem utilizando o Evrofinance Mosnarbank, instituição financeira russa, como alternativa para o manejo dos pagamentos a seus fornecedores.
“O banco é usado em transações que envolvem o financiamento de projetos petrolíferos e na compra de títulos da Venezuela e da PDVSA”, explicou a Abin.
Como foram obtidos os documentos O acesso aos documentos da Abin ocorreu depois de seis anos de batalha por parte da Fiquem Sabendo e é considerado como um divisor de águas para a transparência no Brasil.
A ação segue tramitando para garantir que todos os documentos sejam entregues, sem tarjas e n íntegra, como é o caso ainda de vários informes.
Documentos classificados são informações públicas que, por motivos de segurança da sociedade ou do Estado, são temporariamente mantidas em sigilo. Os documentos obtidos já foram desclassificados e, portanto, estão fora do prazo de sigilo. De fato, entre 2014 e 2020, mais de 400 mil documentos federais perderam o sigilo.
Mas o acesso nem sempre está garantido. Assim, o projeto Sem Sigilo começou em 2019, quando a entidade convocou voluntários para pedir documentos cujo prazo de sigilo expirou. A iniciativa coletou milhares de páginas de dezenas de órgãos, mas enfrentaram resistência de entidades como Abin, GSI, Ministério da Defesa, Forças Armadas, Polícia Federal e Itamaraty.
Em 2020, eles ajuizaram uma ação contra a Abin. A ideia era enfrentar o órgão mais resistente à transparência pública porque apostavam que, se ganhassem, outros cairiam por gravidade.
Em 2021, o MPF acolheu parcialmente os argumentos e sugeriu que a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), do Congresso, analisasse os documentos. Corretamente, o Congresso se recusou, afirmando não ser sua competência.
Em 2023, a ação sofreu uma derrota em primeira instância. A Justiça aceitou o argumento da União de que a Abin poderia decidir sozinha o que divulgar ou não — mesmo contrariando o texto da LAI.
Mas, em maio de 2025, a 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) acatou o pedido e condenou, por unanimidade, a União e a Abin a entregar um conjunto de documentos mantidos ilegalmente sob sigilo.
A decisão tem um impacto profundo, já que:
Estabelece jurisprudência: é a primeira decisão em nível federal que reafirma que nenhum órgão está acima da LAI — e que seus prazos não são opcionais.
Cria precedente: o entendimento agora pode ser replicado para cobrar outros órgãos que seguem descumprindo a Lei, como o Itamaraty e as Forças Armadas.
Desmonta o sigilo eterno: reafirma que a transparência é a regra, e o sigilo, a exceção — com prazo.
*Jamil Chade/Uol
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Abin destacava a pressão de Washington contra Assunção por conta da “suposta transigência com o financiamento do terrorismo”
Os governos dos EUA e de Israel colocaram pressão sobre o Paraguai por conta da suposta existência de bases de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira, envolvendo ainda o Brasil e a Argentina.
A informação faz parte de documentos da agência e que foram obtidos após uma longa batalha judicial pela Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública.
Nesta semana, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio assinou um acordo de cooperação militar entre os EUA e o Paraguai, levantando preocupações no Itamaraty sobre o envolvimento de forças armadas americanas cada vez mais próximas das fronteiras do país.
Em maio de 2025, o governo de Donald Trump lançou sua primeira ação de combate ao terrorismo na Tríplice Fronteira, oferecendo uma recompensa permanente de até US$ 10 milhões por informações que “levem ao rompimento dos mecanismos financeiros da organização terrorista Hezbollah”, em especial no Brasil e região.
O foco é o financiamento de grupos ligados ao Irã que, nos últimos meses, passou a ser alvo de medidas da Casa Branca num esforço para asfixiar o regime de Teerã.
Mas o assunto estava no radar de Trump desde seu primeiro mandato. No relatório de inteligência N° 0063/92300 de 15 de fevereiro de 2019, a Abin destacava a pressão de Washington contra Assunção por conta da “suposta transigência com o financiamento do terrorismo”.
“Membros do governo paraguaio têm se mostrado cada vez mais incisivos em seus posicionamentos contra a pressão política conduzida pelos governos dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel no tocante aos temas relativos à segurança na região da Tríplice Fronteira (TF) Brasil-Paraguai-Argentina”, afirmou o documento.
Segundo a Abin, a manifestação do desconforto das autoridades de segurança paraguaias aconteceu em janeiro daquele ano, numa reunião na sede do Banco Central do Paraguai, em Assunção.
“O evento, realizado anualmente sob os auspícios dos EUA, aconteceu pela terceira vez na América do Sul e, pela primeira vez, no Paraguai. A edição de 2019, iniciativa argentina e estadunidense para a discussão de questões transacionais, especialmente financiamento ao terrorismo e lavagem de dinheiro, serviu também como preparatória da visita técnica do Grupo de Acción Financiera de Latinoamérica (Gafilat), que ocorrerá este ano no Paraguai”, explicou a agência.
Durante o encontro, as autoridades paraguaias deixaram claro “o desconforto com respeito às reiteradas alegações da presença do Hezbollah no país”. “As ilações normalmente estão associadas a atividades de contrabando e lavagem de dinheiro operadas por pessoas supostamente vinculadas ao grupo político-militar. Vários ministros têm se manifestado quanto à inexistência de provas. até o momento, sobre a atuação direta do Hezbollah no país, sendo a mais enfática a ministra Mara Epifanía González, da Secretaria de Prevenção de Lavagem de Dinheiro Bens (Seprelad)”, disse.
O ministro Esteban Aquino Bernal, da Secretaria Nacional de Inteligência (SNI), também foi duro e destacou a “inexistência de provas concretas até o momento, não descartando porém, a possibilidade de que libaneses pertencentes à tradicional comunidade muçulmana da região venham a ter algum tipo conexão com o grupo”.
A Abin apontou que, “não obstante seu posicionamento, Esteban Aquino apresentou de forma superficial casos envolvendo pessoas possivelmente relacionadas com o Hezbollah na lavagem de dinheiro na Tríplice Fronteira, não tendo, contudo, revelado dados que evidenciassem tal relação”.
“Ele destacou os riscos de criminalizar pessoas, em particular, e a região de maneira generalizada, além de assegurar que o dinheiro envolvido nos casos citados leve como intermediários organizações não governamentais atuantes no Paraguai e instituições do sistema bancário dos EUA”, insistiu o informe.
A Abin ainda informou que “logo após fazer tais referências, sua fala teria sido cortada a pedido da organização sob alegação de esgotamento do tempo estipulado para sua palestra”.
“É provável que o aumento da pressão sobre o Paraguai tenha ainda cunho retaliatório sobre o atual presidente da República, Mario Abdo Benitez, o qual, no início de seu mandato. determinou o retorno da embaixada paraguaia em Israel de Jerusalém para Tel Aviv”, avaliou a Abin.
“A despeito de admitir a existência de pressões sobre o Paraguai, inclusive de organizações não governamentais estadunidenses, o embaixador dos EUA no país afirma que tais pressões não provêm do seu governo. Segundo o embaixador, oficialmente, o governo dos EUA não acusa o Paraguai de leniência em relação a financiamento do terrorismo, mas somente em relação a lavagem de dinheiro”, completou a nota.
Como foram obtidos os documentos O acesso aos documentos da Abin ocorreu depois de seis anos de batalha por parte da Fiquem Sabendo e é considerado como um divisor de águas para a transparência no Brasil.
Documentos classificados são informações públicas que, por motivos de segurança da sociedade ou do Estado, são temporariamente mantidas em sigilo. Os documentos obtidos já foram desclassificados e, portanto, estão fora do prazo de sigilo. De fato, entre 2014 e 2020, mais de 400 mil documentos federais perderam o sigilo.
Mas o acesso nem sempre está garantido. Assim, o projeto Sem Sigilo começou em 2019, quando a entidade convocou voluntários para pedir documentos cujo prazo de sigilo expirou. A iniciativa coletou milhares de páginas de dezenas de órgãos, mas enfrentaram resistência de entidades como Abin, GSI, Ministério da Defesa, Forças Armadas, Polícia Federal e Itamaraty.
Em 2020, eles ajuizaram uma ação contra a Abin. A ideia era enfrentar o órgão mais resistente à transparência pública porque apostavam que, se ganhassem, outros cairiam por gravidade.
Em 2021, o MPF acolheu parcialmente os argumentos e sugeriu que a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), do Congresso, analisasse os documentos. Corretamente, o Congresso se recusou, afirmando não ser sua competência.
Em 2023, a ação sofreu uma derrota em primeira instância. A Justiça aceitou o argumento da União de que a Abin poderia decidir sozinha o que divulgar ou não — mesmo contrariando o texto da LAI.
Mas, em maio de 2025, a 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) acatou o pedido e condenou, por unanimidade, a União e a Abin a entregar um conjunto de documentos mantidos ilegalmente sob sigilo.
A decisão tem um impacto profundo, já que:
Estabelece jurisprudência: é a primeira decisão em nível federal que reafirma que nenhum órgão está acima da LAI — e que seus prazos não são opcionais.
Cria precedente: o entendimento agora pode ser replicado para cobrar outros órgãos que seguem descumprindo a Lei, como o Itamaraty e as Forças Armadas.
Desmonta o sigilo eterno: reafirma que a transparência é a regra, e o sigilo, a exceção — com prazo.
*Publicado com exclusividade por Jamil Chade no ICL
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Atendendo ao pedido de Lula, governo dos Estados Unidos retirou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, da lista de sanções vinculadas à Lei Magnitsky.
O comunicado oficial divulgado pelas autoridades norte-americanas não apresentou as razões para a decisão.
A Lei Magnitsky é um instrumento usado pelo governo americano para aplicar sanções a estrangeiros acusados de violações de direitos humanos ou corrupção. Alexandre de Moraes havia sido incluído nessa lista em julho deste ano, junto com Viviane.
A inclusão de Moraes na lista havia ocorrido em meio a pressões de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo junto a republicanos e de aliados do bolsonarismo nos Estados Unidos, que acusavam o ministro de supostas violações de direitos humanos em decisões relacionadas a investigações sobre atos antidemocráticos no Brasil.
Eduardo sai humilhado completamente por seu ídolo. Trump não gosta de perdedores.
As sanções, se mantidas, poderiam resultar em restrições financeiras, bloqueio de bens e limitações de entrada em território americano.
A legislação é destinada a punir autoridades estrangeiras envolvidas em violações graves de direitos humanos ou corrupção sistêmica, o que não foi caracterizado nos atos atribuídos ao magistrado brasileiro, segundo o DCM.
No Brasil, a decisão é um gesto de distensão nas relações institucionais entre os dois países e um revés para a estratégia internacional de setores que tentavam enquadrar decisões do STF como perseguição política.
Na ocasião em que a sanção foi aplicada, o governo Trump afirmou que a medida estava relacionada ao processo em curso no Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, então réu por tentativa de golpe de Estado após a derrota para Lula nas eleições de 2022.
Em setembro deste ano, Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão e passou a cumprir pena na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Sua última esperança de Trump salvá-lo foi enterrada como fezes de gato.
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Venezuela sob ataque, Brasil sob ameaça: a escalada de Trump no Caribe é um risco para toda a região
perspectiva de uma desestabilização da Venezuela, já concretamente posta no horizonte pelo ensaio de bloqueio naval que o governo Donald Trump impõe ao país, com navios de guerra e submarinos nas proximidades da costa venezuelana, além de milhares de soldados de prontidão, não é uma questão que diz respeito só à natureza do regime venezuelano, nem unicamente ao futuro dos venezuelanos – ela diz respeito ao futuro de toda a região, e assim deveria ser tratada pelos líderes latino-americanos.
As ações criminosas do governo norte-americano, que até aqui mataram quase uma centena de pessoas no Mar do Caribe, já têm impacto regional, na medida em que servem de ameaça e intimidação não só contra a Venezuela, mas contra todos os países da região, incluindo o Brasil. A atual campanha de desestabilização contra o país se sustenta em dois vetores retóricos: por um lado, a mentirosa tese de que o país seria um “narcoestado”; por outro, o de que seria uma ditadura.
Como demonstram diversos relatórios, inclusive da ONU e do próprio Departamento de Estado dos EUA, a Venezuela não só não é um corredor relevante do narcotráfico – a principal rota de tráfico para os EUA passa pelo Pacífico, não pelo Caribe – como também conseguiu, nos últimos quinze anos, se consolidar como um território livre do cultivo de folha de coca, maconha e processamento de cocaína.
Por outro lado, o uso do manto da “guerra contra as drogas” para encobrir ações militares criminosas e unilaterais por parte dos EUA deveria preocupar os brasileiros: ao contrário de nosso vizinho, o Brasil é uma das principais rotas de tráfico de drogas da América do Sul para a Europa, África e Ásia, e suas organizações criminosas, como o PCC e o CV, têm relações importantes com cartéis internacionais que operam ao menos parcialmente nos EUA.
De fato, cresce a pressão por parte dos EUA para que o Brasil classifique suas organizações criminosas como organizações terroristas, e há um projeto de lei (PL 1283/2025) no Congresso para expandir a conceituação de “terrorismo” na lei brasileira, incluindo nela a atuação de organizações criminosas e milícias privadas – o que ampliaria o espaço para o intervencionismo norte-americano em nosso país. Se a Venezuela, um país de pouca relevância no narcotráfico global, pode ser atacada sob a desculpa do combate ao narcotráfico, por que não poderia também o Brasil, que tem organizações criminosas muito mais relevantes a nível global que seu vizinho?
Além disso, os últimos meses demonstraram aos brasileiros, de forma inédita desde o golpe de 1964, tanto como o imperialismo utiliza a “democracia” para seus impulsos intervencionistas como o quanto a extrema-direita está disposta a aliar-se objetivamente aos interesses imperialistas nas suas disputas pelo poder interno – mesmo quando isso signifique tomar postura abertamente antinacional. Nesse sentido, sim, descobrimos que o Brasil “se tornou uma Venezuela” – não pela natureza do governo, mas pela natureza de sua oposição.
A atuação bolsonarista nos Estados Unidos por sanções e tarifas contra o Brasil e a adoção dessas medidas pelo governo norte-americano, buscando pressionar o governo brasileiro e o STF, foram uma constante por parte da oposição venezuelana nos últimos anos. Assim como os bolsonaristas atuaram nos últimos meses, junto ao governo Trump, pela aplicação de tarifas contra o Brasil, também fez a Assembleia Nacional opositora na Venezuela em 2016: em 23 de outubro daquele ano, declarando-se “em rebelião” contra o governo, o Poder Legislativo do país oficialmente fez um pedido a todos os organismos internacionais para que aplicassem sanções contra o próprio país.
É como se a infame campanha por tarifas contra o Brasil por parte de Eduardo Bolsonaro nos EUA não fosse uma campanha de um deputado, mas do Congresso brasileiro inteiro. Nunca é demais recordar que os efeitos das sanções não são focalizados nos líderes que elas em tese buscam atingir: um estudo da respeitada revista acadêmica The Lancet calculou em 38 milhões o número de mortos por sanções norte-americanas e europeias entre 1970 e 2021; também publicado na The Lancet, um outro estudo aponta que as sanções matam aproximadamente 564 mil pessoas por ano no mundo todo; e na Venezuela, somente entre 2017 e 2018, elas podem ter matado 40 mil pessoas. É dizer: Venezuela e Brasil têm em comum o fato de se enfrentarem com uma extrema-direita disposta a aliar-se ao imperialismo para matar seu povo.
Chama à atenção também como a crise de poderes na Venezuela em 2016, com a disputa entre Executivo, Judiciário e a Assembleia Nacional, é semelhante à recente crise de poderes no Brasil em torno do tema da anistia: como escrevia Monica Yanakiew então, “a nova Assembleia Nacional, de maioria opositora, aprovou uma lei de anistia e reconciliação nacional para libertar mais de 100 de seus líderes acusados de conspirar contra o governo ou incentivar a violência.
Maduro não só vetou a lei, como afirmou que o Parlamento carece de legitimidade porque desacatou uma ordem do Supremo Tribunal. O conflito de Poderes se deu quando três deputados oposicionistas, cuja eleição foi questionada pela Justiça, tomaram posse – apesar de a Justiça ter decidido o contrário. A oposição acusa o Judiciário de estar a serviço de Maduro e considera que a suspensão do referendo revogatório foi uma manobra para adiar a sua realização.” Hoje, os Estados Unidos, citando “preocupações com a democracia e a liberdade”, impõem tarifas ao Brasil, em conluio com a extrema-direita nativa, que as solicita. Se Trump pode movimentar navios de guerra e autorizar operações da CIA contra a Venezuela sob a fachada da defesa da democracia, porque não poderia fazê-lo também contra o Brasil? Mais importante do que dizer que os EUA mentem, seja sob a desculpa de “combater o narcotráfico e o terrorismo”, seja sob a fachada da defesa da democracia, é reconhecer que podem mentir sobre qualquer um.
Mas há mais razões pelas quais um ataque de Trump contra a Venezuela afetaria o Brasil. Qualquer ação militar contra a Venezuela imediatamente tensionaria os 2,2 mil km de fronteiras de nossos países, nos estados de Roraima e Amazonas – para que se tenha dimensão, trata-se de uma fronteira maior que a que separa Rússia e Ucrânia, de 1,9 mil km. A possibilidade de eventuais combates na proximidade das fronteiras dos países e especialmente o quase certo aumento do fluxo migratório obrigariam um reforço da presença militar brasileira na região – imaginar uma eventual operação de Garantia da Lei e da Ordem em tal cenário, e um fortalecimento da tutela dos militares frente ao governo, sempre auxiliada pelo atual ministro da Defesa, José Múcio, não é absurdo.
Na medida em que a guerra se instaurasse no país vizinho e a importância e peso das Forças Armadas aumentasse repentinamente na cena política brasileira, estaria desfeito todo o esforço do governo Lula, desde que tomou posse, para cozinhar a questão militar em banho-maria; ao mesmo tempo, o fato de não ter avançado nenhuma reforma relevante nas Forças Armadas restringiria, neste cenário, as opções estratégicas do próprio governo quanto a como atuar frente à agressão americana. Ou por acaso é lícito supor que os militares brasileiros aceitariam tranquilamente, por exemplo, reforçar as linhas logísticas de uma Venezuela sob ataque norte-americano, se esta fosse a decisão do presidente?
É provável ainda que uma agressão à Venezuela levasse a um cenário de guerra prolongada ou de guerra civil no país, tornando a necessidade de reforçar a presença militar do lado brasileiro mais perene.
O elemento mais importante da Defesa venezuelana do ponto de vista estratégico é a Milícia Nacional Bolivariana (MNB), braço de reserva e não-convencional integrado aos outros componentes da Força Armada Nacional Bolivariana, mas relativamente autônomo. Formada por voluntários, reservistas e civis, a MNB é voltada para o combate irregular num cenário de agressão ao país; é o componente responsável por tornar cada cidadão um possível combatente.
Como escreveu Euclides Vasconcelos nesta Revista Opera, “são grupos pequenos e destinados a funções concentradas, como a defesa de uma fábrica ou estrada de importância estratégica ou ainda, se necessário for, a destruição desta mesma fábrica ou estrada para evitar que caiam em mãos inimigas. Esse caráter concentrado equivale à noção de ‘vespeiro’ onde a população em armas é a responsável por importunar as forças inimigas onde quer que elas estejam. Assim, mesmo que as forças armadas do país sejam derrotadas, o processo de ocupação inimiga será por demais custoso.”
Em agosto, o presidente venezuelano Nicolás Maduro anunciou a mobilização de 4,5 milhões de tropas na MNB. O site venezuelano TalCual estimou o contingente em 700 mil; a CIA, entre 200 e 225 mil. Independentemente de qual seja a cifra real, estamos falando de centenas de milhares de venezuelanos comuns, dispostos e com preparo prévio para atuar no apoio às forças convencionais, como forças guerrilheiras ou clandestinamente em ações de sabotagem, assassinatos, atentados, etc.:
Significa dizer que qualquer um que busque ocupar militarmente o terreno venezuelano haverá de supor que sua retaguarda virtualmente está sempre prejudicada; que o inimigo pode ser qualquer um; o taxista, a aposentada, a camponesa, o indígena. Em resumo, a Milícia Nacional Bolivariana é quase uma garantia de que uma agressão em terra seria confrontada por uma guerra irregular de caráter prolongado. E mesmo que alcançasse o objetivo de implodir rapidamente o centro de poder do país, a perspectiva de uma guerra civil, possivelmente envolvendo grupos militares diversos, não seria tampouco descartável.
A probabilidade da instauração de um desses cenários impõe, a partir do campo militar, um provável esgotamento dos objetivos políticos de uma agressão à Venezuela – isto é, a exploração de suas reservas de petróleo, as maiores do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris –, na medida em que a estabilidade da produção e especialmente do escoamento da commodity estaria ameaçada. O Cinturão de Orinoco, onde o grosso da reserva de petróleo venezuelano está localizada, cobre uma área de 55 mil quilômetros quadrados, se estendendo por quatro estados venezuelanos, com uma área produtiva disposta em 11,5 mil quilômetros quadrados. Por sua vez, a menor distância entre o campo e a costa caribenha em linha reta se estende por cerca de 140-160 quilômetros, oferecendo amplas oportunidades para ações de sabotagem.
Mapa do Norte da Venezuela, mostrando a Faixa Petrolífera do Orinoco (em vermelho) e suas quatro principais áreas: Machete, Zuata, Hamaca e Cerro Negro. (Fonte: Definition of a 3D Integrated Geological Model in a Complex and Extensive Heavy Oil Field, Oficina Formation, Faja de Orinoco, Venezuela – Jean-Paul Bellorini, Jhonny E. Casas, Patrick Gilly, Philippe Jannes, Paul Matthews, David Soubeyrand e Juan Carlos Ustariz)
O Brasil como mediador Não parece casuístico que a “química” entre Trump e Lula tenha surgido no mesmo momento em que as operações norte-americanas no Caribe avançavam, nem que Trump tenha reduzido as tarifas contra o Brasil ao mesmo tempo em que desloca o maior porta-aviões do mundo para o Caribe: a irresistível “química” parece ter outro nome; Venezuela. O ataque tarifário ao Brasil e o ensaio de cerco naval à Venezuela se coadunam em dois sentidos: num deles, os ataques ao vizinho relembram ao Brasil tarifado até onde os EUA podem ir, estimulando que o governo Lula se disponha à negociação; no outro, as tarifas servem de alavanca para que o Brasil adote uma postura mais amigável a Washington na questão venezuelana, com a retirada das tarifas servindo como estímulo.
Durante os governos Bush (2001-2009) e os dois primeiros mandatos de Lula (2002-2010), o Brasil se posicionou como um mediador nas relações entre EUA e Venezuela, buscando – e em boa medida conseguindo – restringir as tensões entre os países. Efetivamente, a diplomacia brasileira usava as posições antiimperialistas venezuelanas e seu ensejo integracionista, que avançava na forma de parceria com países latino-americanos, especialmente no Caribe e na América Central, como forma de se credenciar com os EUA como um parceiro alternativo na região – o que incluiu algum nível de coordenação do Brasil com os EUA sobre a Venezuela, com o Brasil atuando por vezes como garoto de recados de Washington. Lula manteve boas relações comerciais e diplomáticas com Chávez, mas buscou também se diferenciar e superar a influência do líder bolivariano na região, e houve episódios de tensão entre os países: como nas críticas venezuelanas às parcerias Brasil-EUA em torno do etanol e a convocação do embaixador venezuelano após Chávez criticar o Congresso brasileiro.
Hoje, o espaço para a mediação é muito menor. Não só pelas “tensões” já envolverem ações militares e a promessa de uma intervenção direta, mas também porque o Brasil, no terceiro mandato de Lula, vem fustigando a Venezuela com recorrência, como se viu na posição adotada pelo governo após as eleições venezuelanas e no veto à entrada do país no BRICS. Assim, qualquer mediação brasileira deverá ser vista pela Venezuela com um pé atrás, e com razão: o Brasil adotou tais posições, afinal, sem as pressões de Trump; que estaria disposto a fazer sob elas?
Ao fim, seja qual forma ele termine por tomar, o ataque à Venezuela é um ataque ao Brasil, não só na medida em que é uma demonstração do que o império poderia fazer contra nós, mas também na medida em que nos influencia direta e gravemente – inclusive com efeitos na cena política interna do Brasil.
O governo Lula até pode buscar agir como mediador, mas mesmo isso exige tomar uma postura clara de solidariedade prática com a Venezuela – o país agredido unilateralmente por Trump, não o agressor – e contra o intervencionismo que, afinal, também atinge o Brasil. Qualquer afabilidade com uma agressão imperialista a qualquer país da região, além de ser vista como a traição que efetivamente seria por todos os outros países, na prática estimulará o intervencionismo trumpista também contra o Brasil, quando o momento lhe convir.
*Pedro Marin/Opera Mundi
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O relatório “Desafios de Inteligência – Edição 2026”, produzido pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), alerta que o avanço do crime organizado transnacional, combinado as fragilidades institucionais e interferência externa, ameaça a autonomia política da América Latina. O documento afirma que essas vulnerabilidades podem ser usadas como justificativa para intervenções sob o argumento de combater o “narcoterrorismo”.
A agência aponta que sua função é assessorar o presidente com informações estratégicas em áreas como fronteiras, terrorismo e narcotráfico. “A região enfrenta pressões por alinhamentos e está exposta à interferência de potências estrangeiras, que exploram fragilidades internas — como dissidências políticas e o avanço do crime organizado — sob pretextos securitários (como o ‘narcoterrorismo’) para minar a soberania e a autodeterminação política”.
Segundo a coluna de Paulo Cappelli no Metrópoles, embora o texto não cite Venezuela ou Estados Unidos, a Abin manifestou ao Planalto preocupação com movimentos de Washington. A Polícia Federal compartilhou avaliação semelhante com o presidente Lula.
Para integrantes da cúpula da PF, há supostos interesses financeiros dos EUA por trás de ofensivas militares recentes na região. A Abin relaciona esse cenário a episódios em que tensões internas se sobrepõem a disputas por recursos estratégicos e ao aumento de pressões políticas, econômicas e militares de potências estrangeiras sobre governos que buscam autonomia.
Nos últimos meses, os EUA realizaram bombardeios no Caribe contra embarcações atribuídas ao narcotráfico e elevaram o tom contra a Venezuela. O presidente Donald Trump afirmou que ataques terrestres podem ocorrer “muito em breve”, citando críticas ao regime de Nicolás Maduro e ao que chama de “narcoterrorismo”.
A Abin acredita que maior integração regional ajudaria a reduzir vulnerabilidades e equilibrar forças diante de potências externas.
O relatório alerta ainda para o risco de militarização indireta da Amazônia. De acordo com o DCM, a agência aponta que argumentos ambientais podem ser usados como pretexto para intervenções, sobretudo em áreas sensíveis e ricas em recursos naturais. Esse movimento, segundo o documento, amplia preocupações sobre soberania territorial.
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Presidentes discutiram taxação, sanções e cooperação no combate ao crime organizado; segundo o republicano, ‘muita coisa boa resultará da parceria recém-formada’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta quarta-feira (03/12) que espera “boas notícias” sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, um dia depois que realizou uma conversa telefônica com seu homólogo norte-americano Donald Trump. A posição foi dada em entrevista à TV Verdes Mares, de Fortaleza, onde cumpre uma visita oficial.
“Eu conversei seriamente com o presidente Trump sobre a necessidade do fortalecimento das duas maiores democracias do Ocidente, Brasil e Estados Unidos”, disse o mandatário, acrescentando otimismo quanto ao possível fim da medida. “Não tem sentido essa taxação, e eu disse para ele que é importante rever isso”.
Em relação à possibilidade de novos anúncios sobre eliminação de produtos taxados, Lula disse que “muita coisa vai acontecer”. “Você está vendo o meu sorriso de Mona Lisa, é porque estou convencido de que vão acontecer boas novidades”, afirmou.
Na terça-feira (02/12), Lula conversou com o republicano por cerca de 40 minutos, conforme o comunicado emitido pelo Planalto, no contexto da reaproximação entre os dois países após o tarifaço anunciado em julho por Washington.
“Da mesma forma que o povo brasileiro teve uma notícia ruim quando o presidente Trump anunciou a taxação, eu acho que está perto de a gente ouvir uma notícia boa, além de tirar alguns produtos nossos da taxação, o que ele fez”, apontou.
*Opera Mundi
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