É o retrato mais cruel do Brasil de 2026: o assalariado que mal consegue pagar uma consulta no posto de saúde agora torce contra o SUS, faz campanha pelo patrão, vota no candidato do patrão e, quando o chefe vira deputado ou senador, aplaude a bancada que precariza seus direitos e o transforma em mão de obra descartável.
Enquanto isso, o mesmo trabalhador é empurrado para o abismo das apostas online. As bets explodiram no vácuo deixado pelo governo Bolsonaro e hoje são blindadas por uma poderosa “bancada das bets” no Congresso. O resultado está à vista: famílias inteiras endividadas, lares destruídos, depressão e suicídios provocados pelo vício que cabe no bolso de qualquer celular.
E o escárnio não para por aí.
Enquanto o povo quebra as contas com o “jogo do tigrinho”, a cúpula do Congresso viaja de jatinho privado com um dos maiores empresários do setor de apostas. O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira foram flagrados em um voo vindo de São Martinho, paraíso fiscal no Caribe, propriedade do gigante “Fernandin OIG”. Cinco malas desembarcaram sem raio-X, sem inspeção, por ordem direta de um auditor fiscal — exatamente no período em que o Congresso discutia a regulamentação das bets.
Suspeita de contrabando, descaminho e favorecimento escandaloso? O caso foi parar nas mãos de Alexandre de Moraes por conta do foro privilegiado.
Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro, nome que ainda seduz parcelas da classe trabalhadora, acumula denúncias de rachadinhas, relações com milícias e atua como ponte para a liberação de cassinos e bingos. Pior: é relator da PEC das Praias, texto que pode entregar terrenos de marinha à iniciativa privada — abrindo caminho para resorts e grandes cassinos à beira-mar. Privatiza-se a praia pública, instala-se o cassino físico ao lado do digital que já rouba o salário do povo.
É o ciclo perfeito da exploração: primeiro endividam o trabalhador com bets, depois tiram seus direitos trabalhistas, depois destroem o SUS que ele tanto precisa e, por fim, transformam até a praia — último espaço de lazer gratuito — em playground de especuladores e da máfia dos jogos.
Como alertou Marilena Chauí, democracia exige igualdade, liberdade e participação consciente. O que vivemos hoje é a versão perversa dessa equação: o trabalhador, sem igualdade e sem consciência plena, torce contra si mesmo. Torce contra o SUS que um dia pode salvar sua vida. Torce contra direitos que um dia impediram sua exploração total. E entrega seu salário suado para o mesmo sistema que o humilha e o descarta.
O povo precisa acordar urgente. Antes que o último direito vire aposta perdida e a praia que era de todos vire muro de resort com cassino ao fundo — enquanto o trabalhador segue torcendo contra ele próprio.
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Em discurso eleitoreiro, Flávio Bolsonaro mentiu sobre ação da AGU na fraude contra aposentados. Messias mostrou documento e desconcertou senador, que ainda pediu anistia ao pai, Jair Bolsonaro, durante a sabatina.
Na tentativa desenfreada de transformar a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em palanque eleitoral, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi desmentido pelo Advogado-Geral da União (AGU) Jorge Messias, indicado por Lula para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Em sua intervenção, recheada de chavões para incitar aliados, Flávio perguntou sobre a ação da AGU contra os golpistas do 8 de Janeiro, a anistia ao pai, Jair Bolsonaro (PL), comandante da tentativa de golpe, e, por fim, sobre a fraude no INSS.
Ao falar sobre a ação da AGU contra as entidades que lesaram os aposentados no esquema que teve início no governo de Bolsonaro e só foi investigado a partir de 2023, com Lula, Flávio indagou porque Messias teria deixado de fora o “Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos, que tinha como vice-presidente o senhor José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, por acaso irmão do presidente Lula”.
Na resposta, Messias desmentiu Flávio Bolsonaro, informando até mesmo o número do processo da AGU que inclui o Sindnapi na investigação.
“O senhor me questionou se eu pedi ou não pedi bloqueio de valores do Sindnapi. Eu quero afirmar categoricamente que pedi e digo aqui até o número da ação. A ação 111 40 43 73 2025 4 0 1 34 0 0 contra o sindicato e seus dirigentes foi protocolada perante a Justiça Federal. A advocacia geral da União cumpriu o seu papel de forma absolutamente técnica e republicana. Nós apresentamos três lotes de ações cobrando integralmente de todos os, é, de todas as entidades envolvidas com a fraude de aposentados e pensionistas”, afirmou Messias.
Em seguida, ele afirma que colocará o documento, que é público, à disposição dos senadores e lembrou que o governo Lula bloqueou mais de R$ 2,3 bilhões das entidades.
“E quero dizer também que nesta neste processo nós já conseguimos devolver mais de R$ 4,5 milhões de aposentados e pensionistas, os valores que foram indevidamente descontados integralmente corrigidos”, emendou.
Golpistas e anistia Ao responder sobre os golpistas presos pelo 8 de Janeiro, condenados pelo STF, Messias disse que Flávio tem “a sua compreensão jurídico-política”, que contraria a decisão judicial
“Efetivamente, as pessoas que foram presas no 8 de janeiro, elas foram submetidas a um processo, foram processadas, muitas foram condenadas, algumas assinaram acordo de não persecução penal, algumas estão presas ainda. E essa é uma situação, evidentemente, porque a prisão em si e o processo penal sempre carrega uma tragédia pessoal e familiar, nós não podemos desconhecer.
O que eu posso dizer em relação a este caso, até porque não posso antecipar julgamento no sentido de não me colocar em posição de impedimento, é que o sistema penal brasileiro ele leva mecanismos próprios de correção pela revisão criminal. Portanto, essas questões elas podem estar sendo submetidas ainda à jurisdição do Supremo Tribunal Federal e eu não vou me colocar em situação de impedimento”, afirmou.
Sobre a anistia, Messias disse que trata-se de um “debate público atual”, que deve ser definido pelo legislativo.
“A anistia é um ato jurídico, político, institucional que cabe ao parlamento. Portanto, é algo que está ou poderá estar em debate nesta casa. É, não acredito que meu papel, caso aprovado por vossas excelências, senador Flávio Bolsonaro, seja apresentar manifestações antecipadas a respeito de qualquer assunto, muito menos interferir, senador, é, no debate político. Eu acho que o ministro da Suprema Corte, ele pode atuar dentro do debate político quando solicitado, a bem de mediar conflitos isso. Porque é esta a posição que eu acredito e que tenho levado a minha vida inteira, na minha vida de conciliador, de pacificador, eu acredito na conciliação como método de solução de conflitos”, respondeu.
Na resposta, Messias desmentiu Flávio Bolsonaro, informando até mesmo o número do processo da AGU que inclui o Sindnapi na investigação.
“O senhor me questionou se eu pedi ou não pedi bloqueio de valores do Sindnapi. Eu quero afirmar categoricamente que pedi e digo aqui até o número da ação. A ação 111 40 43 73 2025 4 0 1 34 0 0 contra o sindicato e seus dirigentes foi protocolada perante a Justiça Federal. A advocacia geral da União cumpriu o seu papel de forma absolutamente técnica e republicana. Nós apresentamos três lotes de ações cobrando integralmente de todos os, é, de todas as entidades envolvidas com a fraude de aposentados e pensionistas”, afirmou Messias.
Em seguida, ele afirma que colocará o documento, que é público, à disposição dos senadores e lembrou que o governo Lula bloqueou mais de R$ 2,3 bilhões das entidades.
“E quero dizer também que nesta neste processo nós já conseguimos devolver mais de R$ 4,5 milhões de aposentados e pensionistas, os valores que foram indevidamente descontados integralmente corrigidos”, emendou. Forum.
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Em resposta, governo de Tarcísio de Freitas desmente as acusações, mas familiares de presos confirmam péssimas condições
Geladeira de remédios sem medicamentos, presos feridos sem tratamento, comida armazenada em locais sem refrigeração, celas superlotadas, comida feita em ambiente insalubre e um cadeirante entregue aos cuidados dos próprios presos. Esse foi o cenário encontrado por agentes do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) em visita à Penitenciária Estadual Joaquim Fonseca Lopes, de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, administrada pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
As fotos, cedidas ao Brasil de Fato com exclusividade, mostram presos com roupas imundas cozinhando as refeições que serão servidas nas unidades. Nas fotos feitas pelo Condepe é possível ver, também, comida armazenada em áreas sem refrigeração. Quilos de linguiça aparecem empilhados em um espaço sem qualquer ventilação.
O presidente do Condepe, Adilson Santiago, que conduziu a visita técnica ao local, afirma que havia vestígio de que parte dos alimentos poderia estar estragada. “Quando chegamos, a situação era aquelas registradas nas imagens. Um local insalubre e péssimo armazenamento da comida, um cheiro horrível. Era terrível, insuportável. É ali que são alimentados os presos.”
Nas imagens, vemos celas precárias, com presos amontoados, com fios que servem para prender duas pias fixas na parede e camas improvisadas no alto das instalações. Em uma das imagens, um homem paraplégico está sendo carregado por outro custodiado, enquanto sua cadeira de rodas estava em outra cela, trancada e isolada.
“Era um cadeirante, a ele faltava fralda, pomada para assadura e estava dentro de uma cela superlotada, que cabiam dez, mas tinha 30 custodiados. Obviamente, você não coloca um cadeirante numa cela comum, ele precisaria ter um tratamento diferente. Eram os presos que cuidavam desse preso”, alerta Santiago.
Nas dependências da Penitenciária Joaquim Fonseca Lopes há uma geladeira na enfermaria. Na porta, um aviso: Medicamentos. Porém, quando os agentes do Condepe abriram a porta, não havia remédios.
“Os medicamentos que vimos eram ínfimos para a população carcerária. Não tem remédio. Nada. Se tiver algo, é um remédio para dor de cabeça, mas os presos não conseguem acessar, são privados”, encerra Santiago, o presidente do Condepe.
Geladeira que deveria armazenar medicamos estava vazia no momento da visita do Condepe. | Crédito: Condepe
Mortes e insalubridade
A visita técnica do Condepe Penitenciária ASP Joaquim Fonseca Lopes, ocasião em que foram feitas as fotos, aconteceu em junho de 2025. As imagens foram liberadas agora, por ocasião do lançamento do relatório produzido pela entidade para a audiência pública que tratou da precariedade do sistema carcerário paulista, que ocorreu no dia 9 de março de 2026, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo.
O relatório escancara um cenário de “insalubridade” no sistema carcerário, como classifica o Condepe. O documento mostra que um preso morre a cada 19 horas dentro das penitenciárias paulistas. São 4.189 pessoas que morreram sob custódia do Estado nos presídios de São Paulo, entre 2015 e 2023.
O cenário de abandono se confirma principalmente na área da Saúde. Ao todo, 22.814 atendimentos de emergência não foram feitos por falta de escolta policial para acompanhar os presos até a unidade hospitalar.
O relatório foi encaminhado à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) pelo Condepe e o órgão pediu uma audiência com a secretaria para falar sobre a precariedade dos presídios paulistas. Adilson Santiago afirma que o governo de São Paulo tem ignorado todas as tentativas de contato do órgão.
Cadeira de rodas do preso com deficiência física estava trancada em outro espaço da unidade prisional. | Crédito: Condepe
Confirmação
O Brasil de Fato procurou parentes de pessoas que estão presas na Penitenciária Joaquim Fonseca Lopes para confirmar as informações. Adelaide, que terá seu nome verdadeiro ocultado por receio de que seu filho sofra represálias dentro da unidade, afirma que as condições dentro do presídio seguem as mesmas.
Seu filho está preso desde meados de 2024 e tem sofrido com problemas de saúde, mas ainda não há um diagnóstico. Adelaide afirma que tem sido comum encontrar o filho com febre nas visitas que faz aos finais de semana.
“Os policiais o levavam para a enfermaria, mas lá só tem uma ajudante de enfermagem que media a pressão e o mandava de volta para a cela. A unidade agendou uma consulta por vídeo com um especialista que ele espera desde que entrou no sistema em 2024 e que até hoje não aconteceu”, afirmou Adelaide.
Ainda de acordo com a mãe, há outros casos de negligência, como dois jovens que estão com tuberculose, dividindo a mesma cela com outros presos. “Vi um rapaz que teve um furúnculo no joelho que virou infecção com bicho por negligência e ele acabou perdendo a perna. Outro que colocou pinos e eles estão para fora. Um senhor com câncer na bexiga usando bolsa de colostomia que não é trocada.”
Para tentar driblar a segurança e falta de remédios na unidade, Adelaide afirma tem colocado “antibiótico em uma garrafinha com óleo para tempero de salada, deixo desmanchar e acrescento dipirona para ele ir tomando durante a semana e cessar a febre”.
Um outro familiar, que será chamado de Arnaldo, disse que seu irmão tem tido crises de intoxicação alimentar. “Ele diz que a comida lá sempre cheira muito mal e tem gosto azedo.”
Arnaldo também confirmou que, quando pede remédios, o irmão não tem sucesso. “Eles dizem que vão mandar, mas nunca chega o medicamento que ele precisa e fica dias passando mal na cela. Os guardas dizem que não tem remédio pra ele, que é ‘só Deus na causa dele’.”
Preso com deficiência física é carregado dentro da cela. | Crédito: Foto: Condepe
Outro lado
Ao Brasil de Fato, a SAP afirmou que “as imagens foram registradas há quase um ano e não condizem com o contexto atual da Penitenciária de Parelheiros, que passa por reformas. É improcedente a alegação de que presos com deficiência estariam sem acesso a cadeiras de rodas, uma vez que o presídio conta com cela específica adaptada, cadeiras de rodas e outros meios auxiliares necessários”.
Ainda de acordo com a secretaria, “a cozinha da penitenciária passa por reforma para aprimoramento do espaço, com previsão para conclusão em 90 dias. O presídio dispõe de câmaras frias em funcionamento, assegurando a adequada conservação dos alimentos estocados”.
Sobre as condições das roupas dos presos que trabalham na cozinha, a SAP disse que os presos recebem um kit extra de uniforme. Mas a secretaria se isenta de responsabilidade sobre a manutenção da cozinha. “As limpezas da roupa e do local são de responsabilidade do custodiado”, explica a pasta.
Por fim, sobre os alimentos armazenados, a SAP justificou. “A foto que, supostamente, retrata alimentos sem refrigeração é de comidas que chegaram e seriam consumidas no preparo das refeições do dia. Tendo em vista que, na época, a cozinha da unidade preparava a alimentação para três presídios diferentes.
Linguiça e demais alimentos estocados em sala sem ventilação e refrigeração, segundo o Condepe. Presidente do órgão relatou um cheiro “insuportável” no local. | Crédito: Condepe
Preso mostra as condições de sua roupa. Ele integra a equipe que cozinha as refeições servidas na unidade. | Crédito: Condepe
*Brasil de Fato
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Decisão dá 15 dias para gestão de Ricardo Nunes apresentar processo sobre filmagem em creche; pedido de suspensão é negado porque conteúdo já foi divulgado
A Justiça de São Paulo determinou que a Prefeitura apresente e justifique o sigilo imposto ao processo administrativo que autorizou a gravação de um documentário da produtora Brasil Paralelo dentro de uma escola municipal de educação infantil (EMEI). A decisão é do juiz Josué Vilela Pimentel, da 8ª Vara da Fazenda Pública, em ação movida por integrantes da Bancada Feminista do PSOL.
O magistrado deu prazo de 15 dias para que o município apresente o processo integralmente e explique por que ele foi mantido sob sigilo.
“A imposição de sigilo a processo administrativo constitui medida excepcional, devendo ser devidamente motivada, à luz do princípio da publicidade consagrado no artigo 37 da Constituição Federal, o qual garante como regra geral a publicidade dos atos administrativos”, destacou.
A ação foi protocolada pelas vereadoras Silvia Ferraro, Letícia Lé, Dafne Sena e Nathalia Santana, que questionam a legalidade da concessão de espaço da EMEI Patrícia Galvão para a gravação do documentário “Pedagogia do abandono”, apontando possível violação aos princípios da administração pública, como moralidade e impessoalidade, e também acionaram o Ministério Público para apurar o caso.
O documentário da Brasil Paralelo defende que creches promovem “ideologia de gênero” e critica o papel do Estado na educação infantil. A produtora é associada à extrema direita e já foi alvo de críticas e reportagens por disseminar desinformação sobre temas como a Lei Maria da Penha, a pandemia e as mudanças climáticas.
Apesar de reconhecer a relevância do pedido de acesso às informações, o juiz negou a principal solicitação das autoras: a suspensão da autorização e a proibição do uso das imagens gravadas. Segundo ele, a medida seria ineficaz, tendo em vista que o documentário já foi gravado e veiculado. A reportagem confirmou que o conteúdo circula na plataforma de streaming da produtora para membros-assinantes.
Na decisão, o magistrado aponta que barrar a exibição da produção — como foi requerido pela bancada — poderia configurar censura prévia, vedada pela Constituição. No canal da empresa no YouTube, é possível assistir ao teaser da produção, com cerca de dois minutos.
O caso segue em análise, e o Ministério Público deverá se manifestar após a resposta do município.
Entenda o caso A controvérsia teve início após denúncias da comunidade escolar da EMEI Patrícia Galvão, na zona sul de São Paulo, sobre a realização de gravações dentro da unidade por uma equipe ligada à produtora Brasil Paralelo.
De acordo com a Bancada Feminista do PSOL, que cita denúncias da comunidade escolar, a unidade teria sido pressionada por órgãos da gestão municipal, como a Secretaria de Educação e a SPCine, a autorizar as gravações.
Em nota, a covereadora Silvia Ferraro afirmou: “É absurdo que a prefeitura ceda espaço para gravação de um documentário que ataca a educação pública infantil. Se houver parceria pública com a Brasil Paralelo, terá que ser desfeita”.
Segundo relatos de professores, funcionários e familiares de alunos, o projeto foi apresentado inicialmente como uma produção genérica sobre educação infantil, sem detalhamento sobre o conteúdo ou a linha editorial do material. Posteriormente, a comunidade identificou que se tratava do documentário “Pedagogia do abandono”, que critica a educação pública e associa políticas educacionais à chamada “ideologia de gênero”.
A falta de transparência sobre o teor da produção e o uso de imagens de crianças geraram reação imediata. Pais, professores e trabalhadores da educação organizaram manifestações e protestos contra a veiculação do material, cobrando explicações da Prefeitura.
O caso também levou o Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep) a acionar o Ministério Público, apontando possíveis violações de direitos de crianças e uso indevido de equipamento público para fins ideológicos.
Em meio à pressão, veio à tona que o processo administrativo que autorizou as gravações foi colocado sob sigilo pela Prefeitura de São Paulo, o que ampliou os questionamentos sobre a legalidade e a transparência da decisão.
Procurada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes confirmou que autorizou as gravações e afirmou que a responsabilidade por aspectos legais, como uso de imagem e participação de menores, é dos produtores. A prefeitura, no entanto, não esclareceu se tinha conhecimento prévio do conteúdo do documentário ao conceder a autorização.
Em nota, a administração municipal afirmou que o procedimento segue padrão adotado para esse tipo de solicitação e que centenas de gravações já foram autorizadas em equipamentos públicos nos últimos anos.
*Ana Clara Ferreira/ICL
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Rumores na base bolsonarista colocam Carlos e Eduardo no centro e pressionam campanha
A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou uma nota à imprensa para desmentir rumores que circulavam entre apoiadores e em redes sociais sobre a possível nomeação de seus irmãos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), como ministros em um eventual governo.
No comunicado enviado ao ICL Notícias, a equipe de pré-campanha do parlamentar foi direta ao classificar as informações como falsas e sem qualquer fundamento. “As informações divulgadas não são verdadeiras. Não procedem as afirmações de que Carlos ou Eduardo Bolsonaro serão nomeados ministros em eventual governo. Trata-se de conteúdo inverídico, sem qualquer confirmação ou fundamento”, diz a nota.
Questionada pela reportagem sobre a existência de qualquer possibilidade de os irmãos ocuparem cargos ministeriais, a equipe foi categórica: “nenhuma”.
A pré-campanha também acrescenta que mantém “compromisso com a transparência e a correta informação dos fatos”, em uma tentativa de conter a disseminação do boato.
A necessidade de uma resposta pública mostra o alcance que a narrativa ganhou dentro do próprio campo bolsonarista. As especulações passaram a circular em grupos de apoiadores e perfis alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, alimentando a ideia de que um eventual governo de Flávio já teria espaço reservado para integrantes da família.
Conflito de informações Segundo membros do PL ouvidos pela reportagem, os boatos teriam partido dos próprios irmãos, Eduardo e Carlos Bolsonaro, em uma tentativa de viabilizar seus nomes em um eventual governo de Flávio, caso seja eleito. A avaliação entre aliados é que o movimento acabou gerando desgaste antecipado e obrigou a campanha a agir para conter a narrativa.
O episódio expõe um ruído interno na comunicação política do bolsonarismo. Enquanto a base antecipa cenários e projeta um governo com forte presença familiar, a campanha tenta conter esse tipo de narrativa, considerada prejudicial para a construção de alianças e para a ampliação do eleitorado.
A inclusão de Eduardo e Carlos Bolsonaro em possíveis ministérios, ainda que apenas no campo da especulação, carrega desgaste político imediato. A percepção de um governo concentrado na família tende a afastar setores mais moderados e reforçar críticas recorrentes da oposição sobre personalismo e falta de institucionalidade.
A campanha busca evitar que a imagem de um eventual governo seja associada a uma estrutura familiar antes mesmo de qualquer definição política mais ampla, como alianças partidárias, composição de base e construção de programa.
O episódio também ocorre em um momento em que o bolsonarismo ainda tenta consolidar um nome competitivo para a disputa presidencial, diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Flávio tem sido apontado como uma das alternativas dentro do grupo, mas ainda enfrenta desafios para ampliar sua projeção nacional e consolidar apoios fora do núcleo mais fiel.
Nos bastidores, a avaliação de integrantes do partido é que o principal desafio de Flávio, tanto durante a campanha quanto em um eventual governo, pode vir de dentro de casa. A interferência da própria família, especialmente dos irmãos, é vista como um fator de risco político que a campanha tenta, desde já, neutralizar.
Nesse contexto, a circulação de boatos e a necessidade de desmenti-los publicamente reforçam a percepção de desorganização e disputa de narrativa dentro do próprio campo político.
*ICL
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O fato concreto é que, criar expectativas quando nem a organização das campanhas eleitorais está pronta, se muito, as pesquisas trazem uma fotografia precipitada, porque é apenas do momento. Ou seja, não há justeza de valores. Talvez a próxima resposta para quem tem obsessão por pesquisas eleitorais, é a que afere os votos já consagrados, que, por conta de uma escolha definitiva, as pessoas colocam seus votos como certos em determinado candidato.
Aí nessa questão, Lula nada de braçada em relação aos outros candidatos. No caso da próxima eleição, por exemplo, Lula, nas suas intenções de voto, tem 76% sacramentadas, deixando uma margem de 24% que ainda podem ou não declinar da escolha.
Flavio Bolsonaro, por exemplo, tem como votos garantidos de seus eleitores, infinitamente menos, 39% e 61% podem mudar a escolha.
Ainda assim, a validade técnica disso é fugaz. Todos sabem que um voto pode ser mudado no portão de uma zona eleitoral, dependendo de fatores que possam estimular tal comportamento.
Por isso, vendo alguns chiliques, absolutamente precipitados, na eleição que ainda está na superfície com uma longa estrada de ferro pela frente, qualquer avaliação, agora, é especulação.
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“A Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável” — Michelle Bolsonaro, novembro de 2025.
Em um país que registra mais de 1,5 mil assassinatos de mulheres por questões de gênero apenas em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o clã Bolsonaro continua a defender, com orgulho e em alto e bom som, a ideologia da “pílula vermelha” — aquela que, inspirada no filme Matrix, promete “acordar” os homens para a suposta opressão feminina e restaurar o domínio masculino absoluto. Misoginia disfarçada de tradição cristã. Machismo tóxico embalado em Bíblia. E o pior: pregado não só pelos homens da família, mas pelas próprias mulheres bolsonaristas, que transformam a submissão em bandeira política.
Heloísa Bolsonaro, esposa de Eduardo, já havia deixado claro o recado em 2022, mas o veneno continua circulando: “Não há mulher insubmissa e livre”. Para ela, casamento é submissão pura e simples. “Casamento é submissão. E é por isso que escolhi com quem eu me casei”, declarou em evento político, criticando o feminismo por “desvalorizar o lar” e exigindo “homem com testosterona, um homem masculino”. A mensagem é cristalina: mulher livre é ilusão. A verdadeira liberdade, segundo o evangelho bolsonarista, é abaixar a cabeça.
Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos — sim, a ironia é brutal —, repetiu a doutrina em audiência pública na Câmara: na concepção cristã, “o homem é o líder do casamento” e a mulher deve ser submissa. Não era opinião isolada. Era política de Estado.
E o retrocesso não parou. Em novembro de 2025, Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e atual voz ativa do PL Mulher, subiu ao palco em evento em Londrina (PR) para defender abertamente a “submissão saudável” da mulher ao marido. “A Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável”, disse ela, acrescentando que mulheres na política devem fazer “política colaborativa” e não competir com os homens. Colaborativa. Ou seja: auxiliar, nunca protagonista. Exatamente o que o movimento redpill prega mundo afora: o homem no topo, a mulher no suporte. Em pleno 2026.
Enquanto influenciadores da “machosfera” e canais redpill explodem nas redes, disseminando ódio contra o empoderamento feminino e associando-o ao “caos da sociedade moderna”, o clã Bolsonaro incorpora o discurso sem disfarce. O mais grave é que a grande mídia brasileira, tão rápida em pautar qualquer escândalo envolvendo a esquerda, tratou essas declarações com discrição cirúrgica — poucas manchetes de capa, pouca repercussão nacional, quase nenhum debate profundo sobre o significado real desse retrocesso misógino.
Mulheres bolsonaristas — esposas, ex-ministras, ex-primeiras-damas — vendem a submissão como virtude familiar e cristã. E o mais chocante: milhões de mulheres brasileiras continuam votando nessa corja maldita, entregando o próprio futuro a quem as quer de joelhos.
Não é conservadorismo. É regressão. Não é fé. É controle. No século XXI, com direitos conquistados a duras penas, o bolsonarismo oferece às mulheres a “pílula vermelha” da servidão voluntária — e chama isso de salvação. O Brasil que avança, o Brasil das mulheres que lutam, das mães que criam sozinhas, das trabalhadoras que sustentam lares, merece mais do que esse culto ao machismo travestido de família tradicional.
A submissão que eles vendem não é paz. É prisão. E enquanto o clã Bolsonaro a celebra, a violência contra a mulher sangra o país. Acordem — da pílula vermelha, dessa vez de verdade.
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Pacote inclui crédito para produção de leite, desapropriações, assistência técnica e primeira agroindústria de leite em pó em cooperativa de assentados em SP
O governo Lula anunciou nesta segunda-feira (27), em Andradina (SP), um pacote superior a R$ 909 milhões em medidas estruturantes para a reforma agrária e a agricultura familiar. Com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e da ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, as ações integram crédito rural subsidiado, desapropriações de terras, assistência técnica, agroindustrialização e segurança alimentar. É o maior conjunto de investimentos no campo popular anunciado pelo governo em 2026.
A reforma agrária do século 21
As medidas anunciadas fazem parte do Programa Terra da Gente, criado em 2024 com o objetivo de ampliar o acesso à terra e estruturar uma reforma agrária produtiva e sustentável. Em três anos de governo, o programa já incluiu cerca de 230 mil famílias na reforma agrária, com a destinação de 27 mil lotes e a criação ou reconhecimento de 144 assentamentos em todo o país. Para garantir que essas famílias tenham condições reais de produzir, foram pagos mais de R$ 1,7 bilhão em crédito de instalação para aproximadamente 78 mil famílias assentadas — assegurando moradia, infraestrutura e início da atividade produtiva.
Nesta segunda, foram assinados dois novos decretos de desapropriação por interesse social. O primeiro abrange a Fazenda Sítio Boa Vista, em Americana (SP), com 103,45 hectares destinados a cerca de 70 famílias, onde será criado o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Milton Santos. O segundo contempla a Fazenda Caraúbas, em Santa Quitéria (CE), com expressivos 3.130,91 hectares e potencial para beneficiar 48 famílias. Ambas as áreas serão incorporadas ao sistema nacional de assentamentos voltados à produção sustentável.
A ministra Fernanda Machiaveli traduziu em palavras o modelo de reforma agrária que o governo defende: “É uma reforma agrária que gera renda, que tem acesso a maquinários e implementos agrícolas, que produz bioinsumos, que faz restauro ambiental, que produz agrofloresta, que trabalha com a agroecologia, que estimula a transição agroecológica, que cuida dos nossos recursos naturais. Essa reforma agrária traz bem viver para o rural brasileiro, para o povo do campo, para os homens e mulheres que acordam debaixo de sol, debaixo de chuva e trabalham para produzir o alimento saudável que chega nas mesas do povo brasileiro.”
Pronaf Mais Leite: tecnologia para quem mais precisa
O maior investimento do pacote é o Pronaf Mais Leite: R$ 450 milhões em crédito rural subsidiado estruturados a partir do Programa Nacional de Transferência de Embriões da Agricultura Familiar, lançado no último Plano Safra. A iniciativa democratiza o acesso a uma tecnologia de melhoramento genético dos rebanhos que, até então, era um privilégio do agronegócio. Nesse sentido, a produção por animal pode saltar de uma média de 3 a 8 litros de leite por dia para patamares entre 15 e 30 litros — multiplicando a renda do pequeno produtor sem necessidade de expandir áreas de pasto.
O contexto justifica o investimento. O Brasil é um dos maiores produtores de leite do mundo, com cerca de 1,17 milhão de propriedades rurais dedicadas à atividade. Dessas, aproximadamente 950 mil pertencem à agricultura familiar, responsável por mais da metade da produção nacional. Como afirmou a ministra Machiaveli, “o leite é uma cadeia produtiva constituída majoritariamente nas pequenas propriedades dos assentamentos da reforma agrária e nas propriedades da agricultura familiar.”
Para acessar o crédito, o produtor deve procurar sua cooperativa ou uma instituição financeira e elaborar o projeto de financiamento. As principais linhas disponíveis são o Pronaf Mais Alimentos, com juros de 3% ao ano e limite de até R$ 250 mil por produtor; o Pronaf A, voltado a assentados da reforma agrária, com juros de 0,5% ao ano e teto de R$ 50 mil; e o Pronaf B, direcionado a pequenos produtores de baixa renda, também com 0,5% ao ano e limite de R$ 12 mil. Para cooperativas, destacam-se o Pronaf Mais Alimentos — com até R$ 8 milhões a 3% — o InvestAgro–Renovagro, com até R$ 5 milhões a 8,5% ao ano, e uma nova linha de crédito do Pronaf voltada exclusivamente a cooperativas de leite, com R$ 150 milhões em recursos disponíveis.
A Coapar e o poder da luta coletiva
Um dos momentos mais carregados de significado político foi a assinatura do contrato de R$ 15 milhões entre o governo federal, o Banco do Brasil e a Coapar — Cooperativa de Produção, Industrialização e Comercialização Agropecuária dos Assentados e Agricultores Familiares da Região Noroeste do Estado de São Paulo. O investimento viabilizará a construção da primeira fábrica de leite em pó do estado, com capacidade para processar 25 mil litros de leite fluído por dia, substituindo a produção hoje terceirizada e agregando valor diretamente na cooperativa.
Alckmin celebrou o feito com entusiasmo: “Eu estive aqui há quatro anos e vi o quanto a Coapar cresceu, fabricando queijo, iogurte, manteiga e agora será a primeira fábrica a produzir leite em pó no nosso estado. A Coapar é um exemplo de sucesso. Aqui ficam duas lições: a do associativismo e a do cooperativismo.”
O vice-presidente da Coapar, Lourival Placido de Paula, lembrou as origens humildes e a força da resistência coletiva: “A Coapar é a resistência dos pequenos, daqueles que não têm nada. Todos em assentamento, para resistir contra os grandes e mostrar que unidos, juntos, podemos muito mais.”
O representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Gilmar Mauro, foi direto ao situar historicamente aquele momento: “Se hoje estamos produzindo comida para o povo brasileiro, é sempre bom lembrar: tudo isso começou com a ocupação do latifúndio.”
Assistência técnica, leite solidário e crédito para assentados
O pacote vai além do crédito produtivo. O Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da Anater, lançou um edital de R$ 28,5 milhões para Assistência Técnica e Extensão Rural voltada ao setor leiteiro, beneficiando diretamente 4.050 famílias em todo o território nacional. O programa está dividido em 27 lotes, cobrindo todos os estados e o Distrito Federal, com prazo de execução de 18 meses e prioridade para assentados da reforma agrária, comunidades tradicionais e pescadores artesanais.
Também foi anunciada a destinação de R$ 100 milhões em leite em pó adquirido via Programa de Aquisição de Alimentos para as Cozinhas Solidárias — conectando diretamente a produção da agricultura familiar às políticas de segurança alimentar nas periferias do país.
Para os assentados, foram liberados mais de R$ 155 milhões em créditos para mais de 9 mil beneficiários em todo o Brasil. Somente em São Paulo, R$ 24,5 milhões em créditos de fomento e habitação atenderão 794 famílias assentadas.
Oito décadas de crédito em três anos
Os números acumulados desde 2023 revelam a dimensão da transformação em curso. O Pronaf disponibilizou R$ 33,9 bilhões em financiamentos para a cadeia produtiva do leite, distribuídos em cerca de 777,7 mil operações — sendo R$ 20,2 bilhões para custeio da produção, R$ 12,6 bilhões para investimentos produtivos e cerca de R$ 1 bilhão para industrialização. Em relação ao período anterior, o volume de crédito para a atividade cresceu 81%.
Os anúncios desta segunda reafirmam, com números concretos, a aposta do governo Lula na integração entre acesso à terra, produção cooperativa, agroindustrialização e assistência técnica como pilares de soberania alimentar e desenvolvimento territorial. É a demonstração de que a reforma agrária do século 21 não se faz apenas com a distribuição de lotes — mas com tecnologia, crédito, cooperativismo e o compromisso de que o campo que alimenta o Brasil seja também o campo que prospera.
*com informações do Governo Federal/Vermelho
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É na batucada da vida que mora a alma profunda do Brasil, seja no samba, seja no choro.
Sob qualquer ângulo que se fale de Brasil, desde sua invenção colonial até os dias atuais, essa genial frase merece acato da história do Brasil real, não o oficial, como bem salientou Machado de Assis, definindo o Brasil oficial, institucional como caricato e burlesco.
Para ser mais preciso, o Brasil de cabeça colonizada, eurocêntrica e totalmente surdo para o clamor do próprio povo.
O que se observa é uma realidade nada discutida nas normas institucionais de cultura do Brasil, que é cópia da classe economicamente dominante desde sempre.
A profunda omissão desse filão de aspectos culturais, mas sobretudo políticos, já está familiarizado no cerne da nação. O brasileiro real jamais foi hesitante na hora de apresentar sua identidade política e cultural. Já para os dizedores dos conselhos nativos, os senhores doutores em cultura e política, a batucada é, por si, algo menor, que não deve frequentar os salões da casa grande em pleno 2026.
E não pensem que os senhores das cenzalas cafeeiras que ainda rondam o universo institucional no Brasil acham isso algo banal, não. Esse espírito escravocrata está aí pairando na nossa frente contra o fim da escala 6 x 1, mostrando a diferença profunda entre os que sempre exploraram, extorquiram, escravizaram e os brasileiros escravizados, tendo, lógico, a escravidão dos negros propriamente dita, a mais profunda indecência humana.
Por isso. até hoje, as cabeças colonizadas brasileiras, para se manterem sempre no topo da pirâmide social, não aceitam qualquer política de inclusão ou reparação num país de pouco mais de cinco séculos em que quatro deles viveu uma feroz escravidão dos negros.
As instituições brasileiras, políticas e culturais seguem à risca a cartilha das sinhás no que se refere aos baloartes da santíssima trindade da música popular brasileira, João da Baiana, Donga e Pixinguinha, formados na mais profunda e pura organização política e cultural do povo brasileiro.
Os três batutas eram tão batutas no samba quanto no choro, mostrando a precisa ligação orgânica entre esses dois grandes faróis da cultura brasileira, até porque, como disse o grande Mário de Andrade, em sua obra fundamental, o livro Ensaios sobre a Música Brasileira, Mario afirma “A música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente naciona, mais forte criação da nossa raça até agora”.
Esse, que é um dos principais pontos de visão do grande guru sobre a formação política e cultural do Brasil real, parece que não foi lido ou totalmente esquecido pelo oficialato cultural, mas também político desse país.
A expressão o choro no mundo é tão forte e soberana, palavra muito em voga, acertadamente, pelo presidente Lula, nas duas linguagens que correm, por motivos fundamentais, encontra-se de corpo e alma em incontáveis clubes de choro, sobretudo na Europa e Ásia. Todos inspirados no Clube do Choro de Brasilia, presidido por um baloarte incansável da cultura brasileira, Henrique Lima Santos Filho (Reco do Bandolim) que, além de músico, compositor e arranjador de excelência, é um incansável guerreiro em defesa da soberania cultural.
Por isso, transformou-se numa inspiração mundo afora por sua absoluta dedicação e competência à frente da, hoje. maior representação institucional da música brasileira.
Então, fica difícil entender por que o choro, que trafega desde o universo erudito aos bucólicos rincões do Brasil, ter um tratamento tão morno para não dizer quase nulo de uma de suas maiores expressões musicais.
Uma arte tipicamente brasileira ser tratada de forma tão banal, quando não barrada nas instituições de cultura desse país, só revela que o Brasil de alma profunda, que criou uma música da mistura de três raças, ameríndia, lusitana e, sobretudo, africana, receba tal tratamento do mundo oficial.
E não é por falta de obras contemporâneas, nem o samba, nem o choro, desde suas codificações como estilos no seculo XIX, deixaram uma única lacuna geracional por falta de novas criações espetaculares e genuínas.
Fica difícil entender tal comportamento institucional, já que, no dia 23 de abril se comemora o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nosso mestre maior, Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha).
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