Se alguém ainda tinha dúvida sobre quem sai politicamente fortalecido desse rearranjo no Supremo, basta olhar para o resultado: Flávio Bolsonaro emerge mais protegido do que nunca, enquanto Alexandre de Moraes é empurrado para o centro de uma fogueira política que interessa diretamente ao bolsonarismo.
A ironia é brutal. No momento em que o campo bolsonarista precisava desesperadamente de uma narrativa para transformar seus problemas em combustível eleitoral, surge um cenário perfeito: Moraes convertido em alvo permanente, enquanto André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro ao STF, ganha espaço e protagonismo justamente no ambiente em que Flávio precisa de proteção política.
É difícil não perceber o tamanho da contradição.
O grupo de Flávio pode comemorar. Aquilo que parecia ser um cerco vai se transformando, aos olhos de seus aliados, em uma espécie de corredor de proteção. A atenção pública se desloca, o debate muda de foco e, no lugar das perguntas incômodas que deveriam permanecer no centro da mesa, a política brasileira volta a consumir a velha guerra contra Moraes.
E é aí que a frase ganha uma atualidade impressionante: Fachin, a rigor, acaba produzindo um efeito político que favorece Flávio Bolsonaro, fortalece a posição de Mendonça e deixa Moraes exposto aos leões.
Não é preciso acreditar em conspiração para reconhecer o efeito concreto da movimentação. Na política, resultado também é mensagem. E a mensagem que chega ao bolsonarismo é cristalina: enquanto Moraes vira saco de pancadas, Mendonça aparece cada vez mais confortável no tabuleiro.
Para Flávio, isso é quase um presente.
A velha estratégia bolsonarista sempre funcionou melhor quando consegue trocar o assunto. Quando a pressão aperta, cria-se um inimigo maior, desloca-se o foco e transforma-se o debate institucional numa guerra de torcidas. Moraes, goste-se ou não de suas decisões, tornou-se novamente o personagem perfeito para esse roteiro.
E, enquanto todos olham para ele, quem está sendo beneficiado pelo deslocamento do foco?
Flávio Bolsonaro.
Essa é a pergunta que não pode desaparecer no meio do barulho.
Porque o mais curioso de tudo é que o bolsonarismo passou anos denunciando supostos privilégios e blindagens institucionais. Agora, quando o cenário produz um resultado politicamente favorável ao seu candidato, parece haver uma súbita amnésia coletiva.
Mendonça ganha oxigênio. Moraes vira alvo. E Flávio respira aliviado.
Se isso não é blindagem no sentido político da palavra, pelo menos é impossível negar que o efeito do rearranjo favorece exatamente quem mais precisava que os holofotes fossem desviados.
E o bando de Flávio, evidentemente, sabe aproveitar cada segundo.
A pergunta que fica é simples e incômoda: quem está pagando o preço político dessa operação de deslocamento de foco?
Até aqui, a resposta parece evidente: Moraes.
E quem está colhendo os dividendos?
Flávio Bolsonaro.
Há algo ainda que toca de perto a honorabilidade da presidência do STF na figura de Fachin, o gênio, Mario Frias, vendo que Flavio Dino lhe pegou pelo rabo, fez um pedido público para que fosse retirada das mãos de Dino a relatoria das emendas que acabou flagrando Frias e a produtora do filme Dark Horse, que receberam enxertos públicos de políticos do PL como, Bia Kicis e Marcos Pollon, exigindo que Fachin tirasse a relatoria de Flavio Dino e entregasse a André Mendonça, como bem comentou o jornalista Reinaldo Azevedo.
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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal. A decisão também atinge o delegado Leandro Almada, diretor de inteligência policial da corporação.
Segundo Mendonça, a medida busca impedir possíveis interferências nas investigações e garantir que ministros do STF, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e servidores da PF exerçam suas funções “sem constrangimentos ilegais”. O ministro também determinou a abertura de uma investigação na Corregedoria da Polícia Federal para apurar as circunstâncias da produção dos relatórios de inteligência.
Na decisão, Mendonça afirma que documentos produzidos pela inteligência da PF revelam a realização de “monitoramento e coleta dirigida” contra ele próprio e Jorge Messias. Segundo o ministro, os relatórios teriam sido elaborados entre 3 e 31 de agosto, indicando que a coleta de informações ocorria havia mais de um mês.
Mendonça também classifica os documentos como apócrifos e aponta que eles não apresentam timbre ou outros elementos capazes de comprovar autoria, procedência e data de elaboração. Em outro trecho, sustenta que os relatórios chegaram a analisar decisões judiciais, a atuação da Advocacia-Geral da União e o trabalho de policiais federais.
O ministro afirma ainda que a permanência de Andrei e Almada nos cargos poderia permitir acesso a sistemas, informações e estruturas capazes, em tese, de comprometer as apurações, inclusive com conhecimento antecipado de diligências, influência sobre pessoas ou dificuldades para obtenção e preservação de provas.
“A suspensão cautelar de função pública é constitucionalmente admissível quando fundada em elementos concretos, submetida à proporcionalidade e destinada a neutralizar risco efetivo à persecução penal ou de utilização indevida das prerrogativas funcionais”, escreveu Mendonça.
A decisão foi tomada após pedidos apresentados pelo partido Novo. Inicialmente, a legenda solicitou medidas para preservar a independência das investigações depois que mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro mencionaram Andrei Rodrigues. Posteriormente, o partido pediu a prisão preventiva do diretor-geral da PF, mas Mendonça optou pelo afastamento cautelar.
O caso amplia a crise no Supremo após Alexandre de Moraes divulgar relatórios atribuídos à Polícia Federal que levantam suspeitas sobre a atuação de Mendonça na condução de investigações. Na decisão desta terça, Mendonça sustenta que o material é tecnicamente irregular e afirma que sua produção e circulação podem ter comprometido investigações em andamento.
*ICL
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Há sinais cada vez mais evidentes de que parte da grande mídia começa a perceber que a defesa incondicional de André Mendonça se tornou um fardo. Durante muito tempo, setores da imprensa trataram o ministro indicado por Jair Bolsonaro como uma espécie de personagem intocável, blindando suas decisões, relativizando controvérsias e evitando perguntas incômodas. Agora, diante do acúmulo de fatos e da dimensão política do caso Banco Master, essa blindagem começa a apresentar rachaduras.
O movimento é revelador. Quando a narrativa deixa de ser conveniente, os mesmos veículos que ajudaram a construir reputações passam a adotar uma cautela repentina. O problema é que não basta trocar o tom depois que os fatos se tornam impossíveis de ignorar. Jornalismo não deveria funcionar como seguro contra desgaste político.
Mendonça chegou ao Supremo sob o patrocínio explícito de Bolsonaro e carregou consigo a imagem de uma escolha destinada a representar os interesses do então presidente dentro da Corte. Hoje, qualquer questionamento sobre sua atuação precisa ser tratado com a máxima transparência, sobretudo quando envolve personagens e interesses que orbitam o escândalo do Banco Master.
E é justamente aí que a mudança de comportamento de parte da mídia chama atenção. Enquanto Alexandre de Moraes virou alvo permanente de manchetes, editoriais e análises indignadas, Mendonça frequentemente recebeu um tratamento muito mais complacente. A diferença de critérios tornou-se difícil de esconder.
Agora, diante da sucessão de revelações, a estratégia parece mudar: antes que a crise atinja proporções ainda maiores, alguns veículos começam a se afastar de Mendonça. Não necessariamente por uma súbita conversão ao rigor jornalístico, mas porque perceberam que a blindagem pode custar caro.
O ponto central é simples: ministro do Supremo não pode ser protegido por simpatias políticas, relações pessoais ou conveniências editoriais. Se existem dúvidas sobre sua conduta, elas precisam ser investigadas. Se não existem irregularidades, que os fatos e documentos demonstrem isso. O que não pode existir é uma imprensa com dois pesos e duas medidas.
A grande questão, portanto, não é apenas saber se parte da mídia está abandonando André Mendonça. É perguntar por que demorou tanto para fazê-lo.
Porque, quando a imprensa abandona uma blindagem somente depois que ela se torna insustentável, fica a impressão de que não estava defendendo o jornalismo — estava apenas administrando os danos.
O agravante, nesse caso, está no fato do que foi revelado sobre o instituto de André Mendonça, Iter, fundado por ele. Foi uma enxurrada de denúncias de contratos sem licitação com insituições públicas administradas por políticos do PL e congêneres, o que, tudo indica, o pegou num contrapé fatal, obrigando-o a, depois da descoberta desse esquema, em menos de 24 horas se autoexonerar dessa barbada.
A partir de então, começou a dar ruim para Mendonça, Mesmo aquelas blindagens da mídia no caso em que ele tratava de forma diferente as pessoas ligadas ao Master por vínculo partidário, passaram a integrar a vitrola dos comentaristas da grande mídia que se descolaram da canoa fura furada chamada André Mendonça, o ex-terrivelmente poderoso.
Sem falar no que é pior, da sua blindagem aos crimes que envolvem Flavio Bolsonaro no mesmo caso Master, que ganhou uma outra narrativa de quem, até então, estava na mídia, par e passo com Mendonça.
Mendonça confiou demais no seu estrelato como algo eterno, que que, agora, mostra-se efêmero.
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Há momentos em que a cronologia dos fatos fala mais alto do que qualquer nota oficial. O ministro André Mendonça decidiu deixar o Instituto Iter, entidade que ajudou a fundar, justamente depois que veio a público um levantamento revelando uma impressionante concentração de contratos públicos realizados sem licitação.
Os números são eloquentes: foram identificados 55 contratos e instrumentos de contratação pública, que somam aproximadamente R$ 10,85 milhões. Desses, 54 foram firmados sem licitação, o equivalente a 98,2% do total. Apenas um contrato, de R$ 390 mil, foi realizado por meio de pregão.
É importante registrar: a contratação direta não significa, por si só, ilegalidade. A legislação prevê hipóteses de dispensa e inexigibilidade. O problema que emerge dos dados é outro: como explicar uma proporção tão extraordinariamente elevada de contratações sem competição envolvendo uma instituição fundada por um ministro do Supremo?
A pergunta se torna ainda mais inevitável diante do timing. Poucas horas depois da divulgação do levantamento, Mendonça anunciou que ele e sua esposa cederiam a totalidade das cotas que possuíam no instituto, sem contrapartida financeira. Segundo a nota, a entidade deverá ser transformada em organização sem fins lucrativos, e o ministro permanecerá ligado a ela apenas como professor. Mendonça afirma que jamais auferiu lucro com o instituto.
Mas a questão central permanece: por que sair justamente agora?
Se tudo estava absolutamente regular, transparente e acima de qualquer suspeita, seria razoável esperar que a resposta às revelações viesse acompanhada de esclarecimentos detalhados sobre cada contratação, os critérios utilizados e as razões pelas quais praticamente todos os negócios com o poder público foram realizados sem licitação.
A saída, portanto, não encerra o assunto. Ao contrário: torna ainda mais necessária a transparência.
Não basta afirmar que os contratos eram juridicamente possíveis. É preciso explicar a relação entre uma instituição privada fundada por um ministro do STF e os milhões de reais provenientes de contratos com órgãos públicos. É preciso saber como esses contratos foram obtidos, quais serviços foram prestados, quem participou das negociações e quais critérios levaram tantos órgãos públicos, em diferentes estados, a contratar justamente aquela instituição.
E há um agravante político-institucional que não pode ser ignorado: o Iter também foi o local onde Mendonça recebeu Daniel Vorcaro, em encontro que veio a público recentemente. Mensagens e áudios revelados posteriormente apontaram a articulação do encontro e o conhecimento prévio do ministro sobre questões relacionadas ao Banco Master — embora as informações divulgadas não comprovem que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou adotado alguma medida em favor do banco.
Assim, a sucessão de fatos produz uma imagem extremamente incômoda: um ministro do Supremo, fundador de uma instituição que movimentou milhões de reais em contratos públicos, deixa a sociedade justamente quando a dimensão desses negócios vem à tona.
Pode ser uma coincidência temporal. Mas, em uma democracia que exige transparência de quem exerce uma das funções mais poderosas da República, coincidências dessa natureza não deveriam ser simplesmente aceitas como explicação suficiente.
O que está em jogo não é apenas o destino de um instituto privado. É a confiança pública naqueles que têm a responsabilidade de julgar os demais e, por isso mesmo, precisam estar permanentemente acima de qualquer dúvida razoável sobre seus vínculos, interesses e relações.
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O escândalo do Master envolveu entidades públicas e contratos privados. Até agora, os contratos privados são mantidos escondidos
Até agora, os únicos negócios públicos do ITER – o Instituto criado por André Mendonça após se tornar Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) – são os contratos com entidades públicas. Isso porque há obrigatoriedade de publicação no Diário Oficial da União.
Até agora há R$ 11,4 milhões em contratos públicos acumulados. Mas e os contratos privados? O escândalo do Master envolveu entidades públicas, que depositaram no Master, e contratos privados. Até agora, os contratos privados são mantidos escondidos a sete chaves.
Vamos a uma pequena investigação, tomando por base a sequência de notas fiscais para entidades públicas.
Pista 1 – o encontro de Daniel Vorcaro com André Mendonça, na sede do ITER em São Paulo, foi no dia 14 de março de 2025. A cronologia é bastante precisa: no dia 13 de março, o deputado Cezinha de Madureira avisou Vorcaro da reunião marcada para às 17h do dia seguinte. Em 14 de março, às 16h37, Vorcaro informou que estava a caminho; às 16h43, Cezinha respondeu que o ministro já o esperava. Às 18h40, Vorcaro avisou seu motorista que estava saindo do endereço.
Pista 2 – no dia 11 de março o ITER emitiu a NFS-2 no 189. No dia 14 de março, emitiu a NFS-2 226. Em apenas três dias foram emitidas até 37 notas para clientes privados, englobando o dia em que Vorcaro visitou o ITER. Podem ser notas de matrículas individuais, podem ser pacotes de matrículas de empresas.
Para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade, faria bem André Mendonça em abrir as contas do ITER, especialmente dos clientes das 37 notas emitidas.
*Luis Nassif/GGN
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Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam que o dono do Banco Master teve pelo menos um encontro secreto com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e foi realizada no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado.
A aproximação foi articulada durante semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.
Em uma das mensagens mais explícitas, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.
O material mostra ainda que Ciro e Cezinha conversaram previamente com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central.
Em outro áudio, o advogado disse ter deixado o ministro “balançado” com o assunto e afirmou que Mendonça queria receber Vorcaro.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo”, relatou Ciro. “Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”
O conteúdo não revela qual providência Vorcaro pretendia obter nem comprova que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou adotado qualquer medida em favor do Banco Master. Comprova, porém, a articulação promovida por pessoas próximas ao ministro, o conhecimento prévio de Mendonça sobre o assunto e a realização de pelo menos uma reunião reservada com o banqueiro.
“Tô com André M.” A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025. Naquela tarde, Ciro Rocha Soares fez sucessivas tentativas de telefonar para Daniel Vorcaro. Depois das chamadas perdidas, escreveu: “Opa”, “me liga” e, às 14h03, acrescentou: “Tô [com] André M.”.
No dia seguinte, o advogado encaminhou ao banqueiro uma fotografia na qual aparecia ao lado de André Mendonça. A imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em São Paulo e Brasília.
Logo depois da fotografia, Ciro enviou o áudio de seis segundos: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”
As mensagens não esclarecem que trabalho Ciro dizia estar realizando para Vorcaro nem se o advogado mantinha contrato formal com o banqueiro, com o Banco Master ou com alguma empresa ligada ao grupo. A frase, porém, mostra que ele apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro.
Ciro Rocha Soares é advogado com atuação principalmente na Bahia e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, sediado em Salvador. Entre 2016 e 2017, exerceu o cargo de ouvidor do Ministério do Turismo.
As conversas mostram que sua relação com Vorcaro ultrapassava uma interlocução estritamente profissional. Os dois se tratavam como irmãos, trocavam declarações de amizade e falavam sobre questões familiares.
Essa intimidade aparece com clareza nas mensagens trocadas em 16 de fevereiro, quando Ciro procurou novamente o dono do Banco Master.
“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado às 17h47. Na mensagem seguinte, reforçou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.
Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e depois sugeriu: “Marca quarta”.
Ciro insistiu que precisava conversar por telefone para explicar o assunto. Na sequência, reclamou, em tom amistoso, que Vorcaro havia sido “o único amigo” que não ligara no seu aniversário.
O banqueiro respondeu que quase compareceu à festa, mas teve um problema com os filhos. Disse também que sabia que a comemoração era uma surpresa e, por isso, não quis falar sobre ela antecipadamente.
“Você é meu irmão caçula, meu protegido”, respondeu Ciro. Vorcaro, por sua vez, enviou uma longa mensagem de aniversário. Chamou o advogado de “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e afirmou: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.
A conversa ajuda a dimensionar o grau de confiança existente entre os dois no momento em que Ciro atuava para aproximar o banqueiro de um ministro do Supremo.
“Dei uma balançada nele” Depois da troca de declarações, Ciro enviou a Vorcaro um áudio de 1 minuto e 39 segundos. É nessa gravação que o advogado descreve de maneira mais detalhada sua interlocução com André Mendonça.
Ciro começou dizendo que conhecia o momento vivido pelo banqueiro e que havia sentido sua ausência na festa de aniversário. Contou que um senador havia dado “um show” no evento, cantado e perguntado por Vorcaro.
Em seguida, relatou que André Mendonça havia feito uma homenagem a ele durante a comemoração. Segundo Ciro, também estavam presentes o ministro do STF Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
“O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse.
Logo depois, o advogado voltou ao assunto que o levara a procurar Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”
Ciro não detalhou na gravação qual era “aquele assunto”. Mais adiante, porém, fez referência direta à situação do Banco Central e afirmou que Mendonça já havia sido informado sobre ela tanto por ele quanto por Cezinha de Madureira.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”
O áudio revela que havia ao menos duas linhas de interlocução com André Mendonça. Uma era conduzida por Ciro; a outra, por Cezinha de Madureira. Segundo o advogado, ambos já haviam conversado com o ministro sobre a situação relacionada ao Banco Central antes do encontro com Vorcaro.
Ciro disse ainda que iria a Brasília acompanhado de Otto e, em seguida, seguiria para São Paulo, onde seria internado no Hospital Sírio-Libanês. Propôs encontrar Vorcaro no próprio banco, por volta das 17h ou 18h, para que conversassem antes da reunião com Mendonça.
“Se quiser, eu passo no banco, a gente conversa”, sugeriu. Ao final, insistiu que precisava falar com o banqueiro e marcou um encontro para as 18h do dia seguinte.
Reunião marcada para quarta-feira Em 17 de fevereiro, Ciro avisou que estava deixando Brasília, onde participara de uma reunião, e pediu para conversar com Vorcaro às 18h. “Dani, estou saindo de BSB agora. Estava numa reunião. Preciso falar com você hoje. Podemos marcar às 18h”, escreveu.
Os dois fizeram uma ligação de 18 segundos. Pouco depois, Ciro informou que estava “subindo”, indicando que teria chegado ao local combinado para o encontro com o banqueiro. Às 19h08, enviou uma nova mensagem: “Cezinha confirmou às 16h de quarta”.
A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro. O conjunto das conversas indica que Ciro se referia à reunião com André Mendonça que Vorcaro havia pedido para marcar dois dias antes.
Na data acertada, Ciro procurou novamente o banqueiro e pediu que Bruno Bianco Leal, ministro da Advocacia-Geral da União durante o governo de Jair Bolsonaro, também participasse. Em áudio, orientou Vorcaro a convocar o advogado para que os dois fizessem uma apresentação conjunta.
“Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse.
Bruno Bianco fez carreira na Advocacia-Geral da União e comandou o órgão entre agosto de 2021 e janeiro de 2023. Assumiu a chefia da AGU depois que André Mendonça deixou o governo Bolsonaro para ocupar uma cadeira no Supremo.
Após sair do serviço público, Bianco passou a atuar na iniciativa privada e tornou-se advogado ligado ao Banco Master. Mais tarde, integrou a equipe responsável pela defesa de Vorcaro.
As mensagens comprovam que uma reunião foi marcada para aquela quarta-feira, às 16h, e que Ciro tentou incluir Bianco na apresentação. O vazamento, entretanto, não contêm registros de deslocamento, chegada ou saída que permitam cravar que esse primeiro compromisso ocorreu.
O material prova o agendamento e os preparativos. Diferentemente do encontro do mês seguinte, porém, não demonstra de maneira conclusiva a presença simultânea de Vorcaro e Mendonça no local combinado.
Cezinha marca novo encontro Menos de um mês depois, Cezinha de Madureira voltou a procurar Daniel Vorcaro. Em 13 de março, o deputado informou que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte, em São Paulo.
“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu.
Na mensagem seguinte, Cezinha indicou o endereço: Alameda Santos, número 647, 16º andar. Vorcaro respondeu: “Show” e, depois, “Marcado”. “Estarei lá para te receber”, afirmou o deputado, antes de reforçar a data e o horário: “Amanhã sexta-feira 14 às 17:00”.
Cezinha de Madureira é uma liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e tem relação próxima com André Mendonça. Sua trajetória política está fortemente associada à Frente Parlamentar Evangélica e às lideranças da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil.
Nas conversas analisadas, a participação do deputado não se limitou a compartilhar o contato do ministro. Segundo Ciro, Cezinha já havia conversado com Mendonça sobre a situação envolvendo o Banco Central. Depois, confirmou o compromisso de fevereiro e organizou diretamente a reunião de março, indicando data, horário e endereço.
“Ministro já está te esperando” No dia marcado, 14 de março, Vorcaro procurou o deputado pouco antes das 17h. “Fala amigo”, escreveu às 16h37. Três segundos depois, avisou: “Estou a caminho”.
Houve então uma ligação de 20 segundos entre os dois. Às 16h43, Cezinha enviou a mensagem que confirma que André Mendonça estava no local: “Ministro já está te esperando.”
Os diálogos entre Vorcaro e seu motorista corroboram o deslocamento. Às 16h30, sete minutos antes de avisar Cezinha de que estava a caminho, o banqueiro encaminhou ao funcionário o mesmo endereço enviado pelo deputado: Alameda Santos, 647, 16º andar.
“Descendo”, escreveu Vorcaro. Em seguida, ordenou: “Vamos nesse endereço”. O motorista respondeu: “Ok dr”. Às 18h40, Vorcaro voltou a procurar o funcionário e avisou: “Saindo”.
O cruzamento dos horários mostra que o banqueiro permaneceu no endereço durante cerca de duas horas. Cezinha havia informado que Mendonça já o aguardava no local, e o deputado afirmara no dia anterior que estaria lá para receber Vorcaro.
As mensagens, portanto, comprovam a existência de pelo menos um encontro presencial entre o dono do Banco Master e o ministro do Supremo. Também indicam a participação de Cezinha de Madureira.
Reunião em endereço privado O encontro não aconteceu na sede do Supremo Tribunal Federal, no gabinete do deputado ou em uma dependência do Banco Master.
No endereço indicado por Cezinha — Alameda Santos, 647, 16º andar — funciona, segundo o documento vazado, o Instituto ITER, instituição de ensino dedicada a cursos de formação e aperfeiçoamento profissional. O instituto foi fundado por André Mendonça em 2023.
A escolha de um endereço privado torna necessário esclarecer se o encontro apareceu na agenda pública de Mendonça, em que condição o ministro recebeu o banqueiro, quem mais participou da conversa e qual assunto foi tratado.
O material não apresenta uma ata, gravação ou transcrição da reunião. Também não mostra se o ministro tomou alguma providência depois do encontro.
A ponte evangélica Cezinha de Madureira exerce o terceiro mandato de deputado federal por São Paulo e é um dos principais representantes políticos da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira.
Sua proximidade religiosa e política com Mendonça ajuda a explicar o papel de ponte desempenhado nas conversas. O ministro foi pastor presbiteriano e teve sua indicação ao Supremo promovida por Jair Bolsonaro sob a promessa de escolher um nome “terrivelmente evangélico”.
O deputado aparece no vazamento como uma pessoa com acesso direto ao ministro: teria conversado antecipadamente com Mendonça sobre a situação de Vorcaro perante o Banco Central, confirmado o compromisso de fevereiro e organizado o encontro comprovadamente realizado em março.
O documento menciona ainda que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher de Cezinha, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Valéria foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, que também atua na defesa de Daniel Vorcaro. A coincidência na representação jurídica não demonstra, por si só, que o dinheiro tenha relação com o banqueiro ou com o Banco Master, mas revela mais um ponto de contato entre os personagens.
O que as mensagens provam — e o que não provam O vazamento comprova que Ciro Rocha Soares procurou Vorcaro enquanto estava com André Mendonça; enviou uma fotografia ao lado do ministro; disse estar “trabalhando” para o banqueiro; e atuou para organizar uma reunião entre os dois.
Também comprova que Ciro afirmou ter apresentado a Mendonça um assunto relacionado a Vorcaro e que, segundo o próprio advogado, a conversa teria deixado o ministro “balançado”.
No mesmo áudio, Ciro disse que Mendonça conhecia “a situação do Banco Central toda” porque ele e Cezinha de Madureira já haviam falado sobre o tema com o ministro.
As mensagens registram ainda o agendamento de um compromisso para 19 de fevereiro, com a possível participação de Bruno Bianco, e comprovam a realização do encontro de 14 de março.
Sobre a reunião de março, há três conjuntos convergentes de evidências: Cezinha informou data e endereço; disse que Mendonça já aguardava Vorcaro; e as mensagens do banqueiro com o motorista comprovam sua chegada e sua permanência no local durante aproximadamente duas horas.
O material, por outro lado, não revela com precisão o pedido que teria sido levado a Mendonça. Também não permite afirmar que o ministro tenha interferido no Banco Central, prometido ajuda, recebido alguma vantagem ou adotado uma decisão em benefício do Banco Master.
A existência de uma reunião entre um ministro do Supremo e um banqueiro não configura, isoladamente, irregularidade. O interesse público está no contexto: a aproximação foi promovida como um trabalho em favor de Vorcaro, envolveu conversas prévias sobre uma situação no Banco Central e ocorreu de maneira secreta, em um endereço privado.
O outro lado Nota do gabinete do ministro André Mendonça
Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.
Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.
Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.
Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade”.
A reportagem também tentou localizar o advogado Ciro Rocha Soares para que comentasse as mensagens e os áudios, mas não conseguiu contato. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos dos citados.
Nota do advogado Ciro Soares
Tentar marcar conversas com magistrados é uma prática natural e muitas vezes necessária na advocacia. Nas conversas mencionadas não há nenhuma irregularidade.
É importante destacar que, no período da dita conversa, fevereiro de 2025, Daniel Vorcaro não era investigado e o ministro referido não era relator de nenhum processo vinculado ao empresário.
O referido ministro só se tornou relator do caso Master em 2026, quase um ano depois da conversa. Não faz sentido, portanto, estabelecer qualquer conexão entre as duas situações.
Devemos deixar claro ainda que a quebra de sigilo de advogado com cliente é uma ilegalidade que afronta o amplo direito de defesa.
*A reportagem foi publicada originalmente na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, no Substack, e reproduzida na íntegra pelo ICL Notícia”
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Eis uma pergunta que parece saída de uma comédia de costumes do Judiciário: André Mendonça vai pedir à PGR que leve ao plenário o encontro de André Mendonça com Daniel Vorcaro?
A lógica seria impecável — se o personagem não fosse, ao mesmo tempo, o próprio interessado e o protagonista do episódio.
Depois de admitir que se encontrou com Vorcaro antes de assumir a relatoria do caso Banco Master, Mendonça passou a conviver com uma questão incômoda: se o encontro foi absolutamente normal, transparente e irrelevante, por que não colocar tudo às claras e permitir que o plenário examine o assunto?
Seria uma oportunidade extraordinária para transformar o episódio em exemplo de transparência. Bastaria abrir as portas, colocar os fatos sobre a mesa e deixar que os demais ministros avaliassem, sem filtros, sem versões cuidadosamente calibradas e sem aquele confortável silêncio institucional que costuma acompanhar situações inconvenientes.
Mas há uma pequena ironia no caminho: quem vai pedir para o plenário examinar o encontro de Mendonça com Vorcaro? O próprio Mendonça?
Seria quase como o réu solicitar ao tribunal: “Por favor, apreciem com urgência o meu próprio caso”. Uma inovação processual digna de registro.
O ponto central não é presumir culpa de ninguém. É justamente o contrário: quanto maior a controvérsia, maior deveria ser a disposição para esclarecer tudo publicamente.
Afinal, se não há nada a esconder, que venha o plenário.
E que venha também a memória completa dos fatos, as circunstâncias do encontro, quando ocorreu, quem o articulou, o que foi discutido e, sobretudo, qual era a relação entre aquele encontro e a posterior atuação de Mendonça no caso Master.
Porque, convenhamos, há situações em que a melhor resposta para a suspeita não é uma explicação cuidadosamente escolhida.
É abrir a caixa-preta.
Afinal de contas, o que vale para André tem que valer para Mendonça.
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André Mendonça parece ter encontrado uma nova vocação: além de ministro do Supremo, quer exercer uma espécie de chefia informal da Polícia Federal. No caso envolvendo Lulinha, sua relação com a PF chegou a um ponto em que a palavra “trégua” já parece grande demais para o tamanho do conflito.
O ministro não vê margem para pacificação. E talvez seja justamente esse o problema: quando um magistrado entra em uma queda de braço com a polícia responsável por uma investigação, quem deveria baixar a temperatura é o ministro, não aumentar o fogo.
A PF tem suas responsabilidades e, evidentemente, deve prestar contas à Justiça. Mas fiscalização judicial não significa transformar investigador em subordinado de gabinete. Há uma diferença monumental entre controlar a legalidade de uma investigação e querer controlar, passo a passo, quem investiga, como investiga e até a composição da equipe.
É uma distinção que deveria ser elementar para qualquer integrante da Suprema Corte.
E o mais curioso é que, diante da escalada, quem aparece tentando colocar água na fervura é Edson Fachin. O presidente do STF percebeu que a brincadeira pode sair cara demais e tenta impedir que uma divergência sobre investigação se transforme em uma guerra institucional entre o Supremo e a Polícia Federal.
Fachin parece ter percebido aquilo que Mendonça aparentemente ainda não percebeu: não existe vitória quando duas instituições fundamentais da República saem de uma disputa mutuamente enfraquecidas.
E há algo ainda mais incômodo.
Estamos falando de uma investigação que envolve o filho do presidente Lula, em pleno ano eleitoral. Portanto, qualquer autoridade que participe desse processo deveria ter como primeira preocupação evitar que sua atuação seja interpretada como combustível para uma disputa política.
Não basta ser imparcial. É preciso parecer imparcial.
Quando um ministro assume uma postura de confronto com a PF justamente numa investigação de enorme repercussão política, a pergunta inevitável aparece: por que tanta tensão? Por que tanta necessidade de controle? Por que a investigação não pode simplesmente seguir seu curso dentro das competências de cada instituição?
Se há irregularidade na PF, que se apresentem as provas. Se há abuso, que se demonstre o abuso. Se há crime, que se investigue e responsabilize quem tiver de ser responsabilizado.
Mas transformar divergência institucional em cabo de guerra não fortalece a Justiça. Enfraquece-a.
E é impossível não lembrar do velho problema brasileiro: quando a política entra pela porta dos fundos das instituições, a credibilidade costuma sair pela porta da frente.
O caso Lulinha não pode virar uma espécie de campeonato de autoridade no qual cada lado tenta demonstrar quem manda mais. Supremo não é delegacia. Polícia Federal não é extensão de gabinete de ministro. E investigação criminal não pode ser convertida em espetáculo eleitoral.
Mendonça deveria ser o primeiro a compreender isso.
A impressão que fica é a de um ministro excessivamente disposto a disputar espaço com a instituição que deveria apenas fiscalizar dentro dos limites constitucionais. E, enquanto ele endurece, Fachin tenta evitar que a crise adquira proporções maiores.
É quase uma cena de incêndio institucional: um coloca mais lenha, o outro procura o extintor.
No final, quem paga a conta é a credibilidade das instituições.
E há uma ironia adicional: quanto mais a investigação for cercada por brigas, vazamentos, suspeitas e disputas entre autoridades, mais espaço se abre para aqueles que querem transformar qualquer investigação em narrativa política.
Por isso, a melhor resposta para o caso Lulinha é a mais simples e menos espetacular: provas, autos, contraditório e devido processo legal.
Se houver crime, que os responsáveis respondam por ele.
Se não houver, que as acusações desmoronem por falta de provas.
O que não dá é transformar o Supremo em uma central de comando investigativo e depois esperar que ninguém questione os limites dessa atuação.
Mendonça pode até não querer trégua com a PF. Mas a República precisa de limites. E, neste momento, parece que Fachin está tentando lembrar ao colega que toga não vem acompanhada de crachá de delegado.
Soma-se a isso o silêncio ensurdecedor sobre o caso de Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A encrenca está armada para André Mendonça.
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O discurso de um juiz terrivelmente pobre — e a conta milionária paga pelo contribuinte
André Mendonça conseguiu produzir uma daquelas cenas que dispensam qualquer comentário de adversário político: fez um discurso de juiz “terrivelmente pobre” e acabou recebendo críticas até de setores da mídia que, em outras circunstâncias, costumam lhe oferecer tratamento bastante mais generoso.
A contradição é difícil de ignorar. O discurso pode até tentar vender a imagem de um Judiciário austero, sacrificado e incompreendido, mas ela esbarra numa realidade muito mais prosaica: magistrados no Brasil estão entre os servidores mais bem remunerados do país, e a remuneração pode ser turbinada por uma impressionante coleção de benefícios e penduricalhos.
É justamente aí que a retórica perde força. Falar em dificuldades e sacrifícios quando se está sentado sobre uma estrutura de privilégios remuneratórios soa, no mínimo, desconectado da vida de milhões de brasileiros que precisam sobreviver com salários infinitamente menores, sem auxílio, verba indenizatória, gratificações especiais ou qualquer mecanismo capaz de transformar uma remuneração já elevada em algo ainda mais distante da realidade nacional.
E o mais curioso foi a reação da própria mídia amiga. Quando até aqueles que normalmente fazem contorcionismo para proteger determinadas figuras do Judiciário resolvem “sentar o bambu”, é sinal de que o discurso ultrapassou uma fronteira particularmente sensível. A imagem de austeridade simplesmente não combinou com a realidade de quem recebe remuneração e vantagens que, para a esmagadora maioria da população, pertencem ao universo dos reis e rainhas.
Não se trata de defender que juiz receba pouco. Magistrados exercem uma função de enorme responsabilidade e precisam ser adequadamente remunerados. A questão é outra: qual é o limite entre remuneração compatível com a função e um sistema de privilégios que parece existir em uma dimensão paralela à do país real?
Enquanto isso, o trabalhador comum enfrenta inflação, aluguel, impostos, jornadas exaustivas e, para milhões, a escala 6×1. Não existe “penduricalho” para compensar o custo de vida. Não há verba especial para pagar supermercado, combustível ou escola dos filhos. Muito menos uma estrutura capaz de transformar um salário em uma pequena fortuna.
Por isso, o problema do discurso de Mendonça não está apenas no que ele disse, mas na distância entre a narrativa e a realidade. Pobreza, no Brasil, definitivamente não é um conceito que possa ser utilizado com a mesma liberdade por quem recebe remuneração de elite.
No fim, talvez a melhor síntese tenha vindo justamente da reação que o discurso provocou: quando até a mídia que costuma ser complacente resolveu puxar o freio, ficou evidente que havia alguma coisa profundamente fora do lugar.
E não era o salário do trabalhador.
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Há momentos em que o silêncio da imprensa se torna uma notícia por si só. E a pergunta que começa a incomodar é inevitável: quem, afinal, está recebendo mais proteção da mídia — Flávio Bolsonaro, André Mendonça ou Nunes Marques?
A questão ganha força diante da sucessão de episódios envolvendo o candidato do PL, o caso Dark Horse, sua relação com Daniel Vorcaro e a atuação de ministros indicados por Jair Bolsonaro em processos que alcançam direta ou indiretamente o universo político bolsonarista.
No caso de Flávio Bolsonaro, por exemplo, há investigações que continuam produzindo fatos novos. A imprensa noticiou que o caso Dark Horse permanece em investigação e que André Mendonça é o relator das apurações relacionadas aos repasses de Vorcaro. Também foram divulgadas informações sobre mensagens e áudios que colocaram sob questionamento versões anteriormente apresentadas pelo senador.
Mas a pergunta que precisa ser feita é: a mesma disposição jornalística utilizada para explorar suspeitas contra adversários políticos é aplicada quando o personagem investigado está no campo bolsonarista?
André Mendonça também passou a ocupar o centro desse debate. O ministro é responsável por decisões relevantes em processos que envolvem o entorno de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, aparece em outras disputas eleitorais de grande repercussão. Recentemente, por exemplo, determinou a retirada de um vídeo produzido por inteligência artificial que associava Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, por entender que o material criava situações inexistentes com aparência de realidade.
Isso, evidentemente, não permite concluir que exista proteção indevida. Decisões judiciais precisam ser examinadas pelo conteúdo e pela fundamentação, não por simpatias políticas. Mas justamente por isso deveriam receber escrutínio jornalístico rigoroso, transparente e proporcional.
E Nunes Marques?
O ministro também entrou no centro das atenções eleitorais. Foi ele quem determinou o restabelecimento da filiação de Flávio Bolsonaro ao PL depois do episódio envolvendo o registro de filiação ao partido Missão, além de determinar investigação sobre o caso.
Dias depois, Nunes Marques teve papel decisivo em outro processo eleitoral ao desempatar, no TSE, o julgamento que permitiu a candidatura de Marcelo Crivella ao Senado. A decisão ocorreu após liminar anteriormente concedida por André Mendonça.
São fatos públicos. E fatos públicos deveriam ser tratados como fatos públicos — sem blindagem, sem demonização e sem dois pesos e duas medidas.
É aí que a pergunta ganha força política e jornalística: por que determinados personagens são submetidos diariamente a manchetes, especulações, editoriais e vazamentos, enquanto outros parecem ser tratados com uma cautela quase reverencial?
Se a imprensa pretende fiscalizar o poder, precisa fiscalizar todo o poder. Se pretende investigar relações políticas, jurídicas e empresariais, precisa fazê-lo independentemente de quem esteja no centro da história.
Porque o verdadeiro problema não é perguntar se a mídia está protegendo Flávio Bolsonaro, André Mendonça ou Nunes Marques. O problema é quando o leitor começa a ter a impressão de que há personagens para os quais qualquer suspeita vira manchete e personagens para os quais até fatos relevantes são tratados como nota de rodapé.
E essa é uma questão que a própria imprensa deveria responder.
Quem está sendo protegido? Quem está sendo poupado? E, principalmente, por quê?
Enquanto essas perguntas permanecerem sem respostas convincentes, a suspeita de seletividade continuará rondando a cobertura política brasileira — e não será resolvida simplesmente aumentando o volume das manchetes contra os adversários de sempre.
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