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Parte da grande mídia começa a abandonar André Mendonça

Há sinais cada vez mais evidentes de que parte da grande mídia começa a perceber que a defesa incondicional de André Mendonça se tornou um fardo. Durante muito tempo, setores da imprensa trataram o ministro indicado por Jair Bolsonaro como uma espécie de personagem intocável, blindando suas decisões, relativizando controvérsias e evitando perguntas incômodas. Agora, diante do acúmulo de fatos e da dimensão política do caso Banco Master, essa blindagem começa a apresentar rachaduras.

O movimento é revelador. Quando a narrativa deixa de ser conveniente, os mesmos veículos que ajudaram a construir reputações passam a adotar uma cautela repentina. O problema é que não basta trocar o tom depois que os fatos se tornam impossíveis de ignorar. Jornalismo não deveria funcionar como seguro contra desgaste político.

Mendonça chegou ao Supremo sob o patrocínio explícito de Bolsonaro e carregou consigo a imagem de uma escolha destinada a representar os interesses do então presidente dentro da Corte. Hoje, qualquer questionamento sobre sua atuação precisa ser tratado com a máxima transparência, sobretudo quando envolve personagens e interesses que orbitam o escândalo do Banco Master.

E é justamente aí que a mudança de comportamento de parte da mídia chama atenção. Enquanto Alexandre de Moraes virou alvo permanente de manchetes, editoriais e análises indignadas, Mendonça frequentemente recebeu um tratamento muito mais complacente. A diferença de critérios tornou-se difícil de esconder.

Agora, diante da sucessão de revelações, a estratégia parece mudar: antes que a crise atinja proporções ainda maiores, alguns veículos começam a se afastar de Mendonça. Não necessariamente por uma súbita conversão ao rigor jornalístico, mas porque perceberam que a blindagem pode custar caro.

O ponto central é simples: ministro do Supremo não pode ser protegido por simpatias políticas, relações pessoais ou conveniências editoriais. Se existem dúvidas sobre sua conduta, elas precisam ser investigadas. Se não existem irregularidades, que os fatos e documentos demonstrem isso. O que não pode existir é uma imprensa com dois pesos e duas medidas.

A grande questão, portanto, não é apenas saber se parte da mídia está abandonando André Mendonça. É perguntar por que demorou tanto para fazê-lo.

Porque, quando a imprensa abandona uma blindagem somente depois que ela se torna insustentável, fica a impressão de que não estava defendendo o jornalismo — estava apenas administrando os danos.

O agravante, nesse caso, está no fato do que foi revelado sobre o instituto de André Mendonça, Iter, fundado por ele. Foi uma enxurrada de denúncias de contratos sem licitação com insituições públicas administradas por políticos do PL e congêneres, o que, tudo indica, o pegou num contrapé fatal, obrigando-o a, depois da descoberta desse esquema, em menos de 24 horas se autoexonerar dessa barbada.

A partir de então, começou a dar ruim para Mendonça, Mesmo aquelas blindagens da mídia no caso em que ele tratava de forma diferente as pessoas ligadas ao Master por vínculo partidário, passaram a integrar a vitrola dos comentaristas da grande mídia que se descolaram da canoa fura furada chamada André Mendonça, o ex-terrivelmente poderoso.

Sem falar no que é pior, da sua blindagem aos crimes que envolvem Flavio Bolsonaro no mesmo caso Master, que ganhou uma outra narrativa de quem, até então, estava na mídia, par e passo com Mendonça.

Mendonça confiou demais no seu estrelato como algo eterno, que que, agora, mostra-se efêmero.


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Política

O fumacê midiático em torno do Banco Master: quem ganha quando o foco sai de Flávio?

O Banco Master, de Daniel Vorcaro, nasceu e cresceu durante o governo Jair Bolsonaro e acabou liquidado no governo Lula, depois que vieram à tona suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo a instituição. No meio desse terremoto financeiro, surgiu uma conexão política que deveria estar no centro do debate: o caso Dark Horse, filme destinado a promover a trajetória de Jair Bolsonaro e que recebeu dezenas de milhões de reais ligados a Vorcaro.

E aqui começa a parte mais incômoda da história.

Flávio Bolsonaro não é um personagem periférico nesse episódio. Ele próprio confirmou que procurou Vorcaro para obter recursos para o filme. Mensagens e áudios divulgados pela imprensa mostraram a atuação do senador nas tratativas, enquanto as investigações passaram a examinar o destino dos recursos. Segundo a Agência Brasil, os repasses identificados chegaram a cerca de R$ 61 milhões; novas revelações elevaram ainda mais o volume associado ao projeto.

E quem ficou com a relatoria do caso no Supremo? André Mendonça, ministro indicado por Jair Bolsonaro.

Mas justamente por isso a questão que precisa ser feita é outra: até onde vai a independência dessa investigação, quais serão seus próximos passos e por que o debate público parece tão mais interessado em transformar o caso numa guerra interna do STF do que em seguir o dinheiro?

Porque, enquanto a imprensa produz diariamente uma gigantesca cortina de fumaça em torno das disputas entre ministros, existe uma pergunta muito mais objetiva: qual foi a origem dos milhões de Vorcaro, por que Flávio Bolsonaro procurou o banqueiro e qual foi o destino efetivo desse dinheiro?

Agora, diante das controvérsias envolvendo Mendonça e seu encontro não registrado oficialmente com Vorcaro, aparece Flávio Bolsonaro para defender a “inocência” do ministro.

Conveniente, não?

O político diretamente atingido pelas investigações sobre os milhões destinados ao projeto Dark Horse sai em defesa justamente do ministro que conduz uma das apurações relacionadas ao caso. Ao mesmo tempo, a discussão pública é empurrada para uma briga espetacularizada entre integrantes do Supremo.

É o fumacê perfeito.

Enquanto todos discutem quem atacou quem, quem encontrou quem e qual ministro está em guerra com qual ministro, o foco principal corre o risco de desaparecer: Vorcaro, o dinheiro, o Banco Master, os repasses milionários e suas conexões políticas.

E talvez seja justamente essa a pergunta que a velha mídia deveria fazer com muito mais insistência: por que o caso Dark Horse, que envolve diretamente Flávio Bolsonaro e dezenas de milhões de reais ligados a Vorcaro, não recebe o mesmo tratamento obsessivo reservado às disputas envolvendo Alexandre de Moraes?

Não se trata de proteger Moraes, Mendonça ou qualquer outro ministro. Trata-se de exigir o mesmo rigor para todos.

Porque, quando a imprensa transforma uma investigação sobre dinheiro e possíveis irregularidades em uma novela sobre egos, intrigas e guerras palacianas, o resultado é previsível: muita fumaça, muitos holofotes e pouca luz sobre o caminho percorrido pelo dinheiro.

E é justamente o caminho do dinheiro que deveria estar no centro de tudo.


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Política

Todos os caminhos de Vorcaro levam a Bolsonaro

Há histórias que, de tão cheias de coincidências, deixam de parecer coincidência. O caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master é uma delas. À medida que surgem novos documentos, mensagens, movimentações financeiras e conexões políticas, o mapa vai ficando cada vez mais incômodo — e, nele, o nome Bolsonaro aparece com uma frequência que exige explicações.

Não estamos falando de uma fotografia isolada, de um encontro casual ou de uma relação protocolar. O que precisa ser esclarecido é a extensão de uma rede de contatos que aproxima Vorcaro de personagens do universo bolsonarista e envolve valores que não podem ser tratados como meros detalhes contábeis.

É dinheiro. É poder. É influência. E, sobretudo, são relações que precisam ser explicadas.

A velha fórmula da política brasileira — fingir que não existe problema enquanto se espera que o escândalo desapareça do noticiário — não pode prevalecer. Se há operações financeiras, encontros, mensagens ou intermediações envolvendo pessoas ligadas à família Bolsonaro, e o próprio Flavio Bolsonaro, tudo precisa ser colocado sob a luz do dia.

E há uma pergunta que não pode ser abafada: por que tantos fios dessa trama parecem convergir para o mesmo grupo político?

É evidente que proximidade, por si só, não prova crime. Mas também é evidente que proximidade recorrente, dinheiro e influência política formam uma combinação que não pode ser simplesmente ignorada. Cabe às autoridades investigar, aos envolvidos explicar e à imprensa acompanhar sem proteger ninguém.

O mais preocupante seria assistir novamente ao velho espetáculo da seletividade: quando o personagem investigado pertence ao campo adversário, qualquer indício vira manchete; quando as conexões chegam ao entorno bolsonarista, surgem imediatamente eufemismos, justificativas e uma impressionante disposição para relativizar.

Não é assim que uma democracia funciona.

Se existe uma trilha financeira, que se siga o dinheiro. Se existem mensagens, que sejam examinadas. Se existem encontros, que se descubra o que foi tratado. Se existem beneficiários, que sejam identificados. E se não houver irregularidade alguma, que os próprios investigados sejam os primeiros a exigir que tudo seja esclarecido.

Porque o que está em jogo não é apenas a reputação de Vorcaro ou de qualquer integrante da família Bolsonaro. É a capacidade das instituições brasileiras de investigar relações entre dinheiro, bancos e poder político sem escolher previamente quem merece ser protegido.

No fim, a pergunta continua de pé — e ficará cada vez mais difícil silenciá-la:

quantos caminhos ainda precisarão ser percorridos até que se descubra onde, exatamente, termina Vorcaro e começa a família Bolsonaro?


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Política

Covaxin: o escândalo que a CPI da Covid arrancou das entranhas do governo Bolsonaro

A vacina Covaxin que revelou o porão do governo Bolsonaro

O escândalo da Covaxin foi um daqueles episódios que, por si só, deveriam ter sido suficientes para marcar para sempre a história de um governo. Enquanto o Brasil enterrava seus mortos pela Covid-19, enquanto famílias desesperadas procuravam oxigênio, leitos e vacinas, nos subterrâneos do governo Bolsonaro se desenrolava uma operação bilionária cercada de pressões, inconsistências documentais, intermediários suspeitos e perguntas que até hoje não podem ser tratadas como mero detalhe burocrático.

Foi a CPI da Covid que abriu a porta desse porão.

E o que apareceu não foi bonito.

O governo havia contratado 20 milhões de doses da Covaxin por aproximadamente R$ 1,6 bilhão, em um negócio que passou a despertar uma sucessão de suspeitas. O processo avançou em velocidade incomum, apesar dos obstáculos e inconsistências apontados por servidores do próprio Ministério da Saúde. Havia problemas nos documentos, questionamentos sobre o pagamento e uma tentativa de envolver uma empresa que não constava originalmente do contrato.

O mais impressionante, porém, estava em outro lugar.

O presidente da República foi avisado.

Os irmãos Luís Miranda e Luís Ricardo Miranda levaram ao conhecimento de Jair Bolsonaro as suspeitas relacionadas à operação. Luís Ricardo, servidor do Ministério da Saúde, havia identificado problemas na documentação e relatado pressão para dar andamento ao negócio.

A partir daí, o escândalo ganhou uma dimensão política explosiva.

Porque, se o presidente da República recebe informações sobre possíveis irregularidades em uma contratação bilionária de vacinas e, em vez de determinar imediatamente uma investigação, deixa o episódio seguir seu curso, surge uma pergunta inevitável: quem estava sendo protegido?

A CPI foi atrás dessa resposta.

E encontrou uma história ainda mais incômoda.

A operação envolvia a Precisa Medicamentos, intermediária da negociação, e documentos que apresentavam inconsistências. Um dos pontos mais graves era a previsão de pagamento a uma empresa chamada Madison Biotech, sediada em Singapura, que não aparecia como contratada no negócio original.

Em qualquer administração minimamente comprometida com o dinheiro público, uma sucessão de sinais dessa natureza deveria acender todas as luzes vermelhas.

No governo Bolsonaro, as luzes precisaram ser acesas por uma CPI do Congresso.

Essa é talvez a dimensão mais importante do caso.

A Covaxin não foi apenas uma história sobre uma vacina que acabou não sendo aplicada. Foi uma história sobre como o poder público negociava bilhões de reais durante uma emergência sanitária e sobre o que acontecia quando servidores levantavam dúvidas sobre a operação.

E há algo particularmente repugnante no contraste.

De um lado, o governo Bolsonaro tratava a vacinação com uma mistura de negligência, sabotagem política e desinformação. De outro, quando surgia uma oportunidade de contratar uma vacina por bilhões de reais, apareciam pressa, pressão e uma cadeia de acontecimentos que despertou suspeitas no próprio Ministério da Saúde.

A CPI fez aquilo que as instituições do Executivo deveriam ter feito desde o primeiro alerta: perguntou, confrontou documentos, ouviu servidores, rastreou responsabilidades e colocou o negócio sob os holofotes.

O contrato acabou suspenso e posteriormente cancelado.

Mas o cancelamento não apaga o escândalo.

Ao contrário.

Ele torna ainda mais necessário perguntar por que uma contratação cercada de tantos sinais de alerta chegou tão longe.

A Covaxin entrou para a história da pandemia brasileira como um símbolo do que acontecia quando interesses políticos, negócios privados e dinheiro público se encontravam no pior momento possível: quando milhares de brasileiros estavam morrendo e cada dia de atraso na vacinação custava vidas.

A CPI da Covid teve muitos episódios, mas o caso Covaxin ocupa um lugar especial porque desmontou uma das narrativas centrais do bolsonarismo: a de que o governo seria simplesmente vítima de uma perseguição política.

Não era perseguição.

Era investigação.

E investigação existe justamente para fazer aquilo que governos acuados detestam: colocar documentos sobre a mesa, reconstruir os caminhos do dinheiro, confrontar versões e perguntar quem sabia o quê — e quando sabia.

No caso Covaxin, a pergunta permanece brutalmente simples:

se o presidente foi alertado sobre possíveis irregularidades em uma operação bilionária de compra de vacinas, por que a investigação não partiu imediatamente do Palácio do Planalto?

Foi preciso uma CPI para fazer essa pergunta em voz alta.

E talvez seja esse o maior legado do escândalo: a Covaxin mostrou que, durante a tragédia da Covid-19, havia muito mais acontecendo dentro do governo Bolsonaro do que aquilo que aparecia nas coletivas e nas redes sociais.

Enquanto o país contava mortos, a CPI contou documentos.

Enquanto o governo tentava controlar a narrativa, a comissão desmontava versões.

E enquanto Bolsonaro procurava se apresentar como alguém que nada sabia, a Covaxin deixou uma pergunta política impossível de esconder:

O que exatamente o presidente sabia — e por que, diante dos alertas que recebeu, não fez aquilo que qualquer presidente deveria fazer quando suspeita de uma fraude bilionária: mandar investigar?


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Flávio Bolsonaro: da fieira de escândalos à disputa pela Presidência sob o manto da impunidade

Com uma fieira de escândalos e crimes acumulados ao longo da trajetória política, Flávio Bolsonaro chegou ao Senado e agora se apresenta como candidato à Presidência da República. É uma das mais impressionantes demonstrações de como a impunidade pode se transformar em método político.

Flávio aprendeu que, no Brasil, basta repetir uma versão até que ela ganhe aparência de verdade — e, sobretudo, basta contar com uma blindagem política e midiática suficientemente resistente para que as contradições não produzam consequências imediatas. O resultado é um candidato que pode desfilar diante das câmeras, acumular declarações desmentidas por fatos e documentos e, ainda assim, seguir falando como se estivesse acima de qualquer cobrança.

As recentes entrevistas e checagens são um retrato desse mecanismo. Veículos de checagem apontaram distorções e contradições em suas declarações sobre o Banco Master, Daniel Vorcaro, o 8 de Janeiro e outros temas. E as investigações envolvendo suas relações com o caso Master e a produção do filme sobre Jair Bolsonaro continuam produzindo novos capítulos.

O mais escandaloso, portanto, não é apenas a quantidade de controvérsias que acompanha sua carreira. É a naturalização delas. Flávio parece ter chegado a um estágio em que a mentira deixou de ser um recurso excepcional da política e passou a funcionar como instrumento permanente de comunicação: diz, nega, distorce, muda a versão e segue adiante.

E há algo ainda mais grave: a candidatura presidencial transforma esse passado em uma espécie de teste para as instituições. Se alguém pode atravessar uma longa sucessão de crimes, investigações, contradições e denúncias e, em vez de prestar contas, simplesmente subir mais um degrau na hierarquia do poder, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora.

A questão já não é apenas o que Flávio diz. É por que ele pode dizer qualquer coisa, tantas vezes, sem que a mentira tenha custo político, jurídico ou institucional proporcional à gravidade das acusações que a cercam.

A impunidade, quando se torna rotina, deixa de ser apenas ausência de punição: transforma-se em licença para continuar. E Flávio Bolsonaro parece apostar justamente nisso — na ideia de que, aconteça o que acontecer, haverá sempre uma narrativa pronta, uma tropa política para repeti-la e uma blindagem suficiente para impedir que a realidade alcance o personagem.


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A serpente fascista colocou dois ovos no STF

A serpente fascista não desapareceu. Ela apenas aprendeu a trocar de pele, a falar em nome das instituições e a se apresentar com a aparência respeitável de quem pretende defender a democracia enquanto trabalha, por dentro, para corroê-la.

E agora, na leitura política que se pode fazer do momento, essa serpente conseguiu colocar dois ovos dentro do STF. O perigo não está apenas no que esses ovos representam hoje, mas no que podem produzir amanhã. Porque ovos de serpente não nascem para ornamentar o ninho: nascem para perpetuar o veneno.

A extrema direita brasileira descobriu que não precisa necessariamente ocupar todos os espaços pelo voto. Pode tentar disputar instituições, influenciar decisões, pressionar ministros, fabricar crises e transformar o debate jurídico em extensão da guerra política. É uma estratégia conhecida: quando não consegue conquistar democraticamente o poder, tenta capturar os mecanismos capazes de condicioná-lo.

Por isso, é preciso olhar para esses dois ovos com muito mais atenção do que a complacência institucional costuma permitir. Não se trata de demonizar pessoas ou antecipar decisões, mas de reconhecer que determinadas escolhas para a mais alta Corte do país carregam consequências que ultrapassam biografias individuais.

O STF não é um clube político, tampouco uma trincheira partidária. É uma das últimas barreiras institucionais contra a ruptura democrática. Quando forças que flertaram abertamente com autoritarismo conseguem plantar representantes no coração dessa estrutura, o problema deixa de ser meramente partidário: passa a ser uma questão de defesa da própria democracia.

A serpente sabe esperar. Ela não precisa dar o bote imediatamente. Basta permanecer enrolada, silenciosa, aguardando a hora conveniente para atacar.

É justamente por isso que os dois ovos precisam ser observados com lupa. Porque democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Às vezes, ela começa a apodrecer quando o autoritarismo aprende a vestir terno, falar baixo, citar a Constituição e ocupar, por dentro, os espaços criados para protegê-la.

E quem acha que a serpente fascista está domesticada talvez descubra tarde demais que serpente não perde o veneno porque mudou de pele.


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Flávio saiu menor do que entrou no JN. A campanha pagará a conta

Flávio Bolsonaro entrou no Jornal Nacional com a missão de vender a imagem de candidato preparado, seguro e capaz de enfrentar perguntas difíceis. Saiu, porém, muito menor do que entrou — e isso dificilmente será apagado pelos cortes cuidadosamente selecionados para as redes sociais.

Da primeira à última pergunta, Flávio pareceu mais preocupado em escapar das questões do que em respondê-las. Quando apertado, se embananou. Quando precisava ser objetivo, desviou. Quando a pergunta exigia explicação, entregou justificativas que abriram ainda mais espaço para novas dúvidas.

Mas foi quando entraram em cena Vorcaro e Adriano da Nóbrega que a situação ficou particularmente desconfortável. Ali, a entrevista deixou de ser apenas um teste eleitoral e passou a expor o tamanho do problema que acompanha sua candidatura: quanto mais se tenta explicar determinadas relações e episódios, mais perguntas aparecem.

E esse é justamente o pesadelo de uma campanha: o candidato sair de uma entrevista de grande audiência não com uma frase forte, uma resposta memorável ou uma proposta capaz de dominar o debate, mas com um rastro de contradições, explicações atravessadas e assuntos espinhosos repercutindo.

O JN não precisa derrubar candidato algum. Basta fazer perguntas.

Quem chega preparado responde. Quem tem domínio sobre a própria história não precisa se enrolar para explicar o passado. E quem pretende disputar a Presidência precisa entender que entrevista não é palanque particular, muito menos sessão de perguntas combinadas para produzir vídeo de campanha.

Flávio teve diante de si uma oportunidade gigantesca para apresentar-se como alternativa política. Conseguiu, em vez disso, alimentar justamente as dúvidas que sua campanha gostaria de manter longe dos holofotes.

Agora vem a parte mais difícil: a internet não esquece, os adversários vão explorar cada tropeço e os trechos mais constrangedores continuarão circulando. A entrevista acaba no estúdio, mas suas consequências políticas podem permanecer por muito tempo.

No fim das contas, o problema de Flávio não foi apenas ter enfrentado perguntas duras, até porque os entrevistadores foram maleávies com ele, foi não ter conseguido parecer confortável diante delas.

Saiu do JN com menos estatura política do que entrou. E, para uma campanha presidencial, isso é um péssimo negócio.

Deu ruim — e não foi pouco.


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Traíra de Freitas: No bolsonarismo, autonomia é crime de alta traição

A extrema direita acaba de descobrir um novo inimigo: Tarcísio de Freitas. O homem que já foi tratado como herdeiro, candidato dos sonhos e exemplo de “direita moderada” agora ganhou a carinhosa alcunha de “Traíra de Freitas”.

É o bolsonarismo funcionando como sempre: enquanto Tarcísio obedece, é aliado. Quando tenta caminhar com as próprias pernas, vira Judas.

A cena é quase comovente. Os mesmos que passaram anos discursando sobre liberdade, autonomia e “conservadorismo” agora estão indignados porque um político aparentemente resolveu descobrir que tem vida própria.

No maravilhoso dicionário bolsonarista, “lealdade” significa concordar com o chefe. “Independência” significa traição. “Autonomia” é deserção. E “pensar diferente” já pode render uma sentença no tribunal das redes sociais.

Tarcísio talvez esteja aprendendo uma das mais antigas leis da política: quem entra pela porta do personalismo corre o risco de ser expulso por ela quando deixa de ser útil ao dono da casa.

E há algo especialmente divertido nessa história. Tarcísio não precisou ser adversário do bolsonarismo para ser chamado de traidor. Bastou não parecer suficientemente obediente.

Ou seja: não é preciso romper com o bolsonarismo para ser “Traíra de Freitas”. Basta dar sinais de que pretende sobreviver politicamente sem pedir autorização ao clã.

No fim, o apelido é involuntariamente revelador. Quando uma corrente política transforma qualquer gesto de independência em traição, ela está confessando que seu problema nunca foi falta de lealdade.

Foi excesso de submissão.

E Tarcísio, pelo visto, acaba de descobrir que, no bolsonarismo, o amigo de hoje pode ser o traidor de amanhã — especialmente quando começa a parecer que pode andar sozinho.


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Lula fez Moro madrugar — e a mídia deixou o ex-herói no sereno

E há uma ironia deliciosa nisso tudo: Lula não precisou madrugar. Quem teve de acordar cedo para se explicar foi Moro.

A Lava Jato já não tem a mesma aura. Os personagens que antes desfilavam como celebridades do combate à corrupção agora precisam prestar contas sobre os métodos, as escolhas e as consequências daquele período.

Moro pode até tentar recontar sua história. Pode produzir entrevistas, discursos e justificativas. Mas existe um problema insolúvel: a história não é propriedade de quem a conta — muito menos de quem um dia contou com uma mídia inteira ajudando a contá-la.

Foi Lula aparecer no JN e dar uma chacoalhada em Sérgio Moro para acontecer uma coisa inédita: o ex-juiz da Lava Jato teve de madrugar para defender a própria biografia.

E o mais divertido não foi nem Lula colocar Moro contra a parede.

Foi o silêncio da velha mídia.

Cadê os salvadores de Moro?

Cadê os editorialistas indignados?

Cadê os comentaristas que, durante anos, ajudaram a transformar o ex-juiz em super-herói nacional?

Sumiram.

Moro ficou ali, sozinho no palco, procurando quem lhe emprestasse uma capa de herói.

Durante a Lava Jato, bastava uma operação policial, uma delação ou uma manchete para a máquina midiática funcionar a todo vapor. O personagem era celebrado, incensado e tratado como símbolo da luta contra a corrupção.

Agora, quando Lula resolve cobrar a conta, o ex-herói olha para os lados e…

Nada.

Nem um editorial para salvá-lo.

Nem uma operação de resgate jornalístico.

Nem aquele velho batalhão de comentaristas para explicar que Moro estava sempre certo.

Desta vez, Moro teve de se defender sozinho.

E essa talvez seja a parte mais cruel da história: não é apenas Lula que mudou o roteiro. É que a blindagem midiática de Moro já não parece funcionar como antes.

O homem que um dia foi apresentado como o juiz que colocaria o Brasil nos trilhos agora precisa correr atrás do próprio passado antes que alguém o alcance.

E Lula, pelo jeito, nem precisou madrugar.

Quem perdeu o sono foi Moro.

A Lava Jato produziu heróis de manchete.

O tempo, porém, tem o péssimo hábito de conferir as notas de rodapé.

E quando a maquiagem começa a escorrer, não há editorial que dê conta de esconder o rosto por baixo.

Moro madrugou. A mídia dormiu. E Lula ficou acordado.


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Política

Quando a régua da mídia muda conforme o sobrenome

Há uma pergunta incômoda que a imprensa brasileira deveria responder: por que o rigor jornalístico que hoje é aplicado a Lulinha, muitas vezes a partir de ilações, suspeitas e associações sem comprovação, não foi usado com a mesma intensidade quando parentes de Fernando Henrique Cardoso ocupavam posições relevantes no Estado ou orbitavam negócios estratégicos?

O caso de FHC não é uma invenção recente. Durante seu governo, a própria imprensa registrou a contratação de sua filha Luciana Cardoso como assessora do Palácio do Planalto. Em 1995, uma decisão judicial suspendeu a nomeação, apontando possível violação ao princípio constitucional da moralidade e questionando a prática de nepotismo.

Também havia o genro, David Zylbersztajn, casado com Beatriz Cardoso. Antes mesmo de FHC assumir a Presidência, Zylbersztajn ocupava a Secretaria de Energia de São Paulo e depois, no governo tucano, tornou-se diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. A própria imprensa da época registrava o parentesco e sua atuação na área energética.

E é justamente aí que a memória seletiva da mídia merece ser questionada.

Porque estamos falando de um período em que o governo FHC promoveu uma profunda transformação do papel do Estado, com privatizações, abertura a grupos estrangeiros e mudanças estruturais no setor energético. A Petrobras esteve no centro desse projeto. Em 2000, a estatal chegou a anunciar a mudança de sua marca para Petrobrax, iniciativa atribuída à gestão de Henri Philippe Reichstul. A mudança havia recebido aval de FHC, segundo relatos da época, mas foi abandonada depois da enorme reação pública. O episódio custou R$ 700 mil à Petrobras.

O ponto político não é afirmar, sem provas, que determinado parente tenha cometido crime. O ponto é outro: se parentes do presidente estavam envolvidos em posições estratégicas do Estado, isso deveria provocar o mesmo escrutínio jornalístico que hoje se pretende impor a qualquer atividade empresarial de um filho de presidente.

E há uma diferença fundamental entre investigar e condenar por manchete.

Se existem documentos, contratos, relações empresariais ou indícios concretos envolvendo Lulinha, que sejam investigados. Mas jornalismo não pode funcionar à base de “vamos insinuar primeiro e procurar a prova depois”. Tampouco pode transformar parentesco em prova de crime quando o personagem é adversário e, simultaneamente, tratar como mera coincidência quando o sobrenome pertence ao campo político tradicionalmente protegido por determinados veículos.

A questão, portanto, não é pedir tratamento privilegiado para Lulinha. É exigir isonomia.

Se a família de um presidente é assunto de interesse público quando Lula está no poder, também era quando FHC estava no Planalto. Se o filho de Lula pode ser transformado diariamente em personagem central de suspeitas ainda sem comprovação, por que os parentes de FHC não receberam o mesmo tratamento editorial quando estavam próximos de setores estratégicos do governo?

E há uma ironia histórica impossível de ignorar: enquanto hoje determinados setores da imprensa fazem enorme esforço para transformar qualquer menção a Lulinha em escândalo político, o episódio da Petrobrax ficou para a história como símbolo de uma época em que até o nome da Petrobras foi colocado em discussão sob o argumento de facilitar sua internacionalização. A proposta foi apresentada como estratégia de expansão internacional; críticos, por sua vez, viram nela mais um sinal do projeto de desnacionalização da companhia.

É justamente essa comparação que incomoda.

Não se trata de defender Lulinha. Trata-se de defender uma regra única. Filho de presidente não pode ser tratado como culpado por associação, assim como genro, filha ou qualquer outro parente de presidente não deve ser blindado pelo silêncio, pela suavização das manchetes ou pela transformação de fatos politicamente desconfortáveis em notas de rodapé.

A imprensa tem todo o direito — e o dever — de investigar os filhos dos poderosos. Mas precisa investigar todos os poderosos.

Caso contrário, deixa de ser jornalismo fiscalizador e passa a funcionar como uma espécie de tribunal de exceção editorial: severíssimo com uns, compreensivo com outros.

E essa talvez seja a pergunta mais importante de todas: o problema da mídia é realmente o parentesco com o poder ou apenas o parentesco com o poder de quem ela não gosta?

E Lulinha sequer é candidato a cargo eletivo ou tem emprego no governo do seu pai.


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