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Milei fecha acordo militar com Trump para patrulha do Atlântico Sul

Iniciativa acende alerta no Brasil e ocorre depois de Paraguai também fechar acordo para ter base dos EUA; militarização da região é objetivo de Trump

Num gesto que deixou diplomatas brasileiros em estado de alerta, o governo dos EUA anunciou nesta segunda-feira um acordo com a Argentina de Javier Milei para o lançamento do “Programa de Proteção dos Bens Comuns Globais”. O nome esconde, porém, o objetivo da operação: agir em “cooperação” para fortalecer a segurança marítima no Atlântico Sul, na fronteira com o Brasil.

Nas redes sociais, a embaixada dos EUA em Buenos Aires anuncia que a parceria será iniciada com a entrega de uma”câmera especializada a bordo de uma aeronave dedicada ao patrulhamento do território marítimo argentino”.

A diplomacia dos EUA também indicou que se trata de um programa que irá se expandir até 2030 e prevê a chegada de equipamentos avançados, treinamento de elite e apoio para “interceptar e neutralizar” ameaças marítimas. Não são apresentadas quais seriam essas ameaças.

O anúncio gera um desconforto no Brasil que, nas últimas semanas, tentou retomar a ideia do Atlântico Sul ser uma zona de paz. A iniciativa original, de fato, tinha a Argentina como um de seus pilares.

De acordo com a embaixada dos EUA, porém, o Contra-Almirante Carlos Sardiello, do Comando Sul das Forças Navais dos Estados Unidos (USNAVSO), e o Almirante Juan Carlos Romay, da Marinha Argentina, assinaram o acordo que “inicia esta aliança estratégica de cinco anos para defender os bens comuns globais e fortalecer a segurança regional”. “Mais fortes juntos. Mais seguros juntos”, declararam.

A aproximação militar dos EUA ao Cone Sul tem sido alvo de debates internos no Brasil. No início do ano, Trump fechou um acordo com o Paraguai no qual o país sul-americano se colocava à disposição para receber uma base militar americana.

No final de abril, o presidente Javier Milei participou de uma atividade conjunta organizada pelo Comando Sul dos Estados Unidos a bordo do porta-aviões USS Nimitz, localizado ao sul da cidade de Mar del Plata.

*Jamil Chade/ICL

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Brasil Mundo

Lula é destaque em Nova York, Flavio é ignorado, No Brasil, bolsonaristas tomam porre de detergente Ypê

Durante a Brazilian Week (semana de eventos com bancos, empresas e organizações brasileiras), em uma conferência fechada para investidores na sede da BlackRock em Nova York, o analista Aitor Jauregui — responsável pela América Latina da maior gestora de ativos do mundo — avaliou que o presidente Lula (PT) deve se reeleger em 2026.

Razões citadas: Otimismo com os dados econômicos do Brasil. Jauregui destacou que a economia ainda pesa na decisão do voto e que é “difícil tirar a vitória” do atual presidente.

Flávio Bolsonaro: Não foi mencionado nem por Jauregui, nem pelos outros participantes (incluindo Chis Garman, da consultoria Eurasia, que também traçou cenário positivo para Lula, inclusive na relação com Donald Trump).

A BlackRock administra trilhões de dólares em ativos e suas visões influenciam o mercado global, mas trata-se de uma análise interna em evento fechado, baseada em indicadores econômicos atuais — não de uma previsão infalível.

Isso reflete a visão de parte do mercado financeiro internacional: estabilidade macro, números recentes da economia e o encontro recente Lula-Trump ajudam a percepção do incumbente.


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Brasil Mundo

Com ameaça e chantagem, EUA minam ação do Brasil em defesa da população negra

Proposta do Brasil de criar uma Declaração Interamericana é alvo de uma pressão diplomática de Trump

O governo de Donald Trump nos EUA não aceita a proposta do Brasil de criar uma Declaração Interamericana dos Direitos das Pessoas Afrodescendentes. O ICL Notícias apurou com exclusividade que a diplomacia do país está operando uma forte pressão sobre diversos países das Américas para impedir que o documento seja negociado.

O caso, porém, se transformou num espelho da capacidade dos EUA de ditar seus interesses na América Latina, orquestrando o apoio da extrema direita na região e combinando as alianças com ameaças e chantagem contra governos mais vulneráveis.

Desde o começo de 2025, Brasil e Colômbia vêm liderando a negociação de uma futura Declaração Interamericana, com o objetivo de adotá-la na Assembleia Geral da OEA no final de junho, no Panamá.

Segundo observadores que tiveram acesso ao documento, trata-se de uma declaração inovadora e que, em sua versão atual, conta com 28 artigos substantivos e disposições finais, organizados em torno de quatro eixos temáticos fundamentais: Reconhecimento, Justiça, Desenvolvimento, e Gênero e Interseccionalidade.

Na avaliação de seus proponentes, esses temas refletem as principais demandas históricas das pessoas e dos povos afrodescendentes na região.

Desde o ano passado, 14 reuniões de negociação permitiram que um acordo fosse obtido sobre mais da metade do texto. O governo dos EUA, ao longo de todo o ano de 2025, se recusou a participar do processo.

Mas, faltando um mês e meio para a Assembleia, a diplomacia de Trump resolveu agir para paralisar as negociações.

Para isso, buscou apoio em seu grupo de países mais alinhados, e muitos deles governados pela extrema-direita. Assim, o esforço de minar o processo passou a contar com o apoio de Argentina, El Salvador, Honduras, Paraguai, Peru, Equador e outros.

A operação por parte de Trump também passa pelo Caribe, região que possui grande população afrodescendente e vinha se engajando nas negociações em bloco. Segundo diplomatas, o grupo também sentiu a pressão norte-americana.

Os embaixadores do Haiti, Jamaica e Belize receberam ultimatos. Outros países menores da região também receberam recados de que a insistência em levar a Declaração para a Assembleia Geral seria encarada como afronta aos EUA.

Diante da debilidade de vários desses governos, a pressão surtiu efeito. Em reunião da Comissão encarregada do tema na OEA, diversos países pediram mais tempo para negociar, defendendo que não se envie o texto à próxima assembleia, mesmo tendo ainda seis semanas que poderiam ser usadas para fechar o texto.

O embaixador dos EUA, Leandro Rizzuto, na linha do voto contrário de seu país na ONU à resolução que definiu o tráfico transatlântico de escravizados como crime contra a humanidade, disse a interlocutores de diversos países que não admitirá que o tema dos direitos dos afrodescendentes conste da agenda da Assembleia Geral.

Para além da pauta de defesa do movimento negro, o episódio demonstra a subordinação de diversos países aos desígnios dos EUA, mesmo em assuntos que deveriam ser consensuais e constituem prioridade retórica dos respectivos governos.

Segundo diplomata brasileiro familiarizado com as negociações, “o cenário não apenas revela a debilidade de alguns países para defender seus próprios interesses e valores diante do unilateralismo do país hegemônico na região, mas também confirma a adesão automática de grupo de países ao ideário anti-direitos, que tende a naturalizar a discriminação e a exclusão de grupos vulneráveis”.

*Jamil Chade;ICL


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Mundo

Em meio aos escombros, ativista brasileiro Thiago Ávila vira mural em Gaza

Após sequestro por Israel, Thiago está livre e foi deportado para a cidade do Cairo, no Egito, neste fim de semana

Thiago Ávila não chegou até Gaza. Há uma semana, ele foi sequestrado de seu barco que tinha o território palestino como destino. O ativista brasileiro foi preso por Israel e, neste fim de semana, deportado ao Brasil. Mas ele

se transformou em um símbolo da ajuda humanitária e, neste domingo, ganhou um mural em Gaza.

O artista, Obeil Al Qarshali, escolheu um dos raros muros ainda de pé em Gaza para pintar a imagem de Ávila. Com 28 anos, ele explicou:

Por meio dessa obra, eu queria expressar meu apoio a eles, e esse é meu presente depois de sua libertação da prisão de Israel.

Quero encorajá-los a continuar a apoiar a Palestinas e quero dizer que a Palestina não se esquece quem fica ao seu lado e a apoia.

As imagens e depoimento foram enviados ao ICL Notícias pelo fotógrafo palestino Mohamed Ahmed.

Nos últimos dias, a prisão do ativista despertou uma preocupação internacional. A ONU quer que os maus-tratos contra o brasileiro sejam investigados. Num comunicado emitido na semana passada, a entidade defendeu que os responsáveis por violações sejam levados à Justiça.

Conforme o ICL Notícias já havia revelado na terça-feira com exclusividade, a pressão da ONU era para que Ávila fosse solto, sem qualquer condição imposta.

Além de Ávila, foi levado para Israel o ativista Sair Abukeshek, de nacionalidade espanhola.

O governo brasileiro falou em “sequestro”. Mas não optou por romper relações diplomáticas com Israel.

A defesa do brasileiro apontou que a prisão de Ávila foi marcada por violência. De acordo com um comunicado, os ativistas permanecem em isolamento total, submetidos a iluminação intensa 24 horas por dia, em suas celas, e mantidos com os olhos vendados sempre que são transferidos, inclusive durante exames médicos.

O porta-voz do Escritório de Direitos Humanos da ONU, Thameen Al-Kheetan, afirmou:

Não é crime demonstrar solidariedade e tentar levar ajuda humanitária à população palestina em Gaza, que necessita urgentemente dela. Relatos perturbadores de maus-tratos severos infligidos a Abukeshek e de Avila devem ser investigados, e os responsáveis devem ser levados à justiça.

Exigimos o fim da detenção arbitrária por Israel e da legislação antiterrorista, ampla e vaga, incompatível com o direito internacional dos direitos humanos. Israel também deve pôr fim ao bloqueio a Gaza e permitir e facilitar a entrada de ajuda humanitária em quantidade suficiente na Faixa de Gaza sitiada.

*Jamil Chade/ICL


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Mundo Tecnologia

Palantir: a empresa mais perigosa do mundo

Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem em destaque: Adrián Astorgano / El Salto)

A Palantir combina ferramentas de controle, a lucratividade da guerra e ideologias totalitárias em uma série de produtos que se espalharam por todo o planeta

inferno se abateu sobre a escola Shajareh Tayyebeh, em Minab. Era sábado, 28 de fevereiro de 2026, dia letivo no Irã. As aulas haviam sido suspensas devido aos bombardeios americanos, mas centenas de pessoas permaneciam no prédio, esperando que os alunos fossem buscados por suas famílias. Era um processo demorado, já que muitas meninas e meninos moravam nas aldeias vizinhas e precisavam esperar a chegada dos veículos vindos das áreas rurais. Três mísseis Tomahawk atingiram a escola de Minab, causando 175 vítimas fatais, a maioria delas crianças.

Shajareh Tayyebeh é o cenário do primeiro suposto crime de guerra da Operação Fúria Épica lançada pelos Estados Unidos e Israel. Conforme admitiram fontes do exército norte-americano, cuja administração a princípio negou o ataque, tratou-se de um erro. O software utilizado para a classificação de alvos havia identificado aquela escola infantil como uma infraestrutura militar. Assim estava designada desde 2013 e ninguém — nem humano, nem máquina — havia alterado a classificação daquele centro, que há muito tempo era independente do prédio militar adjacente.

Um software de comando e controle chamado Maven, que tem como base a hipótese de que a rapidez na tomada de decisões é determinante para a vitória em uma guerra, selecionou a infraestrutura civil e os humanos endossaram a decisão de bombardear a escola. Trata-se de um sistema de inteligência artificial utilizado pelo Pentágono para análise de inteligência, vigilância e planejamento de ataques.

Outras investigações indicam que o Maven também foi a ferramenta por trás da operação de sequestro de Nicolás Maduro lançada pela Casa Branca em 3 de janeiro de 2026. Em 21 de março de 2026, três semanas após o massacre de Minab, a Reuters informou que um memorando do Pentágono estabelecia o Maven como o sistema militar central dos Estados Unidos. Por trás do Maven está a Palantir ou, como a qualificou Robert Reich, ex-secretário do Trabalho no governo Obama, “a empresa mais perigosa da América”.

Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. A CIA seguiu o instinto de Peter Thiel e Alex Karp, fundadores da Palantir, que perceberam que os ataques de 11 de setembro de 2001 poderiam ter sido antecipados com uma infraestrutura capaz de apresentar, de forma simples e operacional, os dados que já estavam nas bases das principais agências de inteligência do país.

Foi assim que a Palantir cresceu e, por meio dos softwares Gotham (para instituições de controle) e Foundry (para empresas), expandiu-se por todos os pontos do “Ocidente” com uma aposta baseada no domínio. A empresa fornece sistemas que permitem às agências governamentais acessar um panóptico de vigilância e, uma vez estabelecida nelas, torna-se parte indispensável da gestão política do Estado, contribuindo para uma base de obscuridade e invisibilidade das decisões que evita a prestação de contas democrática.

Em 18 de abril, o cofundador da Palantir, Alex Karp, e Nicholas W. Zamiska, chefe de assuntos corporativos da empresa, lançaram um manifesto por meio da rede de extrema direita X, o que colocou a empresa como tema de conversa em todo o mundo. Baseado no livro A República Tecnológica: Poder Bruto, Pensamento Fraco e o Futuro do Ocidente, escrito por Karp e Zamiska e publicado em 2025, o manifesto gerou milhares de posts e artigos, mas também teve um impacto colateral entre os funcionários da empresa. “Era supostamente nós que deveríamos impedir muitos desses abusos. Agora não os impedimos. Parece que estamos os promovendo”, explicava um desses funcionários à revista norte-americana Wired.

Mas, acima de tudo, o manifesto colocava em primeiro plano alguns dos discursos que Karp tem defendido nos últimos anos. Sua hipótese é que a sociedade americana se tornou medíocre, que a “psicologização da política moderna” é um desvio do caminho correto e que a indústria tecnológica tem se orientado para satisfazer esse conformismo, o que fez com que os EUA ficassem para trás na corrida armamentista e na defesa da nação, algo com o que o manifesto se inicia. Para isso, sugerem o retorno do serviço militar obrigatório e a primazia que os EUA devem ocupar na “dissuasão baseada em IA”. Outro dos elementos que levou o manifesto a ser descrito como “os delírios de um supervilão”, é um forte viés supremacista, explicitado em frases como “algumas culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e regressivas”.

Expandida por todo o mundo
Somando os contratos obtidos do Departamento de Segurança Interna, do Departamento de Defesa e do Pentágono, a empresa obteve 1,8 bilhões de dólares em receitas provenientes do governo dos EUA em 2025. 55% da receita da Palantir depende desses contratos, o que demonstra a imbricacão do atual governo Trump, suas políticas de choque e a posição monopolística que a empresa de Thiel e Karp está ocupando no atual processo de acumulação militarizada. A Palantir é proprietária de um software que está forjando as bases do novo Estado policial norte-americano, conforme descrito por Robert Reich. Na sequência do manifesto da Palantir, os autores Arnaud Miranda e Gilles Gressani descreveram como “por trás do vocabulário republicano, se desenrola uma estratégia que pode ser resumida em uma fórmula: transformar o Estado em uma filial de sua própria infraestrutura digital, esvaziando assim a soberania de sua dimensão democrática”.

O Ministério da Defesa espanhol, o serviço de inteligência francês ou sistemas como o de saúde e o de dissuasão nuclear britânicos contrataram os serviços da Palantir, que também se ofereceu para gerenciar, a baixo custo, sistemas logísticos de distribuição de ajuda por parte de ONGs. Uma experiência que agora serve para a gestão das batidas migratórias realizadas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA (ICE) por meio do programa ImmigrationOS fornecido pela empresa de Thiel e Karp.

A jornalista especializada em tecnologia e direitos humanos Marta Peirano explica que a base do poder acumulado pela Palantir é a gestão privada de dados fornecidos por órgãos públicos. A partir dessa análise e apresentação, a empresa propõe modelos algorítmicos de tomada de decisão que oferecem soluções aparentemente técnicas. Em terceiro lugar, a Palantir treina seus modelos de inteligência artificial com base nos dados e na experiência coletados, de modo que, embora a empresa afirme não acumular esses dados, na prática eles se tornam o combustível que alimenta seu produto.

Em toda a cadeia de decisões, há considerações éticas sobre privacidade e os vieses empregados nessas segmentações que despertam a atenção de defensores dos direitos humanos em todo o mundo. Há uma “delegação de funções e responsabilidades por parte do governo”, detalha Peirano, que transforma a empresa em um ator privilegiado no comando de instituições, a priori, sujeitas ao escrutínio democrático. Como alertou o pesquisador francês Olivier Tesquet, coautor de Apocalipsis Nerd, por meio dessa posição de poder na tomada de decisões, a Palantir aspira se tornar “o sistema nervoso da próxima ordem mundial”.

O anticristo e o transumanismo
Uma empresa perigosa requer fundadores perigosos. Na campanha de 2016, Thiel foi um dos grandes doadores de Trump, o primeiro dentro do até então nominalmente liberal Vale do Silício. Posteriormente, tornou-se o grande patrocinador do agora vice-presidente dos EUA, JD Vance. Após a vitória da chapa formada por Trump e Vance em 2024, Thiel colocou parte de sua comitiva em cargos-chave do governo americano. Outra figura fundamental do governo Trump, o porta-voz e vice-diretor do Gabinete de Políticas da Casa Branca, Stephen Miller, possui uma participação de várias centenas de milhares de dólares na Palantir.

O fundador da Palantir soube enxergar o potencial de Donald Trump como acelerador das tendências pós-democráticas necessárias para seu projeto político. Seu credo está relacionado ao do Iluminismo Negro. Baseia-se na preeminência dos monopólios, monarquias corporativas, destinadas a governar cidades ou territórios fora do princípio democrático. A ideia foi colocada em prática em ilhas como Roatán — cedida pelo governo corrupto de Juan Orlando Hernández, em Honduras — onde o município de Próspera é uma “zona de emprego e desenvolvimento econômico” fundada em 2017 com o dinheiro de uma série de tecnooligarcas, entre os quais se encontra Thiel. Próspera prefigura um plano muito mais ambicioso: o controle das populações por meio da tecnologia e da vigilância e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento das criptomoedas como ferramenta de controle por meio da economia. Mutatis mutandis, é o mesmo plano apresentado por Jared Kushner para a “nova Gaza”.

A Próspera tem sido, também, um pequeno laboratório de experimentação clínica, seguindo o principal desejo de transcendência que move Thiel e outros investidores como Sam Altman (ChatGPT) ou o investidor Marc Andreesen, seguidores das filosofias TESCREAL. Essa sigla, popularizada de forma crítica pelo filósofo Emile P. Torres, abrange uma série de vertentes de pensamento, entre as quais se destacam o transumanismo e o longoprazismo, nos quais Thiel milita ativamente.

Essas ideologias coincidem em um ponto-chave: a extinção dos seres humanos pode se tornar um dano colateral da chegada dos indivíduos pós-humanos, uma ideia defendida por Thiel, entre outros. Como Torres observou a respeito do longoprazismo no podcast Utopía X: “Vejo o longoprazismo como um movimento a favor da extinção que, como tal, representa uma ameaça significativa e de curto prazo para nossa espécie, porque os longoprazistas não estão interessados só em criar pós-humanos em algum momento, mas querem criar pós-humanos o mais rápido possível”.

Da Escola de Frankfurt à Escola de Minab
O segundo nome mais conhecido da Palantir é o de Alex Karp, CEO da empresa. Ao contrário de Thiel, Karp remete-se à tradição filosófica europeia, em princípio distante do milenarismo profético que caracteriza o primeiro. Influenciado por Jünger, Habermas e a Escola de Frankfurt, Karp mudou de um discurso que inicialmente era entendido como “a esquerda da Palantir” para um pensamento que identifica dois inimigos fundamentais.

Em primeiro lugar, os inimigos do que eles chamam de “Ocidente”, ou seja, a Rússia, o Irã e, sobretudo, a China. Em segundo lugar, o chamado “vírus woke”, com o qual a extrema direita classifica a esquerda defensora dos direitos humanos. Como resume Tesquet, para Karp “as democracias estão perdendo uma espécie de guerra de civilizações contra seus adversários autoritários, não porque lhes falte talento, mas porque seus engenheiros se tornaram apreensivos demais para colocar suas habilidades a serviço do poder militar”.

De origem judaica, o fator que desencadeou o discurso mais violento por parte de Karp foi o genocídio perpetrado por Israel em Gaza, no qual a Palantir participou orgulhosamente, conforme confirmou o próprio CEO da empresa.

Os assassinatos extrajudiciais fazem parte dos danos com os quais a civilização deve arcar, segundo a ideologia exposta por Karp, que se inspira cada vez mais em uma fonte alemã radicalmente distinta das de Frankfurt, como é o pensamento do jurista do Terceiro Reich Carl Schmitt a respeito da dicotomia amigo-inimigo, na qual os Estados se baseiam para sua maior prosperidade. Em uma reviravolta inusitada, o manifesto publicado em abril por Karp e Zamiska fazia uma referência às potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial, em seu ponto número 15: “O desarmamento da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa agora está pagando um alto preço. Um compromisso semelhante e altamente teatral com o pacifismo japonês, se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia”.

Como concluiu Olivier Tesquet, a Palantir ocupa um lugar central na biopolítica do capitalismo tardio, decidindo quem deve viver — inclusive, seguindo o credo de Thiel, que tipo de seres pós-humanos devem sobreviver à espécie homo sapiens — e quem deve morrer, em uma aposta pela necropolítica de difícil reversão. Para revertê-la, conclui Peirano, não basta acabar com a crescente dependência que os Estados ocidentais adotaram em relação à Palantir, mas será necessário destruir as bases de dados acumuladas por essa empresa, uma empresa que aspira criar uma espécie de Razão Tecnológica de Estado, uma versão acelerada e privada das tendências autoritárias latentes nas democracias liberais.

*Opera Mundi

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Brasil Mundo

Brasil supera EUA e lidera ranking global dos investimentos chineses

Em 2025, os chinenses aplicaram no país US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos

O Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) divulgou que o Brasil assumiu a primeira colocação do ranking global de investimentos da China no exterior. Em 2025, os chinenses aplicaram no país US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos.

Desse modo, houve um crescimento de 45% em valor e 33% em número de empreendimentos em relação ao ano anterior.

“Esse desempenho colocou o Brasil como principal destino global dos investimentos chineses naquele ano, respondendo por cerca de 11% do total aplicado pela China no exterior, um resultado expressivo”, diz nota do CEBC.

O Brasil superou os Estados Unidos, que detêm 6,8% dos aportes globais feitos pelos chinenses, seguido da Guiana com 5,7%, Indonésia com 5,4% e Cazaquistão com 4,4%.

Do ponto de vista setorial, houve uma mudança relevante na composição dos aportes. Segundo a CEBC, o setor de eletricidade manteve a liderança em termos de valor, com forte concentração em projetos de energia renovável e transmissão, mas os investimentos em mineração mais que triplicaram, atingindo sua maior participação histórica.

“Esse movimento reflete o interesse estratégico da China por minerais críticos como cobre, níquel, ouro, grafite e terras raras. A crescente presença de empresas chinesas na mineração dialoga diretamente com o avanço de investimentos na indústria de veículos eletrificados, outro destaque de 2025”, diz o Conselho.

O balanço da entidade aponta que, a despeito desses grandes aportes em energia, mineração e setor automotivo, destaca-se a diversificação crescente dos investimentos chineses, segundo o Vermelho.

Por exemplo, houve expansão para áreas como Tecnologia da Informação, logística, manufaturas de eletroeletrônicos e serviços associados à economia digital.

O CEBC conclui que o Brasil se consolida como um destino estratégico prioritário para capital produtivo, combinando “uma janela macroeconômica favorável e vantagens estruturais como grande mercado consumidor, abundância de recursos minerais e energéticos e uma matriz elétrica limpa, ao mesmo tempo em que se beneficia do redirecionamento do investimento chinês diante de restrições geopolíticas”.

Confira os investimentos por setor:

– O setor de eletricidade foi o que mais atraiu investimentos chineses no Brasil, com participação de 29,5% e aportes que somaram US$ 1,79 bilhão, um aumento de 25% em relação a 2024 e o maior valor desde 2020.

– A área de mineração recebeu investimentos de US$ 1,76 bilhão – mais que o triplo do valor registrado em 2024 e o maior valor desde 2011.

– O setor automotivo ficou em terceiro lugar e respondeu por 15,8% do valor investido pelas empresas chinesas no Brasil em 2025, com aportes que somaram US$ 965 milhões — cifra 66% maior do que a registrada em 2024.

– Os investimentos chineses no setor de petróleo chegaram a US$ 804 milhões em 2025, 24% a menos do que no ano anterior.


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Mundo

Flotilha denuncia agressão sexual de soldados israelenses contra ativistas

Organização afirma que abusos fazem parte de ‘padrão mais amplo de desumanização’ aos ativistas pró-Palestina

A Global Sumud Flotilha (GSF) denunciou relatos de ativistas que sofreram violência física e sexual de soldados israelenses durante a detenção da embarcação humanitária em águas internacionais. Segundo a organização, pelo menos quatro participantes foram assediados pelos militares das IOF.

“Duas pessoas relataram terem sofrido penetração anal com um dedo. Outras relataram terem sido golpeadas repetidamente e com força nos órgãos genitais; e outras tiveram seus órgãos genitais agarrados, apertados ou puxados; e, simultaneamente, sofreram agressão sexual verbal”, expõe o comunicado.

De acordo com a flotilha, os participantes também documentaram um regime de procedimentos de revista invasivos e humilhantes, “juntamente com traumas físicos e sexuais direcionados tanto a homens quanto a mulheres”.

“Esses relatos não são descritos como incidentes isolados, mas sim como parte de um padrão mais amplo de tratamento destinado a desumanizar aqueles que se solidarizam com o povo palestino”, denunciou a organização.

Além das denúncias de violência sexual, Saif Abukeshek e Thiago Ávila seguem presos
Sob custódia ilegal no centro de Shikma, em Israel, o espanhol-palestino Saif Abukeshek e o brasileiro Thiago Ávila estão realizando greve de fome para protestar contra seu sequestro e os maus-tratos que têm sofrido.

Saif Abukeshek está entrando no seu terceiro dia de greve de água. “Enquanto detido ilegalmente pelo regime israelense, Saif enfrentou ameaças de morte, ameaças contra sua família, situações de estresse prolongado tão severas que precisou de oxigênio, transferências violentas e interrogatórios implacáveis”, informou a Global Sumud Flotilha.

Enquanto os ativistas seguem detidos, a organização humanitária acrescentou que surgiram testemunhos sobre os métodos utilizados para subjugá-los. “Sobreviventes relatam que, quando as IOF sentiram que seu poder havia sido desafiado, elas intensificaram a violência física e sexual”.

Depoimentos descrevem um regime de privação ambiental calculada usado para quebrar a determinação dos participantes. Segundo a GSF, o regime inclui táticas de exposição: áreas fora dos contêineres onde os participantes estavam detidos foram inundadas com água durante a noite. “Isso os levou a dormir obrigados ao ar livre, a estados de extremo sofrimento físico”.

Enquanto os ativistas seguem detidos, a organização humanitária acrescentou que surgiram testemunhos sobre os métodos utilizados para subjugá-los. “Sobreviventes relatam que, quando as IOF sentiram que seu poder havia sido desafiado, elas intensificaram a violência física e sexual”.

Depoimentos descrevem um regime de privação ambiental calculada usado para quebrar a determinação dos participantes. Segundo a GSF, o regime inclui táticas de exposição: áreas fora dos contêineres onde os participantes estavam detidos foram inundadas com água durante a noite. “Isso os levou a dormir obrigados ao ar livre, a estados de extremo sofrimento físico”.

Além disso, relatos incluem privação de recursos básicos, com a retirada proposital de “roupas quentes, sapatos e meias, aliada à falta de alimentação, água e roupa de cama adequadas”. Há ainda negligência médica: essas condições resultaram em vários participantes sofrendo de graus variados de hipertermia e hipotermia.

*Opera Mundi


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Das tarifas às terras raras, Lula reposiciona o Brasil após encontro com Trump

Reunião de três horas, na Casa Branca, terminou com os presidentes destacando avanços concretos. A relação saiu do limbo e voltou à mesa.

A quinta visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Washington tinha tudo para ser uma agenda de alto risco – um teste de pressão – para um presidente que enfrenta uma eleição no horizonte. O cenário era agravado não apenas pela persistência parcial do “tarifaço” imposto em 2025. Ao lado disso, o Brasil e o mundo convivem com o “modo Donald Trump” – tensão comercial permanente, ameaças tarifárias e um ambiente internacional atravessado por guerras, disputas tecnológicas e reorganização das cadeias produtivas.

Mas a reunião de três horas entre Lula e Trump, nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, terminou com os presidentes destacando avanços concretos. A relação saiu do limbo e voltou à mesa. Os dois lados concordaram que novas reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário – e a ameaça de escalada de atritos foi contida. Lula volta ao Brasil com canal político aberto, reconhecimento de interlocução e disposição para continuidade das negociações.

A agenda da visita previa uma declaração conjunta à imprensa no Salão Oval, que não ocorreu. Mas Trump – que raramente distribui elogios gratuitos a líderes estrangeiros – foi à sua rede social, a Truth Social, e voltou a classificar o presidente brasileiro como “muito dinâmico”. Lula retribuiu elogios e, antes da coletiva do presidente na embaixada do Brasil em Washington, ministros já falavam em uma reunião “extraordinária”, “muito positiva” e “altiva”.

Tarifas, minerais críticos, segurança e cooperação econômica estiveram no centro das negociações. O tom adotado por Trump após o encontro sugere que Washington passou a enxergar Brasília menos como problema e mais como parceiro necessário. A Casa Branca não subestima o peso estratégico do Brasil em temas decisivos para a próxima década, como transição energética, terras raras, segurança alimentar e estabilidade regional.

Enfrentando o “tarifaço”

Quando Trump anunciou, em 2025, novas tarifas e mecanismos de proteção comercial para setores estratégicos da economia norte-americana, muita gente apostou que países periféricos acabariam entrando numa fila de concessões. Além de lançar um tarifaço de 50% sobre uma ampla gama de produtos do Brasil, Trump abriu investigação comercial contra o País e sancionou autoridades brasileiras no contexto das tensões políticas bilaterais.

Mas não houve capitulação. Em vez da submissão diplomática, Lula apostou numa combinação de firmeza política e pragmatismo econômico. Houve diversificação comercial e reforço do Mercosul, sem transformar o embate em guerra ideológica. Em compensação, Lula criticou o tarifaço publicamente, elevou o tom e manteve a linha de que o Brasil “não negocia de joelhos”, nem aceitaria medidas unilaterais que prejudicassem exportações nacionais.

A estratégia construiu uma posição, e o resultado apareceu nesta visita: Lula apresentou números e fatos que mostram como o protecionismo norte-americano fere os dois lados, especialmente em setores como aço, alumínio e etanol. Trump confirmou publicamente que o tema esteve na mesa e concordou em criar um grupo de trabalho bilateral para revisar tarifas setoriais nos próximos 90 dias.

A mudança é importante porque, até pouco tempo atrás, a política comercial dos EUA vinha operando sob um eixo quase exclusivamente defensivo: proteger a indústria doméstica a qualquer custo, mesmo em confrontos com parceiros históricos. Hoje, o encontro ajudou a desarmar a lógica de escalada tarifária.

Terras raras

Há dez anos, uma reunião Brasil-EUA giraria principalmente em torno de petróleo, etanol ou commodities agrícolas. Agora, o centro gravitacional mudou e deu ao Brasil uma vantagem estrutural. Os minerais críticos estiveram entre os assuntos prioritários da agenda – o que ajuda a entender por que Washington tratou a visita com tanta atenção.

O Brasil possui reservas importantes de terras raras – que são insumos essenciais para a produção de baterias, semicondutores, inteligência artificial, carros elétricos e indústria militar. Quem controla essas cadeias controla parte relevante da economia do futuro. O desafio brasileiro é garantir a expansão produtiva do setor, abandonando a tradição de exportações primárias sem valor agregado.

Ao mesmo tempo, os EUA sabem que dependência excessiva da China nesse setor virou um problema estratégico. Lula percebeu essa janela. Ao inserir o Brasil como parceiro confiável na reorganização dessas cadeias globais, o governo tenta transformar riqueza mineral em instrumento de soberania, segundo o Vermelho.

“Nós não temos preferência”, afirmou Lula à imprensa. “Quem quiser participar conosco para ajudar a gente a fazer a mineração, a separação, e para produzir a riqueza que essas terras raras nos oferecem está sendo convidado para ir ao Brasil.”

Os dois países avançaram num memorando de entendimento para investimentos norte-americanos em refino e processamento local, com transferência de tecnologia. O Brasil sinalizou abertura à parceria, com a condição de que o valor agregado fique em território nacional. Segundo Lula, o Brasil – que já foi a “grande fazenda do mundo”, uma colônia extrativista – quer usar as terras raras para se transformar numa plataforma industrial verde.

Segurança e estabilidade regional

Um dos capítulos menos comentados da reunião, mas potencialmente dos mais duradouros, foi o de segurança. O governo Lula tentou ampliar acordos de inteligência e compartilhamento de dados com autoridades norte-americanas. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, os países já trabalham conjuntamente na troca de informações sobre cargas e contêineres suspeitos de transportar armas e drogas.

Na conversa entre os presidentes, a proposta brasileira foi de maior cooperação em segurança, o que envolve combate ao crime organizado transnacional (incluindo garimpo ilegal, tráfico de drogas e armas), estabilidade regional e coordenação em temas hemisféricos. A oferta foi aceita: os EUA terão acesso a informações e apoio logístico, mas sob coordenação brasileira.

A discussão ganhou força após o Departamento de Estado dos EUA classificar o PCC e o Comando Vermelho como ameaças significativas à segurança regional. O governo norte-americano avaliou enquadrá-las como organizações terroristas. Lula escolheu transformar o tema em agenda propositiva, expondo o que seu governo já faz e o que pretende fazer.

Nesse ponto, o Brasil voltou a ocupar posição de articulador regional. Durante anos – sob os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro –, o País abdicou voluntariamente desse papel. Agora, tenta retomá-lo. Lula compreende que liderança regional se exerce com capacidade de diálogo simultâneo com Washington, Pequim, Europa e Sul Global.

O encontro com Trump reforça exatamente essa política de autonomia sem isolamento. Lula foi aos EUA sem abandonar críticas ao protecionismo norte-americano – mas também sem transformar a reunião num espetáculo de confronto para consumo interno.

“Demos um passo importante na consolidação da relação democrática e histórica que o Brasil tem com os EUA. As duas maiores democracias do continente podem servir de exemplo para o mundo”, resumiu Lula. “Saio muito, muito satisfeito.”

Ao final, se Trump elogiava Lula, Lula exaltava o diálogo e ministros falavam em avanços objetivos, o Brasil saía reposicionado numa mesa que concentra parte das decisões mais importantes da economia mundial. Lula não resolveu tudo, mas saiu de Washington tendo feito o que mais importava: mostrou que o Brasil tem peso, oferta e paciência para negociar sem se humilhar.


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O antipetismo biliar está mudo com o encontro de Lula com Trump

O bolsonarismo cedeu ao apelo da biografia de estadista do presidente Lula e preferiu se ausentar de qualquer julgamento antecipado para não quebrar a cara. Todos olhando o encontro pela trinca da porta sem conseguir respirar tamanha a convulsão intestina que lhes acomete.

Essa gente é desprovida de referências e propósitos fora do círculo de ódio que não os de condenar e execrar Lula.

Longe de ser uma nova forma de lidar com a realidade, a “opinião pública” de bolsonaristas vale tanto quanto a tribuna de Bolsonaro na prisão.

Por isso a sofreguidão da direita não é pouca, mas não se declara incomodada com o encontro para náo entornar ainda mais o caldo.

Nunca a direita foi tão ofensiva para tntar subjugar Lula a seu juízo, mas neste caso. uma manifestação errática dos reacionários pode reforçar ainda mais a imagem de estadista de Lula.

Por ora, o melhor é não bancar o advogado geral de Bolsonaro e esperar no que de verdade dará esse encontro, torcendo que dê tudo errado para Lula, porque ninguém é de ferro no inferno bolsonarista.


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Em carta, democratas pedem que EUA não classifiquem facções como terroristas

Documento enviado ao governo cita risco de interferência nas eleições brasileiras e relembra apoio dos EUA à ditadura após o golpe de 1964

Parlamentares do Partido Democrata dos Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo que o governo de Donald Trump não classifique o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. O documento foi encaminhado na véspera da reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

A carta foi liderada pelo deputado James P. McGovern, copresidente da Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos da Câmara dos Representantes dos EUA, e assinada por outros seis parlamentares democratas: Greg Casar, Sydney Kamlager-Dove, Jan Schakowsky, Nydia Velázquez, Delia Ramirez e Rashida Tlaib.

No documento, os parlamentares afirmam que as facções brasileiras representam ameaça regional, possuem atuação transnacional e estão envolvidas em crimes ambientais, violência e expansão de atividades ilícitas em países da América do Sul. Apesar disso, argumentam que a classificação como organizações terroristas poderia gerar efeitos políticos e diplomáticos graves.

“Estamos preocupados com o uso excessivo e a instrumentalização das classificações de organizações terroristas estrangeiras sem que seja atendido o limite legal claro para atividades terroristas”, afirmam os deputados.

De acordo com Cleber Lourenço e Jamil Chade, ICL, a carta também cita preocupação com o uso político da medida durante o período eleitoral brasileiro. Segundo os parlamentares, existe temor de que a classificação das facções seja utilizada “para influenciar inadequadamente as eleições” no Brasil.

Os deputados relacionam essa preocupação ao histórico de intervenção dos Estados Unidos no país e mencionam explicitamente o apoio americano à ditadura militar instaurada após o golpe de 1964.

“Essa preocupação é ampliada pela longa e preocupante história de intervenção dos EUA no Brasil, incluindo o apoio documentado dos EUA à ditadura militar após o golpe de 1964”, diz o documento.

O texto também faz referência às sanções aplicadas anteriormente contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe relacionada às eleições de 2022.

Segundo os parlamentares democratas, o governo Trump já teria utilizado mecanismos de sanção para interferir em assuntos internos brasileiros. A carta afirma que, embora as sanções contra Moraes tenham sido revertidas após mediação diplomática, ainda há preocupação com a postura do governo americano em relação ao Brasil.

O principal articulador da carta, James McGovern, é um dos parlamentares mais ligados às pautas de direitos humanos dentro do Partido Democrata e copresidente da Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos da Câmara dos Representantes dos EUA. McGovern atua há décadas em temas ligados à política externa americana, direitos humanos e sanções internacionais.

O deputado também esteve entre os parlamentares democratas que criticaram o uso político da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras. Em outra ofensiva recente, McGovern questionou a utilização de mecanismos internacionais de sanção contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, classificando a medida como uma forma de pressão política sobre instituições brasileiras.

A Lei Magnitsky é uma legislação americana utilizada para impor sanções internacionais contra pessoas acusadas de corrupção ou violações graves de direitos humanos. Embora McGovern não seja autor formal da lei, ele é historicamente ligado às articulações do Congresso americano em temas relacionados a sanções internacionais e responsabilização por violações de direitos humanos.

No documento, os parlamentares defendem que o combate ao crime organizado seja realizado por meio de cooperação diplomática, integração entre forças policiais, investigações financeiras e acordos multilaterais internacionais.

A carta também pede que os Estados Unidos ampliem ações de combate ao tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro, tráfico humano e narcotráfico, além de reforçar investimentos em fortalecimento institucional e combate à corrupção.

Os parlamentares ainda solicitam que o Departamento de Estado apresente ao Congresso americano todas as evidências que eventualmente justificariam uma classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas antes de qualquer decisão formal.

A eventual classificação das facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras ampliaria significativamente o alcance de medidas internacionais contra integrantes, financiadores e estruturas ligadas aos grupos, permitindo aplicação de sanções financeiras, restrições internacionais e ampliação da cooperação operacional entre agências de segurança.

O envio da carta ocorre em meio ao aumento das tensões diplomáticas envolvendo o governo Trump, o STF e setores do governo brasileiro, além da aproximação do calendário eleitoral de 2026.

A carta enviada por congressistas de peso da ala democrata foi comemorada no Palácio do Planalto. Para membros do governo, ela “desmascara” as reais intenções tanto de Donald Trump como dos bolsonaristas em qualificar os grupos criminosos como entidades terroristas: um eventual envolvimento e abalo nas eleições de 2026.

Parte central da visita de Lula nesta quinta-feira é a de estabelecer uma linha vermelha sobre o que é aceitável e o que o Brasil não irá tolerar no que se refere à inferência em assuntos domésticos.

Durante a reunião, o governo irá declarar abertamente que não existem terroristas no país e convidar Trump a colaborar na luta contra o “andar de cima” do crime organizado no Brasil. De fato, uma proposta foi apresentada no final de abril nesse sentido.

Para o governo Lula, a carta dos democratas é ainda uma tentativa de criar um curto-circuito na influência de bolsonaristas no governo americano. Ao receber de parlamentares americanos o alerta — e não de um governo estrangeiro — a esperança é de que a administração Trump possa dar outro peso para os argumentos.

Por fim, membros no Planalto estimam que a carta é uma sinalização também para a elite política americana e opinião pública sobre o caráter autoritário de Trump, ao citar o golpe de estado de 1964 no Brasil.


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